Um operário chinês recebe 1 cêntimo por boneca que custa 40 euros

O pesadelo que vivem os operários na China que produzem brinquedos para todo o mundo foi alvo de um relatório que mostra que estes vivem em condições degradantes e excedem em cinco vezes o número de horas extraordinárias

"Hoje a maioria dos brinquedos são feitos na China. Eles são a fonte dos sonhos das crianças por todo o mundo. Contudo, o processo através do qual estes sonhos são criados permanece um pesadelo." É assim que começa o relatório intitulado "Um Pesadelo para Trabalhadores" sobre quatro dessas fábricas na China onde brinquedos da Disney, da Lego ou da Mattel, entre outras empresas, são produzidos.

O relatório mostra que os trabalhadores recebem menos de um euro por hora, trabalham ilegalmente 175 horas extraordinárias por mês, com apenas um dia de folga por semana, ultrapassando em cinco vezes o limite legal de 36 horas, e indo contra a legislação laboral chinesa ou o código de conduta da indústria de brinquedos. Na altura do pico da produção, os trabalhadores fazem turnos de 11 horas.

Falta equipamento básico de segurança que põe em perigo a saúde e a vida dos trabalhadores que manuseiam químicos tóxicos que causam envenenamentos, leucemias e, no limite, são fatais.

O salário é insuficiente para sustentar uma família e na maioria os trabalhadores vêm de longe, o que os abriga a sujeitarem-se às condições degradantes de habitação, onde um quarto é partilhado por oito pessoas e alguns duches não têm sequer água quente. Além disso, os trabalhadores, exaustos, trabalham a partir de contratos assinados em branco e dos quais não receberam cópias.

A investigação mostra também que houve operários dispensados por tirarem três ou mais dias por doença. Outra das irregularidades detetada foi a desigualdade de género existente numa das fábricas, em Heyuan, com dois mil trabalhadores, onde 9 em 10 lugares de chefia são ocupados por homens, enquanto as mulheres representam 80% da força de trabalho.

Publicado nesta quinta-feira e resultado de uma parceria entre as organizações de direitos humanos Solidar Suisse, China Labor Watch, Chrisliche Initiative Romero, e Actionaide, em parceria com o Guardian , o relatório mostra que essa fábrica de Heyuan, por exemplo, produz uma boneca Ariel, a sereia da Disney, que é vendida a cerca de 39 euros no mercado inglês, e com custos de produção de 14,36 libras (cerca de 16 euros). Por cada boneca que é produzida, contudo, os operários que a fabricaram recebem cerca de um cêntimo.

No pico da produção, no último verão, da linha de produção da fábrica saíam todos os dias 2 400 bonecas Ariel. No total, a boneca gerou lucros à Disney de 264 milhões de libras (cerca de 297 milhões de euros).

Fotografias que constam no relatório mostram operários exaustos a dormir sobre as mesas de trabalho e as condições degradantes em que habitam. Um dos responsáveis pela investigação, aliás, escreveu que atrás de si estava uma operária que só queria dormir. "Ela perguntava porque é que o tempo estava a passar tão devagar. Eu disse-lhe que também achava que o tempo estava a passar muito devagar. Quando fazemos uma e outra vez a mesma coisa, começamos a sentir-nos tontos e a nossa visão começa a ficar turva."

A mesma operária disse que a maioria das suas colegas são mulheres com mais de 45 anos que foram para aquela fábrica por terem "poucos estudos, serem bem-comportadas, obedientes e mais preocupadas com os filhos e a família". As fábricas gostam delas, afirma, porque "é menos provável que criem problemas e são mais fáceis de lidar" do que os homens.

Sempre que lhes gritavam, diz o relatório, as trabalhadoras continuavam a trabalhar em silêncio.

Simone Wasmann da Solidar Suisse exortou as empresas de brinquedos a partilhar alguns dos lucros com os trabalhadores. "As crianças adoram os brinquedos da Disney, mas queremos que os seus pais percebam que aqui não há magia de Natal: estes brinquedos foram feitos com trabalho barato de mulheres que ilegalmente trabalharam demasiadas horas a receber cêntimos."

"Para elas são dias e dias de miséria. Elas não trabalham nestas fábricas até tarde à noite porque querem: elas fazem-no porque é a única forma de conseguirem fazer dinheiro suficiente para sobreviver", acrescentou ainda Wasmann. "Mais alguns cêntimos no preço de uma boneca ou alguns cêntimos a menos nos bolsos da empresa permitiriam aos trabalhadores ter um salário com que pudessem viver."

O porta-voz do Conselho Internacional da Indústria de Brinquedos (CIIB), cujo código ético é violado pelas conclusões do relatórios, Mark Robertson, já reagiu à investigação garantindo que aquela instituição vai "trabalhar diretamente com as fábricas para resolver os problemas identificados" e que já foi iniciada uma outra investigação do próprio (CIIB).

A Mattel disse que atualmente não tem produção nas fábricas em causa.

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