Um milhão na Tomada de Caracas apesar dos obstáculos chavistas

Opositores encontraram túneis fechados e estradas bloqueadas para entrar na capital. Novo protesto marcado para dia 7. Apoiantes de Maduro também saíram às ruas

A oposição venezuelana queria reunir um milhão de pessoas na Tomada de Caracas e congratulava-se ontem por ter conseguido. Isto apesar dos túneis fechados, das estradas cortadas e de autocarros vindos de vários pontos da Venezuela terem sido impedidos de entrar na capital, com os manifestantes a optar por seguir a pé. "Lá vai a nossa gente a caminhar para chegar a Caracas! Ali está a força da mudança esquivando-se a barricadas e guarimbas [nome dado aos bloqueios de estradas na Venezuela]", escreveu no Twitter o governador de Miranda e ex-candidato presidencial, Henrique Capriles.

As avenidas Libertador, Rio de Janeiro e Francisco de Miranda pintaram-se de branco. Os opositores gritaram "este governo vai cair", naquele que terá sido o maior protesto contra o governo venezuelano em mais de uma década. Os manifestantes exigem o acelerar do processo para convocar o referendo revogatório do mandato de Nicolás Maduro (ver caixa). Mas, na Avenida Bolívar, o vermelho das camisas era o tom dominante, com os apoiantes do presidente venezuelano a defenderem a revolução bolivariana e a expressar-se nas redes sociais com as hashtag "Não ao golpe na Venezuela" ou "Chavismo quer paz".

Apesar do clima de tensão, com Maduro a acusar a oposição de estar a preparar um golpe de Estado ao estilo do que afastou o ex-presidente Hugo Chávez do poder, durante 47 horas em 2002, até ao início da tarde os protestos decorriam sem grandes incidentes. Houve contudo o relato de que a Guarda Nacional Bolivariana lançou gás lacrimogéneo contra alguns manifestantes que estavam na autoestrada Francisco Fajardo e de escaramuças entre opositores por pensarem que havia um apoiante do presidente no meio do protesto. Na véspera, vários jornalistas estrangeiros foram impedidos de entrar no país para fazer a cobertura das manifestações e o correspondente para a região andina do Miami Herald, Jim Wyss, foi detido antes de ser expulso.

Próximos protestos

O secretário-geral da Mesa de Unidade Democrática, Jesús Torrealba, anunciou as próximas jornadas de luta desde a Avenida Libertador. Na quarta-feira, 7 de setembro, a oposição vai promover uma marcha até ao Conselho Nacional Eleitoral para exigir o acelerar do processo do referendo revogatório. Uma semana depois, no dia 14, haverá uma Jornada Nacional de Mobilização de 12 horas de duração em todas as capitais estaduais. E mais tarde, quando já tiverem sido recolhidas as assinaturas necessárias para o referendo, está também prevista a Tomada da Venezuela, de 24 horas de duração.

Na Avenida Bolívar, Maduro discursou para os apoiantes, congratulando-se com a derrota do "golpe de Estado" e dizendo que "a verdade" é a "principal arma" da revolução bolivariana. Maduro revelou ainda ter preparado um decreto para levantar a imunidade parlamentária, alegando que "não se pode utilizar essa figura para conspirar contra a paz".

Apoio em Portugal

Venezuelanos em Portugal numa manifestação em Lisboa, na avenida da Liberdade, junto à estátua de Bolívar

Lisboa também mostrou solidariedade com a Tomada de Caracas. "É importante participar para o mundo entender o que está a acontecer e para as pessoas terem consciência de que isto afeta todos, que não é uma birra entre partidos políticos", contou ao DN Desirée Picardi Pizani, antes do protesto que juntou cerca de cinco dezenas de pessoas na Avenida da Liberdade, junto à estátua de Simón Bolívar, o libertador da América. "Há um milhão e meio de portugueses que vivem lá e os que vieram para cá, pensando que podiam refugiar-se, não estão a receber as reformas." Casada com um português, esta venezuelana está cá há cinco anos, mas já tinha vivido em Lisboa - a mãe foi diplomata no nosso país entre 1989 e 1992.

Desirée pertence à associação Venexos, que ajuda venezuelanos em Portugal e que há uns meses criou a iniciativa de enviar medicamentos em falta para a Venezuela. "As pessoas perguntam por que é que não há dinheiro para comprar medicamentos, tendo o país tanto petróleo, e não percebem o que está em causa", contou. A Venexos organizou para amanhã outra manifestação, desta vez no Porto, às 15.00, frente ao consulado venezuelano.

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