Um catálogo do IKEA? Não, é o programa eleitoral do Podemos

Catálogo-programa prevê aumento da despesa pública em 60 mil milhões de euros. "Alemanha não deve ter medo", diz responsável económico do Podemos, Nacho Álvarez

O Podemos apresentou ontem em Madrid o seu novo programa para as eleições legislativas do dia 26 deste mês. O partido liderado por Pablo Iglesias optou por um formato inovador, a imitar o famoso catálogo do IKEA, no interior do qual aparecem as medidas nos diferentes quartos da casa onde os candidatos da formação foram fotografados em cenários do quotidiano e a trabalhar. Um catálogo que está à venda no site do partido por 1,8 euros - mais portes de envio - e que segundo disse a secretária do Programa do Podemos, Carolina Bescansa, se espera que "seja o programa mais lido na história das eleições" de Espanha.

O catálogo-programa inclui uma parte económica atualizada e as 50 medidas do acordo com a Esquerda Unida no quadro da coligação Unidos Podemos. São precisamente as medidas económicas as que centram a grande parte das atenções do documento porque é onde se encontram as únicas novidades do programa. "A Alemanha não deve ter medo do programa económico do Podemos", começou por esclarecer Nacho Álvarez, responsável económico da formação de Iglesias, durante um encontro com a imprensa estrangeira. "Não é um programa anticapitalista, recuperamos elementos da social-democracia mas sem querer voltar para trás", acrescentou.

O que mudou desde o último documento apresentado em dezembro "são as previsões económicas para Espanha" e, portanto, "foram precisos ajustes". A prioridade para o Podemos é que "Espanha acabe com a austeridade fiscal" e, por isso, propõe um aumento da despesa pública para o país na ordem dos 3,5%, "semelhante ao registado entre 2000 e 2007". Até 2019 propõem então uma despesa pública de 60 mil milhões de euros (inferior aos iniciais 96 mil milhões). Estes números implicam um evidente incumprimento das metas do défice exigidas pela União Europeia e revelam a confiança de que acabará por ser possível renegociar os compromissos com Bruxelas "porque devem ter em conta a excecionalidade da economia espanhola".

Sobre a eventual subida de impostos, temida por muitos espanhóis, Nacho Álvarez lembrou que esta só vai afetar os salários anuais superiores a 60 mil euros anuais "e será feita de forma gradual, pois a ideia é incrementar os escalões". O importante para o Podemos é reduzir a diferença que existe na arrecadação de impostos em relação ao resto da Europa. "O nosso sistema é ineficaz apesar de ter escalões de impostos bastante elevados", sublinhou o responsável económico.

Entre as prioridades do Podemos, como do resto dos partidos, está igualmente uma descida do desemprego. O partido de esquerda espera fechar a próxima legislatura com uma taxa de desemprego de 11%, por contraponto aos 14% anunciados pelo Partido Popular do primeiro-ministro em funções Mariano Rajoy.

O Podemos compromete-se a chegar a 2019 com 20 milhões de trabalhadores, quase um milhão mais do que o anunciado por Rajoy. Para conseguir estes números propõe um ritmo mais lento na redução do défice para aumentar o ritmo de criação de emprego, que passa por "conseguir mais flexibilidade nas empresas".

Segundo disse Nacho Álvarez aos jornalistas estrangeiros, "é importante avançar com a regulação da jornada laboral sem mexer no salário das pessoas". O partido quer, por isso, um novo estatuto do trabalho para "pôr um fim à precariedade". Em Espanha, notou o responsável do partido de Iglesias, "houve uma erosão muito forte nas condições de trabalho".

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