UE rejeita proposta de Londres para fronteira irlandesa

Os três cenários apresentados pelo governo de Theresa May foram considerados impraticáveis pelos representantes da UE.

A União Europeia (UE) rejeitou as propostas do governo de Theresa May para evitar a reintrodução de uma fronteira física entre as duas Irlandas após a concretização do brexit. A rejeição resulta de Londres não ter introduzido alterações substanciais desde a anterior ronda de negociações, referia ontem The Independent , citando fontes europeias.

Londres teria apenas sugerido a criação de "uma parceria aduaneira" para evitar a necessidade da reintrodução dos controlos fronteiriços, o que foi liminarmente recusado por Bruxelas. De acordo com The Daily Telegraph, na reunião entre o principal negociador britânico, Olly Robbins, e os representantes da UE, que sucedeu quarta-feira em Bruxelas, estes últimos "procederam a uma detalhada refutação" das propostas britânicas, segundo fonte com conhecimento direto das discussões. Ainda segundo a mesma fonte do The Daily Telegraph, os negociadores europeus "tornaram absolutamente claro que nenhuma das opções britânicas irá funcionar. Nenhuma delas".

Londres apresentou três propostas para evitar a reintrodução da fronteira física entre a República da Irlanda e a Irlanda do Norte: "um acordo global de comércio e tarifas", o que tornaria dispensável o controlo fronteiriço; em alternativa, controlos tecnológicos, o que um antigo embaixador britânico junto da UE, Ivan Rogers, ouvido pelo The Guardian, classificou como "uma espécie de solução própria de uma ilha de fantasia e de unicórnios". Finalmente, a convergência de legislação, vista como não operacional.

Perante este quadro, o principal negociador do brexit pela UE, Michel Barnier, explicava ontem estar-se perante a hipótese da saída britânica do bloco europeu suceder de forma "desordenada". Barnier, em declarações ao The Daily Telegraph, referiu estarem ainda por se chegar a acordo sobre 25% das matérias em discussão. Numa entrevista à televisão pública francesa, Barnier destacou a questão da fronteira irlandesa como importante escolho que pode comprometer o desfecho do processo negocial.

Antes, a primeira-ministra Theresa May afirmara estar "confiante de que nos próximos meses, se todas as partes trabalharem em conjunto e de forma produtiva, podemos chegar a uma solução para a Irlanda-Irlanda do Norte que funcione para todos os envolvidos". Um seu porta-voz, interrogado sobre a notícia divulgada pelo The Daily Telegraph, declarou à Reuters "não dar credibilidade a essas descrições".

Num texto publicado no The Guardian era chamada a atenção para o facto da questão da fronteira irlandesa será levada a voto na Câmara dos Comuns em maio, onde a primeira-ministra May tem de convencer o seu próprio grupo parlamentar que consegue chegar a um acordo com a UE até à cimeira de Junho. O texto recordava que, nesta quarta-feira, o governo sofreu uma derrota na Câmara dos Lordes quando a maioria votou pela criação de uma união aduaneira como única alternativa operacional ao regresso de uma fronteira física e solução que não comprometa o processo de paz na Irlanda do Norte. No Acordo de Sexta-Feira Santa (1998), que pôs fim ao conflito entre unionistas e nacionalistas, está estabelecido que não pode haver fronteira física entre as duas Irlandas.

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