Ubra, a empresa de São Paulo que vai aos bairros onde os táxis não entram

Um grupo de moradores de Brasilândia, zona norte paulista, fundou uma empresa que vai onde táxis, Uber, 99 e Cabify se recusam a ir por razões de segurança

A Ubra é uma companhia de transporte de pessoas criada em março por moradores da periferia de São Paulo para fazer os trajetos que os táxis e os carros das novas plataformas, como Cabify, a 99 e a Uber, se recusam a fazer por razões de segurança.

Brasilândia, bairro da zona norte de São Paulo, e as favelas Paraisópolis e Heliópolis, duas das maiores daquela zona, são as mais beneficiadas por este serviço, que funciona como os táxis. Os clientes ligam por uma linha telefónica ou através da aplicação Whatsapp, indicam o trajeto que pretendem fazer e é de imediato combinado o valor da corrida. Tudo funciona de forma simples.

E se, por acaso, algum dos condutores não tiver terminal de cartão de crédito no automóvel e o cliente não tiver outra forma de pagamento, o passageiro é convidado a ir à estação de gasolina mais próxima para que possa fazer o pagamento em combustível.

O preço do quilómetro da Ubra é de 41 cêntimos, um preço muito próximo daquele que é praticado pela Uber em São Paulo, que é de 37 cêntimos. Ou seja, a diferença pode até ser considerado uma espécie de taxa de risco para a operadora paulista.

O nome Ubra tem uma clara inspiração na famosa Uber e serve maioritariamente os não residentes nessas zonas problemáticas que não se arriscam a subir os morros desses bairros que albergam mais de 300 mil pessoas, a maior parte das quais vivem com cerca de 100 euros por mês. A alternativa é usar os autocarros sobrelotados e pouco confiáveis para quem é de fora.

A Ubra procura assim tornar mais acessíveis esses bairros. E para isso foram contratados condutores nascidos ou residentes em Brasilândia que não têm medo de trabalhar nesta zona da cidade de São Paulo.

De acordo com uma reportagem do jornal britânico The Guardian, os responsáveis da Ubra revelam que fazem entre cinco mil a seis mil viagens por mês, a maioria das quais começam ou terminam em Brasilândia, o que faz terminar com isolamento do bairro.

Noutra reportagem publicada no jornal brasileiro Globo, é explicado que a maior parte dos clientes usa a Ubra para ir às compras, a consultas médicas ou mesmo para regressar de festas a meio da madrugada.

Alvimar da Silva, co-fundador da Ubra, adiantou à Globo que a empresa "tem um papel a cumprir" na região. "É um trabalho social, não é só cobrar o preço. Levo muitas mulheres a presídios, transporto deficientes físicos e idosos para irem ao médico e, muitas vezes, cobro-lhes menos. Outras vezes fico à espera deles para os levar de regresso a casa e não cobro o tempo que estou parado", revelou.

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