Erdogan purga juízes, prende militares e ataca Obama

O presidente mandou prender quase três mil militares e afastar 2745 juízes ontem, depois da tentativa de golpe de Estado

Qualquer país que fique ao lado do clérigo muçulmano Fethullah Gülen será considerado um inimigo da Turquia, defendeu o primeiro-ministro turco, Binali Yildirim. As autoridades acusam o ex-aliado do presidente Recep Tayyip Erdogan, que se transformou num dos principais críticos, de ser o responsável pela tentativa de golpe que deixou 265 mortos (entre os quais 104 revoltosos) e levou à detenção de 2839 militares. Gülen negou a acusação, mas o seu autoexílio nos EUA (vive na Pensilvânia desde 1999) ameaça agora as relações entre Washington e Ancara, que controlam os dois maiores exércitos da NATO.

Erdogan pediu ontem ao presidente dos EUA, Barack Obama, que ordene a detenção de Güllen ou a deportação, dizendo que se os dois países são "verdadeiros aliados" então ele irá cooperar. "Obviamente convidamos o governo da Turquia, como fazemos sempre, a apresentar-nos quaisquer provas legítimas que resistam ao escrutínio e os EUA irão aceitá-las e olhá-las e julgá-las apropriadamente", dissera mais cedo o secretário de Estado norte-americano, John Kerry. Washington disse esperar "continuar a cooperação"com Ancara, parceiro na luta contra o Estado Islâmico, e indicou que estava a trabalhar com os turcos para retomar as operações aéreas na base área de Incirlik, depois de o governo ter fechado o espaço aéreo.

A tentativa de golpe ainda não tinha sido frustrada quando começaram as acusações de que os responsáveis eram "gulenistas". Gülen, de 75 anos, lidera um poderoso movimento na Turquia, que conta com uma vasta rede de escolas, ONG e empresas com o nome Hizmet (serviço, em turco), mantendo grande influência nos media, na polícia e na magistratura do país. Erdogan acusa-o de ter estado por detrás das investigações de corrupção de 2014, que envolveram vários dos seus aliados e ameaçaram o seu governo, considerando-o um "terrorista". Ontem, segundo os media turcos, 2745 juízes foram afastados dos cargos. Em comunicado, Gülen negou ter estado por detrás da tentativa de golpe: "Sofri vários golpes militares ao longo dos últimos 50 anos e considero por isso particularmente insultuoso ser acusado de ter qualquer ligação com esta tentativa."

Povo saiu às ruas

Era meia-noite na Turquia (21.00 em Lisboa) quando o primeiro-ministro veio a público dizer que estava em curso uma tentativa de golpe militar, com os revoltosos a controlar as pontes sobre o Bósforo e a sobrevoar a capital Ancara. Os golpistas garantiam ter tomado o controlo do país para "assegurar e restaurar a ordem constitucional, a democracia, os direitos humanos e as liberdades e deixar que a supremacia da lei prevaleça". A Turquia seria governada por um "conselho de paz".

Mas Erdogan, de férias no sul da Turquia, apressou-se a reagir e a apelar ao povo que saísse para as ruas em defesa do governo. Os turcos responderam aos apelos do presidente e ontem, com a situação já controlada, voltaram a sair à ruas a mostrar o seu apoio. Binali Yildirim disse que a Turquia estava a pensar reinstalar a "pena de morte" para punir os responsáveis - que Erdogan disse serem uma "minoria". Quase três mil pessoas foram detidas nesta purga, incluindo pelo menos dois comandantes e um membro do Tribunal Constitucional. Oito pessoas, entre os quais quatro civis, fugiram de helicóptero e aterraram na Grécia, tendo pedido asilo.

O presidente dos EUA, Barack Obama, a chanceler alemã, Angela Merkel, e o presidente da Comissão Europeia, Donald Tusk (como os partidos políticos turcos, incluindo os curdos) condenaram o golpe. A comunidade internacional saiu também em defesa do governo democraticamente eleito e pedindo que os golpistas sejam tratados dentro do Estado de direito. A queda de Erdogan, primeiro-ministro desde 2003 e presidente desde 2014, teria um impacto profundo na região.

Ler mais

Exclusivos