"Turquia deve pedir a Guterres investigação da ONU à execução do jornalista saudita"

Amnistia Internacional, Human Rights Watch, Comité para a Proteção dos Jornalistas e Repórteres sem Fronteiras pedem que a Turquia solicite com urgência ao secretário-geral da ONU, António Guterres, uma investigação da ONU à execução extrajudicial do jornalista saudita Jamal Khashoggi no consulado da Arábia Saudita em Istambul

Três organizações não governamentais de defesa dos direitos humanos e da liberdade de imprensa pediram esta quinta-feira ao governo turco que solicite ao secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, uma investigação urgente da ONU à possível execução extrajudicial do jornalista saudita Jamal Khashoggi.

Amnistia Internacional, Human Rights Watch, Comité para a Proteção dos Jornalistas e Repórteres sem Fronteiras instam num comunicado enviado à imprensa a que "esta investigação determine as circunstâncias em volta do papel desempenhado pela Arábia Saudita no desaparecimento forçado e possível morte do jornalista. Deve ainda visar identificar todos os responsáveis por terem ordenado, planeado e executado quaisquer operações ligadas a este caso".

"A Turquia deve solicitar à ONU que inicie uma investigação atempada, credível e transparente. O envolvimento da ONU é a melhor garantia contra qualquer tentativa de branqueamento por parte dos sauditas ou de outros governos de varrerem o assunto para debaixo do tapete para preservarem os seus lucrativos negócios com Riade", afirma Robert Mahoneu, diretor executivo adjunto da Comité para a Proteção dos Jornalistas.

As provas recolhidas por essa investigação, referem as organizações, devem ser usadas para futuras condenações. A equipa de investigação deve ter liberdade total para viajar e entrevistar potenciais testemunhas e suspeitos sem interferências. A equipa de investigadores deve também poder recomendar levar perante a justiça qualquer pessoa sobre a qual sejam encontradas provas ou indícios credíveis sobre o envolvimento na morte do jornalista de 59 anos, refere o comunicado, que sublinha a existência de um precedente que remonta a 2008.

Tratou-se do pedido do Paquistão ao então secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, para que houvesse uma investigação ao assassínio da primeira-ministra Benazir Bhutto. A investigação realizada revelou, então, tentativas das autoridades paquistanesas para encobrir e branquear os acontecimentos à volta da morte da chefe do governo paquistanês assassinada em 2007.

"Jamal Khashoggi, a sua família e o resto do mundo merecem a verdade total sobre o que lhe aconteceu. Explicações parciais e investigações unilaterais da Arábia Saudita, que é suspeita de envolvimento, não servem. Só a ONU tem a credibilidade e a independência necessárias para expor os mandantes por trás do desaparecimento de Khashoggi e responsabilizá-los por isso", diz Louis Charbonneau, diretor da delegação da Human Rights Watch junto da ONU.

Os responsáveis destas ONG desafiam o regime de Riade a retirar a proteção diplomática a todos os oficiais suspeitos, que possam, dessa forma, esconder-se atrás das garantias dadas por tratados internacionais como a Convenção de Viena sobre Relações Consulares de 1963.

Natural da Arábia Saudita, Jamal Khashoggi era um jornalista de renome, tendo colaborado com inúmeras publicações, em árabe e em inglês, tais como o Okaz e a Saudi Gazette. Em dezembro de 2016, depois de criticar o presidente dos EUA Donald Trump, começou a ser perseguido pelas autoridades sauditas e fugiu para os EUA em junho de 2017. Tornou-se então um colunista regular do Washington Post.

No passado dia 2, foi visto a última vez com vida a entrar no consulado da Arábia Saudita em Istambul, na Turquia. O corpo ainda não apareceu. Pressionada pelo regime turco do presidente Recep Tayyip Erdogan, a Arábia Saudita prepara-se para admitir que houve um interrogatório ao jornalista que correu mal.

Porém, segundo um relatório divulgado pelo Wall Street Journal, com base em gravações da tortura e morte de Khashoggi, feitas através do relógio da Apple que este usava, o jornalista foi detido logo assim que entrou no consulado, agredido, sedado e assassinado no gabinete do cônsul, Mohamed al-Otaibi.

A Al-Jazeera acrescentaria depois mais detalhes: o assassínio durou sete minutos. Khashoggi entrou no gabinete do cônsul, foi de imediato agarrado por várias pessoas. Os media falam em pelo menos 15. O jornalista foi colocado em cima de uma mesa e drogado. Ainda vivo, um dos presentes, que segundo a estação de televisão do Qatar seria o presidente do instituto de medicina legal saudita, Salá al Tubaigy, começou a esquartejá-lo. Devido aos gritos, o especialista em medicina forense pediu aos restantes presentes para aumentarem o volume da música.

Segundo noticiou esta quinta-feira o jornal pró-governamental turco Sabah, um dos homens que entrou no consulado saudita em Istambul pouco antes do desaparecimento de Jamal Khashoggi integrou a comitiva do príncipe saudita, Mohamed bin Salman, numa deslocação aos Estados Unidos.

Outro jornal turco, o Yeni Safak, avançou que um dos suspeitos de envolvimento no desaparecimento e morte do jornalista saudita morreu em Riade "num acidente de carro algo suspeito". Noutra publicação ainda, o diário Hürriyet , o colunista Abdulkadir Selvi afirmou que o cônsul Mohammad al-Otaibi poderá ser "a próxima execução" uma vez que o príncipe saudita "fará de tudo para se livrar de quaisquer provas".

No seu último artigo para o Washington Post, Khashoggi defendia a necessidade de liberdade de expressão no mundo árabe, denunciando a existência de uma Cortina de Ferro no mundo árabe, alimentada não a partir do exterior, mas pelos próprios líderes dos países árabes, que lutam por se manter no poder e por manter o controlo sobre o povo.

"O Post suspendeu a publicação [do artigo] porque esperávamos que Jamal voltasse para o editarmos juntos. Agora tenho de aceitar: isso não vai acontecer", disse a editora Karen Attiah, que recebeu o artigo um dia depois do seu desaparecimento, no passado dia 2.

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