Trunfos e vulnerabilidades da potência Rússia

Membro permanente do Conselho de Segurança da ONU, a geografia faz por si só da Rússia um ator mundial. E um programa ambicioso voltou a fazer do país uma potência militar.

Poucas dúvidas restarão quanto ao resultado das presidenciais russas de amanhã. Vladimir Putin continua a merecer a confiança de 80 por cento dos russos e nada prenuncia uma mudança na política do Kremlin. E, no entanto, mesmo sem qualquer elemento de suspense, o mundo não deixa de olhar para estas eleições com alguma apreensão.

A geografia faz por si só da Rússia um ator mundial - o território da Federação Russa estende-se do Ártico ao Mar Negro, da Europa ao Pacífico. Moscovo mantém o estatuto de membro permanente do Conselho de Segurança das Nações Unidas. Um ambicioso programa de modernização e reequipamento fizeram de novo da Rússia uma potência militar a ter em conta - Putin acaba de anunciar ao país e ao mundo o desenvolvimento de novas armas nucleares ditas "invencíveis".

Em termos económicos a Rússia ocupa ao mesmo tempo um modesto 10.º lugar no ranking mundial, a enorme distância dos Estados Unidos, da China ou da Alemanha. A The Economist lançava há tempos em tom de provocação - vejam quantos produtos têm em casa com a etiqueta "made in Russia". Os relatórios do Banco Mundial continuam a apontar o dedo à extrema dependência das contas russas da exportação de hidrocarbonetos, à escassa evolução das infraestruturas herdadas do período soviético, às debilidades institucionais e à corrupção como travões à modernização da economia russa.

O conflito da Ucrânia, a tensão militar com a NATO ao longo das fronteiras da Europa Central e do Cáucaso e o conflito da Síria geraram um clima de tensão e de confronto entre Moscovo e o Ocidente. O episódio do envenenamento de um antigo espião russo na Grã Bretanha, a troca de acusações entre Londres e Moscovo e a escalada contínua das sanções americanas contra a Rússia evocam os dias mais negros da guerra fria e dão bem a imagem do crescente isolamento da Rússia face ao Ocidente.

Ilusões perdidas

Longe vão as promessa de um novo relacionamento entre a Rússia e o Ocidente. As ilusões nascidas da queda do Muro de Berlim e do colapso da URSS e as esperanças de uma aproximação entre a Rússia e o Ocidente no início dos anos 1990 cederam lugar a um clima de hostilidade e de tensão. A "guerra fria" regressa ao discurso dos políticos e dos media e a ameaça de um choque militar na Ucrânia, no Báltico ou na Síria aflora de novo nos cenários dos analistas.

A expansão da NATO a Leste, os bombardeamentos contra a Sérvia na primavera de 1999, a crescente influência americana em áreas que Moscovo reivindica como sendo "dos seus interesses diretos" como o Cáucaso ou a Ásia Central envenenam as relações entre Moscovo e o Ocidente na última década do século findo.

No seu programa de "reconstrução da Rússia" Vladimir Putin fazia ainda da cooperação com o Ocidente em matéria política, económica e na área da segurança uma aposta estratégica. Mas os diferendos não tardaram a multiplicar-se, do "escudo antimísseis" dos EUA às "revoluções coloridas" na Geórgia ou na Ucrânia

Na perspetiva de Moscovo a voz da Rússia nunca foi verdadeiramente tida em conta pelo Ocidente em questões-chave da segurança internacional tais como a "guerra ao terror", as crises do Afeganistão, o Iraque ou as "intervenções humanitárias" na Líbia e na Síria.

Goradas as promessas de uma aproximação ao Ocidente, a Rússia procura alternativas à "hegemonia" americana. Dá-se uma notória aproximação entre Moscovo e Pequim. A "opção eurasiática" tarda em dar os resultados esperados num processo em que a Rússia emparceira com países com cálculos estratégicos distintos.

O conflito da Geórgia, em 2008, coloca a disputa entre a Rússia e os Estados Unidos e a NATO pela influência no espaço da ex-URSS no plano diretamente militar. A crise da Ucrânia, em 2014-2015, leva a tensão ao rubro. A Rússia anexa a Crimeia, território que considera historicamente seu e que alberga a base de Simferopol, de crucial importância estratégica.

Segue-se uma escalada de tensão, a imposição de pesadas sanções à Rússia e um importante reforço do dispositivo bélico da NATO e dos Estados Unidos da Polónia aos Estados do Báltico ou à Roménia pressionando diretamente as fronteiras ocidentais da Rússia.

De corda esticada

Apesar da vitória russa, o conflito com a Geórgia veio pôr a nu graves vulnerabilidades militares. A Rússia lançou-se num ambicioso plano de reformas militares e num ousado projeto de dez anos (2011-2020) de reequipamento das suas forças armadas. Putin anunciou no seu discurso anual sobre o estado da Nação, a 1 de março - semanas depois de o Pentágono ter dado conta de um reforço do arsenal nuclear americano - o desenvolvimento de duas novas armas nucleares capazes de ludibriar os sistemas antimísseis balísticos desenvolvidos pelos Estados Unidos.

Numa conferência de imprensa em dezembro último, o número um do Kremlin observou que os gastos militares russos são mais de dez vezes inferiores aos dos Estados Unidos e perguntou-se: "Podemos nós acompanhar as despesas militares dos EUA? Não".

Na perspetiva de muitos analistas ocidentais, a modernização das forças armadas representa um esforço pesado para a economia russa e que impõe restrições nos orçamentos de setores como a Saúde e a Educação.

A quebra abrupta dos preços do petróleo a partir de 2014 constituiu um choque para uma economia russa muito dependente da exportação de recursos energéticos. A economia russa viveu uma séria recessão em 2015 e 2016 (recuo de 4% no PIB) - falência de empresas, quebra nos salários, agravamento dos índices de pobreza da população. A subida do preço do petróleo nos mercados internacionais e uma apertada gestão fiscal proporcionaram uma ligeira recuperação em 2017 que se deverá confirmar no ano corrente.

A prazo as perspetivas da economia russa afiguram-se problemáticas. O país não conseguiu ainda dar o salto da diversificação. E as sanções ocidentais continuam a pesar fortemente em áreas cruciais como o investimento.

Ao anunciar a sua candidatura a um novo mandato, no início do mês, o próprio Putin reconheceu que a Rússia tem ainda 20 milhões de pessoas a viver abaixo do nível da pobreza e que, no que respeita à qualidade de vida e bem estar da população "não atingimos ainda o nível a que aspiramos".

"Histeria anti-russa"

Vladimir Putin tem argumentos sólidos para proclamar cumprida a missão que se propôs levar a cabo ao receber o poder do Kremlin das mãos de Boris Ieltsin há 18 anos: devolver à Rússia o estatuto de "grande potência" perdido com o colapso da URSS, e que os russos entendem caber por direito próprio ao seu país.

Nem a crise económica com que a Rússia se vem debatendo, nem sinais de descontentamento entre a população ou as próprias divisões no seio das elites russas quanto às opções estratégicas do país prenunciam um desafio direto ao regime ou à autoridade do Kremlin. A economia russa atravessa dias difíceis mas não está à beira do colapso como no final dos anos 1990. E a hostilidade do Ocidente oferece a Putin argumentos para um cerrar de fileiras entre os russos.

A "reconstrução" da "potência russa" teve ainda assim custos elevados. Mais do que um enorme recuo estratégico a expansão da NATO e (e o próprio alargamento europeu) transformou os antigos aliados da URSS - Polónia, Báltico, a "fidelíssima" Bulgária, a Ucrânia de Porochenko - numa frente apostada no confronto político e mesmo militar com a Rússia, e num ativíssimo lobby anti-russo nas estruturas da NATO e da União Europeia.

A tensão com Moscovo deu mesmo uma nova razão de ser a uma NATO que atravessou diversas crises existenciais desde o colapso do antigo bloco Leste, e novos argumentos a Washington para exigir aos seus parceiros da Aliança - muitos deles reticentes em relação à política de confronto com a Rússia - uma disciplina estratégica reforçada e uma maior partilha do fardo da Defesa.

As expectativas que muitos terão alimentado em Moscovo com a vitória de Donald Trump sobre Hillary Clinton nas últimas presidenciais americanas deram lugar a uma enorme desilusão. A pressão dos setores mais duros do Congresso ou do Pentágono sobre a política russa da nova Administração levaria a uma nova degradação nas relações entre Washington e Moscovo e as recentes mudanças na Casa Branca não prenunciam melhores dias.

O "império do mal"

O ministro dos Estrangeiros britânico, Boris Johnson, chamou à Rússia, numa intervenção perante a câmara dos comuns a propósito do envenenamento de Serguei e Iulia Skripal, uma "força maligna e perturbadora" - uma tirada que faz longínquo eco ao "império do mal" lançado por Ronald Reagan no início dos anos 1980. Descontados o estilo pessoal do chefe do Foreign Office e os acentos propagandísticos em jogo, a tirada de Johnson é exemplar.

Do confronto geopolítico os contenciosos entre o Ocidente e a Rússia alastraram a outros domínios e alimentaram uma "guerra da informação" e uma implacável guerra de propagandas. O Ocidente aponta o dedo ao regime Putin e denuncia aquilo que considera violações sistemáticas da democracia e do Estado de direito na Rússia. Washington, Londres e outras capitais ocidentais acusam o Kremlin de tentativa de ingerências nas presidenciais americanas e nas eleições em vários países europeus. O regime de Putin é ainda acusado de cumplicidades com vários setores da extrema-direita europeia e de conluio com partidos e movimentos radicais antieuropeus. A Rússia é responsabilizada por campanhas de fake news e de ataques cibernéticos contra vários países ocidentais. Moscovo queixa-se de uma vaga de "russofobia" e de uma autêntica "histeria anti-russa" no Ocidente.

O duelo de recriminações estende-se mesmo a domínios como o desporto ou a cultura. As sanções anti-dopping que afastaram tantos atletas russos das competições internacionais vincaram bem uma imagem de isolamento da Rússia num dos domínios em que o país tinha maior prestígio internacional. Situação que os russos sentem aliás como uma discriminação, ditada por razões políticas, e que fizeram do desporto russo bode expiatório de práticas recorrentes em tantos outros países.

Neste clima o próximo Mundial de Futebol da Rússia arrisca-se a ver-se transformado num evento de alto risco. Entre as medidas de retaliação pelo alegado envolvimento russo no caso Skripal, Theresa May defende que a família real britânica não deverá estar presente no Mundial. É um primeiro sinal.

A Rússia continua a ter um papel central nos cálculos estratégicos dos responsáveis dos Estados Unidos e da NATO e a representar um ator incontornável na cena internacional. O confronto com o Ocidente ameaça porém condenar a Rússia um certo isolamento e mesmo à condição de "perturbador" da boa ordem internacional.

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