Trump vai ao Congresso garantir ao mundo que a América "está de volta"

Presidente deve centrar discurso na economia, apelando a democratas para apoiarem projeto de infra-estruturas. Questão russa ensombra evento

Uma América "forte, segura e orgulhosa" é o tema do primeiro discurso do estado da União de Donald Trump. Há pouco menos de um ano, o recém-empossado presidente falara às duas câmaras do Congresso mas sem o peso institucional de um estado da União. Hoje, às 21.00 (02.00 de quarta-feira em Lisboa) volta a dirigir-se à nação diante da enorme bandeira dos EUA. E a mensagem é clara: após um ano de presidência Trump, a América está de volta.

O tom, garante a Casa Branca, será otimista e em busca de consensos com os democratas, centrando-se nas conquistas já obtidas e nos desafios para o futuro. Uma economia que cresceu 2,3% em 2017, bem acima dos 1,5% do ano anterior, apesar de um abrandamento no último trimestre. Um desemprego que, nos 4,1%, é o mais baixo dos últimos 17 anos. E a confiança dos consumidores no valor mais alto também desde 2000. É este cenário que Trump vai traçar diante dos cem senadores, dos 435 membros da Câmara dos Representantes e dos 325 milhões de americanos.

Dias depois de ter ido ao Fórum Económico Mundial de Davos declarar que a América está "de novo de portas abertas ao negócio", é um Trump pressionado pela fraca popularidade - 36% na última sondagem Gallup - e pela investigação aos alegados contactos entre a sua equipa de campanha e a Rússia antes das presidenciais de 2016 aquele que se apresenta diante da nação. Segundo os media americanos, em junho o presidente terá tentado demitir Robert Mueller, o procurador especial encarregado da investigação. Uma alegação que o próprio Trump afastou como mais uma "notícia falsa".

Depois de ter passado o primeiro aniversário do seu mandato com o governo encerrado (o chamado shutdown) devido à incapacidade de democratas e republicanos se entenderem sobre a reforma da imigração. Sobretudo o destino de 800 mil dreamers, os filhos de imigrantes ilegais entrados nos EUA quando eram crianças, aos quais a administração de Barack Obama garantiu o direito de residência e de trabalho. Em setembro, Trump anunciou a suspensão do programa, pedindo ao Congresso para encontrar uma solução. Depois de um acordo entre democratas e republicanos para desbloquear o financiamento do governo até 8 de fevereiro, na semana passada o presidente garantiu estar disposto a abrir caminho para a legalização de 1,8 milhões de dreamers em troca da aprovação de 25 mil milhões de dólares para financiar o muro na fronteira com o México.

Se satisfaz (e até ultrapassa) as exigências dos democratas em relação aos jovens ilegais, esta proposta desagrada à oposição por ligar o seu futuro à segurança fronteiriça. E mesmo entre os republicanos tem os seus críticos, sobretudo entre os mais conservadores, que a veem como uma amnistia.

Virado para a frente, o discurso de Trump deverá estender a mãos aos democratas num esforço para cumprir uma outra promessa de campanha do presidente: a aposta nas infraestruturas. "O presidente deve apelar aos democratas, afirmando que precisamos de reconstruir o nosso país. E para apostarmos nas infraestruturas, teremos de o fazer de forma bipartidária", explicou ao The Washington Post Marc Short, diretor legislativo da Casa Branca. Segundo o mesmo jornal, Trump deverá apresentar nesta noite um plano segundo o qual a administração vai investir 200 mil milhões de dólares, esperando gerar investimentos de um bilião (o trillion anglo-saxónico) em estradas, pontes e outras obras públicas.

Em ano de eleições intercalares - em novembro vão a votos todos os membros da Câmara dos Representantes e um terço dos senadores -, os democratas apostam em boa parte na falta de popularidade do presidente para recuperar pelo menos uma das câmaras do Congresso. Neste momento ambas são dominadas pelos republicanos.

Convidados e um sobrevivente

Tão antigo como os próprios Estados Unidos - a Constituição prevê que "de tempos a tempos o presidente deve informar o Congresso sobre o estado da União" -, o discurso anual obedece a uma série de regras. Feito no hemiciclo da Câmara dos Representantes, na ala sul do Capitólio, em Washington D.C., a assistir estão não só congressistas e senadores, mas também os nove juízes do Supremo Tribunal e todos os membros da administração. Ou quase todos. Um deles é escolhido para ficar num local seguro e afastado da capital federal. O "sobrevivente designado" tem de ser alguém que possa assumir a presidência em caso de tragédia. Esta tradição data da Guerra Fria, quando o receio de um ataque nuclear estava bem presente. Em 2017, a escolha para "sobrevivente designado recaiu sobre o secretário dos Assuntos dos Veteranos, David Shulkin.

Nos anos 1980, o presidente republicano Ronald Reagan inaugurou outra tradição: convidar membros da sociedade civil para assistir ao discurso no Capitólio; o primeiro foi Lenny Skutnik, um funcionário do governo federal que se tornou herói após ajudar a salvar várias vítimas da queda de um avião no rio Potomac em 1982. Neste ano a Casa Branca ainda não divulgou a lista de convidados, mas do lado da oposição já se conhecem alguns nomes. O congressista Joe Kennedy, encarregado da resposta dos democratas ao discurso de Trump, vai levar uma sargento transgénero em protesto contra a decisão de Trump de banir os transexuais das Forças Armadas (ver texto ao lado). E a senadora de Nova Iorque Kirsten Gillibrand convidou Carmen Yulin Cruz, a presidente da Câmara de San Juan, a capital de Porto Rico. Cruz foi uma das maiores críticas de Trump e da resposta das autoridades americanas à passagem do furacão Maria, que destruiu a ilha e causou a morte a 62 pessoas.

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