Trump no Reino Unido: as 30 horas de uma visita recheada de contradições

Das críticas ao plano de brexit de Theresa May a considerar 'fake news' a sua própria entrevista ao 'The Sun'. A visita de trabalho de Trump esteve marcada pela polémica e pelos protestos e acabou com um chá com a rainha Isabel II.

A visita de trabalho do presidente norte-americano, Donald Trump, ao Reino Unido durou menos de dois dias. Mas esteve recheada de contradições. O fim de semana será passado a jogar golfe, num dos seus resorts, na Escócia, antes da reunião, segunda-feira, com o presidente russo, Vladimir Putin, em Helsínquia.

Este é o relato das 30 horas de Trump em Londres.

Chegada à boleia do brexit

O Air Force One aterrou no aeroporto de Stansted às 13.51 de quinta-feira, vindo de Bruxelas, onde Trump tinha participado na cimeira da NATO. Os britânicos ainda estavam a digerir as palavras do presidente norte-americano, que na conferência de imprensa após o encontro tinha questionado se o brexit que os eleitores iam receber seria aquele em que tinham votado. Entre outras coisas.

"Estou a ir para um sítio quente, verdade? Com muitas demissões", afirmou Trump, referindo-se à saída do ministro para o brexit, David Davis, assim como do chefe da diplomacia, Boris Johnson, em desacordo com a primeira-ministra.

"As pessoas votaram para sair, por isso imagino que é isso que vão fazer. Mas talvez estejam a levar as coisas para um caminho ligeiramente diferente, por isso não sei se foi nisso que as pessoas votaram".

Theresa May respondeu: "Estamos a responder ao voto do povo britânico de recuperar o controlo do nosso dinheiro, das nossas leis e das nossas fronteiras."

Os primeiros protestos

Ainda em Bruxelas, quando foi questionado pelos jornalistas em relação aos protestos que estavam previstos para Londres, durante a sua estadia, Trump respondeu: "Acho que eles gostam de mim no Reino Unido. Acho que concordam comigo em relação à imigração."

Os britânicos fizeram questão em mostrar-lhe que não gostavam dele, com os primeiros protestos à porta da residência oficial do embaixador dos EUA em Londres, Winfield House, junto a Regent's Park.

"Fique fora, fique longe, Donald Trump saia daqui", gritaram os manifestantes, que usaram sistemas de som para fazer barulho e vaiaram o presidente que chegou de helicóptero, o Marine One. O mesmo meio de transporte usado para seguir até ao Palácio Blenheim, onde foi o convidado de honra no jantar de gala oferecido por Theresa May.

Sobremesa amarga no jantar de gala

Salmão escocês, bife Hereford e morangos com natas foi o menu no jantar de gala no Palácio Blenheim, a antiga residência do ex-primeiro-ministro Winston Churchill, um dos heróis de Trump. Um jantar para 150 convidados, incluindo muitos líderes políticos e empresários.

"O espírito de amizade e cooperação entre os nossos países, os nossos líderes e o nosso povo, a mais especial das relações, tem uma longa e orgulhosa história. Agora, para o benefício de todos nós, vamos trabalhar juntos para construir um futuro próspero", disse Theresa May, no seu discurso.

Mas, ainda decorria o jantar quando começaram a vir a público excertos da entrevista de Trump ao jornal The Sun, numa espécie de sobremesa amarga.

Nela, o presidente acusou a primeira-ministra de arruinar o país com o "soft" brexit. "Se eles fazem um acordo assim, nós vamos lidar com a União Europeia, em vez de lidar com o Reino Unido, isso provavelmente mataria o acordo", disse, alegando ter dito a Theresa May como deveria negociar o brexit, mas ter sido ignorado por ela.

O presidente afirmou também, por exemplo, que Boris Johnson daria um "excelente" primeiro-ministro, considerando-o "muito talentoso" e admitindo que gosta "muito" dele. Trump disse ainda que ficou "muito triste" por ele deixar o governo.

Amanhecer debaixo de críticas

As reações à entrevista ao The Sun marcaram a manhã de sexta-feira.

"Trump está determinado a insultar a nossa primeira-ministra. A retórica divisora, whistle [expressão usada quando se diz uma coisa que, para um grupo específico, significa outra] na sua entrevista ao The Sun é repulsiva. Se subscrever à visão do mundo de Trump é o preço do acordo, não vou pagar", escreveu a deputada conservadora Sarah Wollaston no Twitter.

Também a trabalhista Emily Thornberry saiu em defesa de May, dizendo ser "extraordinariamente grosseiro" o comportamento de Trump. "Ela é a anfitriã dele. O que é que a mãe dele lhe ensinou? Esta não é a forma como se deve comportar", disse a ministra-sombra dos Negócios Estrangeiros no programa Good Morning Britain, da ITV.

Um secretário de estado, Sam Gyimah, limitou-se a escrever: "Onde estão as suas maneiras, sr. presidente?"

Também houve quem dissesse que, depois dos comentários, Trump não devia encontrar-se com a rainha Isabel II, como previsto.

Um bebé Trump nos céus de Londres

Os manifestantes invadiram entretanto Londres. A estrela foi um balão gigante, de seis metros, que retrata um Trump bebé, insuflada junto ao Parlamento britânico.

"Acho que puseram balões para me fazer sentir indesejável, não há razão para ir a Londres", disse o presidente na entrevista ao The Sun. De facto, o presidente passou o mínimo de tempo possível na capital britânica, onde se concentraram milhares de pessoas em diferentes manifestações contra si.

A bem da verdade, também havia entre os manifestantes alguns apoiantes do presidente norte-americano.

De facto, a agenda levou Trump sempre para os arredores de Londres. De manhã, o presidente assistiu a um exercício de contraterrorismo com a primeira-ministra, na Academia Militar Sandhurst, antes de reunir com May.

Enquanto isso, a primeira-dama, Melania Trump, visitou um lar para veteranos, o Hospital Real de Chelsea, junto com o marido da primeira-ministra britânica, Philip May. E aproveitou para jogar "lawn bows", semelhante à petanca.

As fake news

O Trump que surgiu frente aos jornalistas, após o encontro com Theresa May na residência de campo dos chefes de governo britânicos, Chequers, era o oposto daquele que deu a entrevista ao The Sun. O presidente negou ter criticado a primeira-ministra: "É o que se chama de fake news", afirmou, dizendo numa conferência de imprensa que o jornal deixou de fora "imensas coisas" positivas que disse sobre Theresa May.

E prometeu um "grande acordo comercial bilateral com o Reino Unido", contradizendo o que tinha dito na entrevista. "Esta é uma oportunidade incrível para os nossos dois países e vamos aproveitá-la em pleno", disse Trump, referindo que se trata de uma "negociação muito complicada e não é uma negociação fácil. Isso é garantido". E reiterou que May está a fazer "um trabalho fantástico".

Theresa May evitou qualquer polémica, discordando educadamente com Trump e lembrando que "é nossa responsabilidade garantir que a união transatlântica perdura". A primeira-ministra, na conferência de imprensa por volta da hora do almoço, indicou ainda que o seu plano de brexit "garante a plataforma para eu e o Donald" chegarmos a um "ambicioso" acordo comercial.

O chá com Isabel II

O último ponto na agenda da visita de trabalho de Trump foi uma visita social à rainha Isabel II, no castelo de Windsor, por volta das 17.00. A monarca recebeu o presidente norte-americano e a primeira-dama com uma mini-parada militar, tendo primeiro passado revista às tropas. A banda tocou o hino norte-americano.

No interior do castelo, o encontro entre a rainha e o casal presidencial durou 47 minutos (mais 17 minutos do que estava previsto). O lanche incluía um chá.

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Na entrevista ao The Sun, Trump qualificou a rainha de "mulher tremenda" e disse que Melania era uma "grande fã" de Isabel II. "Se pensar nisso, ela representa o seu país há muitos anos e nunca cometeu um erro. Não encontra nada embaraçoso. Ela é uma mulher incrível", afirmou o presidente norte-americano.

Depois de conhecer a rainha, Trump voltou de helicóptero para Londres e apanhou o Air Force One para a Escócia, onde passará o fim de semana a jogar golfe no seu clube, em Turnberry. No Twitter, publicou um "best of" da visita, sem balões ou manifestantes à vista. E sem quaisquer palavras.

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