"Trump é uma pessoa curiosa, que aprende muito depressa"

Quando lhe ligaram para fazer parte da equipa de transição do presidente eleito, o congressista republicano da Califórnia Devin Nunes não hesitou. Por e-mail, o lusodescendente diz ao DN que Trump não fala como um político, mas defende que merece uma oportunidade

Como e quando recebeu o convite para se juntar à equipa de transição de Donald Trump?

Foi pouco depois das eleições, um membro da equipa de Donald Trump ligou-me e perguntou-me se eu me queria juntar a eles. Eu aceitei logo.

Qual vai ser o papel exato até ao dia da tomada de posse de Donald Trump, a 20 de janeiro de 2017?

Vou estar a dar aconselhamento ao presidente eleito na escolha dos candidatos a um lugar de ministro e outros na próxima Administração.

Conhece Donald Trump pessoalmente? Como é o presidente eleito quando se lida com ele pessoalmente?

Fiquei a conhecê-lo bastante bem nas duas visitas que ele realizou, durante a campanha presidencial, a Central Valley na Califórnia, onde se localiza o distrito que eu represento no Congresso. Ele é uma pessoa curiosa, alguém que aprende muito depressa e está muito preocupado com os pormenores. Tivemos oportunidade para discutir largamente a crise da água na Califórnia, que na verdade é um assunto bastante complicado. Mas ele depressa percebeu quais os maiores problemas e foi rápido a propor várias soluções.

Qual espera que venha a ser a prioridade do presidente eleito?

Durante a campanha, Donald Trump enfatizou que tenciona pôr a nossa economia a crescer, melhorar um código tributário defeituoso, revogar e substituir o Obamacare [a reforma da saúda do presidente Barack Obama], tornar as nossas fronteiras seguras, combater os terroristas de forma efetiva e reforçar a posição geoestratégica da América. Espero que ele se concentre de forma mais séria nestes assuntos.

O mundo reagiu de forma violenta à eleição de Donald Trump como presidente dos Estados Unidos. Como viu as manifestações de pânico, sobretudo vindas da Europa?

Não foi uma surpresa. O senhor Trump não é um político e não fala como os políticos. As pessoas não estão habituadas a uma presidente americano assim. No entanto, acho que as pessoas só o deviam julgar depois de ele tomar posse e começar a trabalhar. Tenho expectativas que ele vai surpreender muita gente.

Tem raízes portuguesas, os seus bisavôs emigraram dos Açores para os EUA, o que pode Portugal esperar do presidente Trump?

Pode esperar um aliado que compreende a importância da aliança dos Estados Unidos com a Europa e em particular com os membros da NATO.

Concorda com Donald Trump em relação ao Obamacare, mas discorda do presidente eleito em relação a acabar com a Parceria Trans-Pacífico (TPP, na sigla em inglês), como lida com estas divergências?

Simplesmente discordo do senhor Trump em relação à TPP. No entanto, acho que ele está certo quando diz que os desequilíbrios comerciais são um problema grave para os Estados Unidos. Uma grande parte desse problema começa com os elementos contraprodutivos e auto derrotistas que existem no nosso código tributário. Espero que se conseguirmos alterar esse código, depois poderemos chegar a um maior consenso em relação a acordos de comércio livre como a TPP.

Espera vir a ocupar um lugar na próxima Administração Trump?

Não. Disse à equipa Trump desde o primeiro momento que quero continuar no Congresso - são tempos entusiasmantes porque existe uma hipótese realista de conseguirmos aprovar algumas reformas nas quais tenho estado a trabalhar há vários anos, inclusive a reforma da saúde e propostas para reformar os impostos.

PERFIL DE DEVIN NUNES

Nasceu em 1973 em Tulare, na Califórnia

Formado em Agricultura

Representa o 22.º distrito da Califórnia na Câmara dos Representantes desde 2003

Dois bisavôs de Nunes saíram juntos da ilha de S. Jorge nos Açores à procura de uma vida melhor nos EUA, tendo-se instalado em Tulare no início do século XX. Separados, voltaram a encontrar-se 30 anos mais tarde quando descobriram que os filhos iam casar. De início simples agricultores, a família de Nunes acabou por adquirir uma quinta onde se dedicou à criação de gado. Aos 14 anos, Devin partiu o mealheiro para comprar as suas próprias primeiras sete cabeças de gado, lançando-se no negócio da família e contribuindo anos mais tarde para a sua expansão. A viver há 14 anos em Washington, Nunes mantém a ligação à terra. Casado com Elizabeth (ela também lusodescendente), Nunes tem três filhas.

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