Nuno Severiano Teixeira: "Trump é inamistoso com os aliados e parece amigo dos inimigos"

Professor Nuno Severiano Teixeira diz que não se lembra de ver um presidente desautorizar as instituições do próprio país como Trump fez. E logo ao lado de Putin, isto é, em presença da outra potência.

O presidente norte-americano, Donald Trump, está debaixo de críticas internas depois da cimeira com o homólogo russo, Vladimir Putin, em Helsínquia. Algo que não surpreende Nuno Severiano Teixeira, especialista em Defesa e Relações Internacionais. "Trump é inamistoso com os aliados e parece amigo dos inimigos", disse o professor universitário ao DN.

"Não me lembro, e eu sigo a vida internacional há muitos anos, de ver um presidente desautorizar as instituições e em particular os serviços e informação do seu próprio país, em presença de outra potência", afirmou o ex-ministro, falando em algo "inédito".

Na conferência de imprensa após o encontro com Putin, Trump reiterou que houve "zero conluios" com a Rússia durante a campanha para as presidenciais de 2016. "O presidente Putin disse que não é a Rússia. Não vejo razões para ser", sublinhou o presidente dos EUA, indo contra as conclusões dos serviços de inteligência norte-americanos. Algo que lhe valeu fortes críticas internas, quer de democratas, quer de republicanos.

"O que me parece é que está em causa a própria legitimidade da presidência de Donald Trump e a intervenção russa nesse processo, que o presidente Trump tem negado desde o princípio, apesar das investigações que continuam abertas. E desse ponto de vista, ele não poderia deixar de fazer outra coisa", referiu Severiano Teixeira. "As críticas sobre as quais está o presidente Trump são absolutamente naturais por parte das instituições americanas", acrescentou.

Trump não ignora essas críticas e já veio defender-se no Twitter. Primeiro, ainda na viagem de regresso de Helsínquia, reiterou ter "grande confiança" nos serviços de informação. Mas acrescentou. "Contudo, também reconhece que para construir um melhor futuro, não podemos focar-nos exclusivamente no passado - como as duas maiores potências nucleares do mundo, temos que nos entender".

Depois, já de volta a Washington, voltou a apontar o dedo aos media. "Apesar de ter tido uma ótima reunião com a NATO, conseguindo angariar vastas quantidades de dinheiro, tive uma reunião ainda melhor com Vladimir Putin. Infelizmente, não está a ser noticiado assim - as 'fake news' estão malucas", escreveu.

Leitura internacional

Para Nuno Severiano Teixeira, as ações de Trump tem também uma leitura do ponto de vista internacional que é "a mais preocupante".

"Lembro que em 1975 outros dois presidentes se encontraram na mesma cidade de Helsínquia, mas nessa altura era para regular a ordem internacional. O que parece aqui é que estes dois presidentes, quer Putin, quer Trump, estão para subverter a ordem internacional. E desse ponto de vista têm algo em comum. Ambos estão contra a ordem liberal internacional saída da II Guerra Mundial, baseada na democracia e nos direitos humanos, baseada no livre comércio e, no lado ocidental, nas alianças militares, em particular na NATO", referiu o professor ao DN.

Em relação à NATO, cuja cimeira assistiu em Bruxelas esta semana, Trump voltou a defender no Twitter que os aliados concordaram em pagar "centenas de milhões de dólares a mais no futuro" por sua causa. "Só por minha causa", escreveu, dizendo que a "NATO era fraca, mas agora é novamente forte (mau para a Rússia".

"Não sei se vai ou não haver consequências, os países já se tinham comprometido em apontar para os 2% do PIB [gastos em Defesa, numa meta a alcançar até 2024]. O que era importante era que eles demonstrassem que o estavam a fazer. E nesse ponto o presidente Trump tem razão", indicou Severiano Teixeira.

"A administração Obama já tinha dito. A administração Bush já tinha dito. Há, de facto, na distribuição do fardo da Defesa do Ocidente uma desigualdade entre Europa e EUA. Nesse ponto de vista era importante, sobretudo no contexto em que nos encontramos, em que o presidente Trump parece pôr em dúvida a própria Aliança, que os europeus tomassem a sério a sua defesa. Coisa que não têm tomado há umas décadas para cá", afirmou.

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