Trump declara uma guerra ao FBI que dificilmente vai ganhar

Comissão dos Serviços Secretos da Câmara dos Representantes aprovou revelar memorando que denuncia má conduta do FBI. Presidente tem 5 dias para dizer se aprova divulgação.

Em 24 horas, o número dois do FBI demitiu-se, a Comissão dos Serviços Secretos da Câmara dos Representantes aprovou a divulgação de um memorando que revela alegados abusos da polícia federal e do Departamento de Justiça na investigação à ingerência russa nas presidenciais americanas de 2016, e a Administração Trump decidiu não impor novas sanções à Rússia, mesmo tendo revelado os nomes de duas centenas de próximos do presidente Vladimir Putin. Um "ponto de viragem" que Carl Bernstein, o jornalista que ajudou a desvendar o Watergate, aponta como "o massacre de segunda-feira à noite das instituições de justiça dos Estados Unidos".

"Um verdadeiro massacre por parte de um gangue partidário, irresponsável e obstrutivo na Câmara dos Representantes que pôs os interesses do seu partido e do presidente dos EUA acima dos interesses nacionais", denunciou Bernstein em entrevista à CNN. O homem que com Bob Woodward e ao serviço do The Washington Post revelou o escândalo do Watergate (as escutas colocadas na sede dos democratas na campanha presidencial de 1972), levando em última instância à demissão do presidente Richard Nixon alerta para uma "crise constitucional". E acrescentou: "A única coisa em que este presidente se focou desde o dia em que tomou posse foi em garantir que [o procurador especial Robert] Mueller e a investigação russa não avançam. E vai fazer tudo para que não aconteça".

Donald Trump tem cinco dias para aprovar a divulgação do memorando. O presidente já deixou entender que é a favor de publicar o conteúdo. E segundo a CNN, Trump terá dito querer que a divulgação aconteça o mais rápido possível depois do seu discurso do Estado da União - marcado para as 21:00 de ontem em Washington (2:00 da última madrugada em Lisboa).

O memorando, cuja luta pela divulgação foi liderada pelo presidente da Comissão dos Serviços Secretos, o lusodescendente Devin Nunes, tornou-se essencial na batalha política que se gerou em torno dos esforços das autoridades para perceber a extensão da interferência russa na presidenciais. E para saber se algum membro da campanha de Trump coordenou essa interferência. O documento garante que a investigação pode estar politicamente enviesada. Para os democratas, a revelação do memorando não passa de uma tentativa para minar o trabalho do procurador especial Robert Mueller III.

Fontes com acesso ao memorando garantem que este se centra na relação entre o FBI e Christopher Steele, um ex-espião britânico contratado em 2016 por uma agência de investigação de Washington para analisar qualquer ligação entre Trump e os líderes russos. O seu trabalho foi financiado pela campanha de Hillary e pela Comissão Nacional Democrata e alimentou um dossier com alegações contra o agora presidente e a sua equipa. O FBI terá mais tarde usado parte desse material para investigar Carter Page, antigo conselheiro de Trump, que terá incriminado colaboradores próximos do presidente.

Terá sido o procurador-geral adjunto Rod J. Rosenstein que, recém-chegado ao cargo, autorizou a extensão da vigilância a Carter Page. A referência no memorando ao papel do número dois do Departamento de Justiça poderá fazer dele, segundo o New York Times, o próximo alvo a abater pela Administração Trump e pelos republicanos no Congresso, na sua tentativa de minar a credibilidade do Departamento de Justiça. Há muito que Trump desconfia de Rosenstein, o responsável pela nomeação de Mueller, diretor do FBI de 2001 a 2013, como procurador especial.

Tanto durante a campanha como nos primeiros dias na Casa Branca, Trump até elogiou os "homens e mulheres nas nossas forças armadas e nas polícias" por manterem a América segura. Como polícia federal, o FBI estava incluído no louvor. Mas tudo mudou quando a investigação da agência à interferência russa nas eleições começou a apertar o círculo à sua Administração. Desde então multiplicou as suspeitas sobre "fugas" dentro do FBI, denunciando a "desonestidade" dos agentes que investigaram o uso do e-mail privado pela sua rival democrata, Hillary Clinton, quando era secretária de Estado. Isto esquecendo que o então diretor do FBI, James Comey (afastado por Trump em maio e substituído em agosto pela escolha de Trump - Christopher Wray) não deixou de influenciar o resultado das presidenciais quando em outubro anunciou ter encontrado novos emails que "pareciam ser pertinentes".

Trump pode garantir que se está apenas a defender. Mas a história já provou que declarar guerra ao FBI pode não ser uma boa ideia. Mesmo quando se é o presidente dos EUA. Basta pensar nas histórias de John F. Kennedy, que sabia que o mítico diretor do FBI J. Edgar Hoover tinha gravações dele de cariz sexual que podiam acabar com a sua carreira, ou Nixon que em abril de 1973 voltou de uns dias em Camp David para encontrar agentes do FBI a revistar a Sala Oval. Menos de um ano depois demitia-se.

Segundo os media, Trump terá pensado em demitir Mueller como demitira Comey. Mas o Politico questionava-se há dias se será mesmo uma boa ideia o presidente desafiar o ex-diretor do FBI, "um homem que enfrentou George W. Bush e Dick Cheney para evitar que a Constituição se tornasse uma baixa na guerra ao terror, um veterano dos marines com uma estrela de Bronze e uma Purple Heart?" Para o site seria "uma missão suicida".

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