Trump cedeu e a solução é deter pais junto dos filhos

Presidente dos EUA não põe fim à política de tolerância zero, mas deu ordem para garantir que famílias não serão separadas e que terão prioridade no processo migratório

O presidente norte-americano, Donald Trump, cede na separação de pais e filhos migrantes na fronteira, mas não abdica da política de tolerância zero. A solução encontrada, através da assinatura de uma ordem executiva, passa por deter os pais junto com os filhos e dar a estas famílias prioridade nos processos de imigração. Desde o início, em meados de abril, da política de tolerância zero, que prevê acusações criminais para todos os que sejam apanhados a cruzar ilegalmente a fronteira, mais de 2300 famílias foram separadas.

"Vou assinar algo que é preventivo, mas que em última análise será equiparado pelos legisladores, tenho a certeza", afirmou Trump, que até agora tinha sempre garantido que não podia fazer nada e que só o Congresso tinha poder para alterar a lei. E culpava os democratas por isso. "Queremos segurança para o nosso país e ao mesmo tempo compaixão", afirmou, dizendo que vai garantir isso mesmo. Após reunir com congressistas, Trump deixou o desabafo: "O dilema é que se és fraco... o país vai ser invadido por milhões de pessoas, e se és forte, então não tens coração."

Segundo a AP, a primeira-dama terá ajudado à mudança de opinião do presidente. Melania Trump, que já tinha dito publicamente "odiar ver as famílias separadas", terá reiterado essa opinião ao marido, indicou um responsável da Casa Branca à agência de notícias. "Há algum tempo" que ela defende junto de Trump a necessidade de "fazer tudo o que é possível para ajudar as famílias a ficarem juntas, quer seja trabalhando com o Congresso ou a fazer pessoalmente alguma coisa".

Mudanças no Congresso

A Câmara dos Representantes deverá votar esta quinta-feira duas leis que permitem uma reforma no sistema de migração e acabar com a separação das famílias na fronteira - que ocorre porque os menores não podem ir para as prisões federais que estão a acolher os pais, enquanto aguardam pelo julgamento por entrada ilegal nos EUA.

"Com a nossa lei, quando as pessoas forem acusadas por terem cruzado ilegalmente a fronteira, as famílias vão continuar juntas durante todo o procedimento legal, sob a autoridade da Segurança Interna", afirmou Paul Ryan, líder republicano na Câmara dos Representantes, onde o partido de Trump tem maioria. Mas não é certo que tenha o apoio necessário para aprovar as leis previstas, com Trump a dizer que apoiaria qualquer uma delas, sem dizer qual preferia.

Primeiro nos pedidos de asilo

A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) revelou entretanto que os EUA foram, em 2017, o primeiro país em número de pedidos de asilo - 330 mil no total, um aumento de 26% em relação ao ano anterior. Cerca de 40% dos que pedem asilo são de El Salvador, Venezuela e Guatemala, num perfil bastante diferente do que acontece na Europa (sírios, afegãos e iraquianos).

Na apresentação dos dados, o secretário-geral da OCDE, José Ángel Gurria, criticou a política de Trump: "A legislação nos países da OCDE sobre os menores segue os princípios do interesse superior da criança. Neste caso, como notou a UNICEF, a separação não é certamente no melhor interesse da criança."

Não foi a única crítica. A primeira-ministra britânica, Theresa May, disse no debate semanal que as imagens de crianças em jaulas nos centros de detenção são "profundamente perturbadoras. É errado e é algo com que não concordo". Contudo, isso não é suficiente para cancelar a visita de Trump ao Reino Unido, marcada para 13 de julho.

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João Gobern

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