Trump aterra em Bruxelas em noite de derrota belga

Air Force One aterrou sensivelmente no momento em que os belgas viam os franceses a marcar o golo. Presidente dos EUA está na capital belga para a cimeira da NATO.

Donald Trump chegou esta noite a Bruxelas numa altura em que todos se concentravam na pequena final entre a Bélgica e França. O Air Force One aterrou sensivelmente momento em que os belgas viam os franceses a marcarem o seu golo. A cidade está virada de pernas para o ar. Obras por aqui e por ali. Trânsito cortado acolá e perímetros de segurança por toda a parte. Mas esta noite, as ruas estão praticamente desertas, depois da derrota no Mundial.

A cidade está rodeada de medidas apertadíssimas, naquela que é já considerada a maior operação de segurança dos últimos anos, em Bruxelas. Mais de 3000 operacionais estão mobilizados para os dias da Cimeira da NATO. São 2400 agentes da polícia e 1000 militares na rua por estes dias.

Numa cidade habituada a grandes encontros internacionais, este tem a particularidade de juntar, ao mesmo tempo, 55 delegações e a presença de 29 chefes de Estado ou de governo, entre eles o presidente dos Estados Unidos.

Esta terça-feira já houve medidas especiais para quem quis chegar perto da nova sede da aliança atlântica. No caso dos jornalistas, têm um primeiro perímetro ao qual se podem dirigir pelos próprios meios. A partir daí terão de seguir em autocarros em serviço dedicado para a NATO, para um segundo perímetro, já no interior do complexo da nova sede, onde são novamente controlados. Só depois podem aceder à sala de imprensa improvisada, numas instalações com outras funções.

A partir desta quarta-feira, a operação de segurança intensifica-se, com novos perímetros de segurança delineados em diferentes pontos da cidade. Junto ao ministério dos Negócios Estrangeiros, junto à embaixada dos Estados Unidos ou no parque Cinquentenário, onde se situa o Museu de História Natural, no qual será servido o jantar no primeiro dia da cimeira.

Ao mesmo tempo, cerca das 19h00 (18h00), também no parque Cinquentenário, está prevista uma manifestação de organizações ditas pacifistas, nomeadamente a belga "Agir Pour La Paix" (Agir pela Paz). A este protesto que "será uma vigília, poderão vir todas as pessoas que se quiserem juntar, nomeadamente as que são contra as acções da NATO", disse o ativista Jerome Peraya, ao DN.

"Vamos acender velas a simbolizar todas as pessoas que morreram em consequência das ações da NATO", ao mesmo tempo que os lideres estão a jantar. As ações "surpresa", que continuarão na quinta-feira "poderão ser, por exemplo, peças de teatro ou grupos de palhaços que tentarão forçar a entrada no perímetro da Cimeira", revelou Jerome Peraya, sem querer dar outros detalhes, "para não por em perigo as realização das ações", tendo em conta que algumas são de "desobediência civil direta e não violenta".

Cimeira no Tweet

Na sede da NATO, a primeira reunião contará com uma agenda carregada, na qual será discutido, em primeiro lugar o espinhoso dossier da partilha de responsabilidades. Ou seja, uma discussão em torno de quem paga a fatura da NATO. O tema já era polémico e agrava-se a cada tweet de Donald Trump.

No último, ainda a bordo do Air Force One, Trump afirmou voltou a pressionar os países europeus, para aumentarem os gastos na defesa, até ao limite negociado em 2014, de 2% do PIB.

"Muitos países da NATO, que é suposto defendermos, não estão apenas abaixo de seu compromisso atual de 2% (que já é baixo), mas também estão em falta por muitos anos, de pagamentos que não foram feitos. Eles reembolsarão os EUA?", questionou Trump, na rede social.

Porém, do lado europeu, têm-se dito que não só já foi possível travar o desinvestimento que se registou depois do fim da Guerra Fria, como já se regista um aumento da despesa militar. "O caso mais paradigmático é o da Alemanha, que aumentou em 80% os seus gastos em defesa", comentou um diplomata com o DN, frisando que "este movimento permitiu-lhes estar já nos 1,85%" do PIB alemão.

No caso de Portugal, os dados mais recentes, atualizados na véspera da cimeira, pelo secretário-geral da NATO, apontam para uma despesa de "1,36% do PIB, em 2018", com o compromisso de alcançar os 2% em 2024, dos quais, 20% terão de ser gastos em equipamento.

"Os aliados europeus e o Canadá não deve aumentar a despesa militar para agradar aos Estados Unidos. Eles estão a aumentar os gastos militares porque é do interesse deles, do ponto de vista da segurança", afirmou o secretário-geral da NATO, no tom diplomático que caracteriza as suas declarações, acrescentando que "foi essa a razão pela qual concordaram aumentar a despensa militar, já em 2014".

Recados

Mas, na União Europeia, o presidente do Conselho Europeu, Donald Tusk tratou de antecipar o pontapé de saída da cimeira, com uma série de recados, vincando que "o dinheiro pode ser importante, mas a solidariedade é ainda mais importante". E, no que diz respeito à solidariedade, os Estados Unidos podem contar com a Europa.

"A Europa foi a primeira a responder e em larga escala quando os Estados Unidos foram atacados, depois do 11 de setembro. Os soldados europeus têm lutado, ombro a ombro, com os soldados americanos no Afeganistão. 870 corajosos europeus sacrificaram a vida", disse, falando diretamente para Trump, para que o Donald americano pense bem quem são os amigos e aqueles que escolhe como aliados.

"Caro senhor presidente, lembre-se disto quando nos encontrarmos na Cimeira da NATO. Mas, ainda mais importante, quando se encontrar com o presidente Putin em Helsínquia", considerou, advertindo que "vale sempre a pena saber quem são os seus amigos e parceiros estratégicos e quem é o seu problema estratégico".

"América não tem e não irá ter um aliado melhor do que na Europa. A Europa gasta muitas vezes mais do que a Rússia e tanto quando a China em defesa", vincou Tusk.

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