Trudeau visita Trump com outra fronteira e o comércio na agenda

Primeiro-ministro canadiano vai à Casa Branca. Até agora, evitou criticar o presidente americano, destacando antes as suas diferenças.

Se os americanos pudessem escolher, 40% preferiam ter Justin Trudeau como presidente em vez de Donald Trump. Só 33% mantinham o milionário na Casa Branca, segundo uma sondagem Ipsos. Mas como não podem escolher, é na qualidade de primeiro-ministro do Canadá que Trudeau chega hoje à Casa Branca para o primeiro encontro com Trump. Em cima da mesa estarão o acordo de comércio livre entre os dois países e o México, que o presidente americano quer rever, e eventuais restrições à circulação numa fronteira - a maior do mundo - atravessada diariamente por mais de 400 mil pessoas.
Apresentado pelos media como o anti-Trump, um feminista, liberal, que defende a integração e abriu as portas do Canadá a dezenas de milhares de refugiados sírios, Trudeau tem neste encontro um dos seus maiores desafios: encontrar um equilíbrio entre marcar as diferenças em relação a Trump e não irritar o maior parceiro comercial do Canadá. Afinal três quartos das exportações do país têm como destino o vizinho do Sul e há 2,5 milhões de empregos canadianos diretamente ligados ao comércio com os EUA.
"Trudeau podia ser um exemplo de um regime mais progressista na América do Norte, mas isso terá pouco efeito em Donald Trump", explica ao DN Tim Sieber, professor na Universidade do Massachusetts, em Boston. Para o académico, é preciso não esquecer que "se o Canadá é muito grande em termos de área, é um país pequeno em termos de poder político e económico quando comparado com os EUA".
Apoiado pela oposição conservadora antes da visita, Trudeau está também a ser pressionado para se impor a Trump. Até agora o primeiro-ministro canadiano evitou criticar diretamente o inquilino da Casa Branca, preferindo destacar as diferenças entre eles. Quando Trump emitiu um decreto (entretanto suspenso pelos tribunais) a barrar a entrada nos EUA a todos os refugiados e a cidadãos de sete países de maioria muçulmana, Trudeau escreveu no Twitter: "Aos que fogem da perseguição, do terror e da guerra, fiquem a saber que os canadianos vos dão as boas-vindas, independentemente da vossa fé. A diversidade é a nossa força #Bem-VindosaoCanadá". Uma mensagem de integração que se reflete nas ruas, com várias cidades canadianas a unirem-se às americanas nas marchas das mulheres contra o presidente Trump e a serem palco de protestos contra a suspensão de entradas nos EUA.
O que os une e o que os separa
Depois da relação próxima com o antecessor de Trump, Barack Obama, Trudeau terá de aprender a lidar com o imprevisível Trump. Mas nem sempre Washington e Otava viveram em lua-de-mel. Em 2003 a relação entre vizinhos viveu um ponto baixo quando o governo canadiano de Jean Chrétien recusou apoiar a decisão do presidente americano George W. Bush de invadir o Iraque a não ser que a operação fosse apoiada pela ONU.
E antes da visita o primeiro-ministro canadiano optou por sublinhar o que o une ao presidente americano: "Ambos fomos eleitos com base no compromisso de reforçar a classe média e apoiar os que trabalham duro para a alcançar e é no que vamos concentrar-nos nestes encontros." Mas o jovem chefe do governo canadiano (tem 45 anos, menos 25 que Trump) também recordou que a sua "primeira responsabilidade é, claro, destacar os valores e princípios canadianos", mas "a minha segunda responsabilidade é criar empregos e oportunidades para os cidadãos canadianos através da integração contínua de ambos os lados da fronteira".
Se a relação vai ser fácil? Talvez não. "Sinto que estamos num avião que acabou de ser desviado e temos de ser tão razoáveis quanto possível para não irritar o pirata do ar fechado no cockpit", resumiu ao The Guardian John Higginbotham, da Universidade Carleton.

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Anselmo Borges

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