Trégua no PSOE: Díaz apoia solução à portuguesa

Goldman Sachs alerta que incerteza política poderá vir a enfraquecer a zona euro. E o mais provável é haver novas eleições se Rajoy não formar governo

O encontro em Lisboa entre Pedro Sánchez e António Costa desta quinta-feira, no qual o líder do PSOE reafirmou o seu desejo de aplicar em Espanha uma solução à portuguesa, parece ter resultado numa trégua dentro do seu partido. Susana Díaz, a poderosa presidente da Andaluzia e a maior adversária interna do secretário-geral dos socialistas espanhóis, deu ontem o seu apoio a uma aliança de esquerdas para chegar ao poder. Mariano Rajoy optou por sublinhar que está disposto a continuar a negociar.

A líder da Andaluzia, a região espanhola que mais votos dá aos socialistas, garantiu que Sánchez tem o seu "apoio e confiança" para formar uma "alternativa" de esquerdas, mas desde que esta tenha "um limite, claro". Ou seja, desde que o Podemos renuncie "previamente" à sua condição da realização de um referendo na Catalunha.

Assiste-se assim a uma pausa na guerra interna aberta após as eleições de 20 de dezembro entre os barões do PSOE, encabeçados por Susana Díaz, e o secretário-geral do partido. Na sua entrevista à rádio Canal Sur, a andaluza deixou claro que o debate sobre a liderança do partido "não foi aberto e não vai ser", garantindo que a realização do Congresso em fevereiro seria "inviável" e que este mês o comité federal discutirá sobre qual será a melhor data.

Um dia depois das eleições, Sánchez anunciou que iria recandidatar-se à liderança do PSOE, mas que pretendia adiar a realização do congresso para a primavera, de forma a que este não interferisse com as negociações pós-legislativas. Adiamento que os barões estavam a tentar impedir até agora - num cenário de eleições antecipadas em março, Sánchez seria o candidato natural, pois ainda seria secretário-geral.

Ciudadanos mais difícil

As negas do PSOE não dão Mariano Rajoy por vencido. Ontem garantiu que irá continuar a tentar uma aliança para formar governo: "Estou em constante processo de conversações, não há regras fechadas, pode haver reuniões hoje ou amanhã..." Falando durante uma curta visita ao Parlamento, onde foi buscar o seu registo de deputado, o primeiro-ministro interino defendeu que, neste momento, Espanha tem três opções: um governo do PP, "a coligação de esquerda e de extrema-esquerda ou eleições".

Sobre a solução à portuguesa avançada por Sánchez na quinta-feira, Mariano Rajoy acredita que o líder socialista é capaz de o fazer, até "porque já disse que essa é a sua intenção e já o fez noutras instituições públicas". Em Madrid, por exemplo, Manuela Carmena, candidata por uma plataforma da qual faz parte o Podemos, só tomou posse graças ao apoio do PSOE.

Fora de questão parece estar também um apoio do Ciudadanos, o terceiro partido mais votado, a uma aliança das esquerdas. Logo na quinta-feira, Albert Rivera havia dito que em Espanha não é possível uma solução à portuguesa por causa da defesa do independentismo feita pelo Podemos.

Mas ontem, Ciudadanos já defendia que uma renúncia do partido de Pablo Iglesias ao referendo da Catalunha "não era suficiente" para que ponderassem uma abstenção a um acordo entre o PSOE e a restante esquerda. "O Podemos teria de deixar de ser o Podemos", disse ao El País fonte da direção do partido.

Ontem, o banco norte-americano Goldman Sachs alertou que este cenário de incerteza política em Espanha, bem como a possibilidade de um referendo na Catalunha, poderá ameaçar a "estabilidade e integridade" da zona euro e as previsões de crescimento da Europa. "A realização de novas eleições em 2016 é bastante provável se a aliança defendida por Mariano Rajoy não se concretizar", referem os analistas da instituição.

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