Terroristas suicidas matam cristãos no Egito a 20 dias da visita do Papa Francisco

Atentados contra duas igrejas, com três horas de diferença entre si, deixaram quase meia centena de mortos no Domingo de Ramos e foram reivindicados pelos terroristas do Estado Islâmico durante a tarde de ontem

"Vi pedaços de corpos e de assentos estraçalhados. Havia tanto sangue por todo o lado e algumas pessoas sem metade do corpo. As três primeiras linhas da igreja ficaram totalmente destruídas." O relato é de Nabil Nader, testemunha do atentado suicida que ontem fez 29 mortos na igreja copta de São Jorge em Tanta, a 94 quilómetros do Cairo, citado pelo site da BBC. Entre as vítimas mortais estão quatro polícias que tentaram impedir o bombista de entrar na igreja. Foi nessa altura que se fez explodir. Três horas depois, na igreja copta de São Marcos, em Alexandria, outro bombista suicida matava 18 pessoas. O papa copta Teodoro II tinha estado nessa igreja na parte da manhã, mas saíra do local pouco antes da ocorrência ao ataque. Quase meia centena de mortos e mais de uma centena de feridos num Domingo de Ramos sangrento. Os atentados, reivindicados entretanto pelo Estado Islâmico (EI), acontecem a apenas 20 dias da ida do Papa Francisco ao Egito. O líder dos cristãos católicos tem visita marcada ao Cairo para os dias 28 e 29.

Falando ontem na Praça de São Pedro, no Vaticano, Francisco condenou os atentados e manifestou a sua solidariedade a Teodoro II. "Ao meu querido irmão Teodoro II, à Igreja Copta e a toda a querida nação egípcia, expresso o meu mais profundo pesar", declarou o chefe da Igreja Católica. O Papa condenou ainda o atentado de sexta-feira em Estocolmo, na Suécia, que deixou quatro mortos, também ele inspirado na ideologia do EI. A mais importante instituição do islão sunita, a Mesquita de Al-Azhar, emitiu igualmente um comunicado a condenar o duplo atentado suicida contra os cristãos coptas. "O objetivo cobarde destes atentados é o de desestabilizar a segurança e a estabilidade do nosso querido Egito e a unidade do povo egípcio", lê-se no documento, que fala em "crime repugnante".

Além dos suicidas que se fizeram explodir nas duas igrejas, foram ainda encontrados e desativados outros dois artefactos explosivos junto à Mesquita Sidi Abdel Rahmin, também na cidade de Tanta, lugar que alberga um importante santuário dos sufis. Estes são outra das minorias perseguidas pelos grupos jihadistas no Egito. Em reação ao ocorrido, o presidente egípcio, Abdel Fatah al-Sisi, convocou uma reunião de urgência do Conselho de Defesa Nacional para analisar o sucedido. Do Conselho fazem parte o primeiro-ministro, o presidente do Parlamento e os comandantes das Forças Armadas. Al-Sisi ordenou, entretanto, o reforço da segurança em lugares estratégicos do país e ordenou ao Exército que apoie a polícia na proteção de "infraestruturas vitais".

As mensagens de apoio aos egípcios e de condenação dos atentados chegaram um pouco de todo o mundo. Nos EUA, o presidente Donald Trump escreveu na sua conta de Twitter: "Estou muito triste por saber deste ataque terrorista no Egito. Os EUA condenam. Tenho plena confiança de que o presidente Al-Sisi lidará com a situação da melhor forma." Trump recebeu Al-Sisi na Casa Branca no passado dia 4. O chefe do Estado egípcio obteve também o apoio do secretário-geral da Liga Árabe, Ahmed Abulgueit, o qual foi o último ministro dos Negócios Estrangeiros de Hosni Mubarak (ditador derrubado pelos protestos da Primavera Árabe em 2011). Países árabes como Jordânia, Líbano e Arábia Saudita também se solidarizaram.

Na Europa, a França, país que nos dois últimos anos foi alvo de atentados do Estado Islâmico por diversas vezes, ofereceu todo o apoio ao Egito. "Mais uma vez, o Egito é atingido por terroristas que querem destruir sua unidade e diversidade. [A França] "mobiliza todas as suas forças em articulação com as autoridades egípcias na luta contra o terrorismo", disse o presidente François Hollande, numa declaração escrita divulgada pelas agências internacionais. Da parte de Portugal, o presidente e o primeiro-ministro também lamentaram o ataque contra a minoria de cristãos coptas do Egito. "Condeno veementemente estes bárbaros ataques bem como todas as manifestações de intolerância religiosa", afirmou Marcelo Rebelo de Sousa em mensagem divulgada através do site da Presidência. "Em meu nome e do governo português, condeno aqui os ataques no Egito e expresso o nosso profundo pesar pelas vítimas", escreveu por sua vez António Costa, na sua conta no Twitter.

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