"Temos de separar o circunstancial do estrutural na relação com os EUA"

MNE afirma que Portugal tem especial interesse em acentuar a relação com os EUA, mesmo em tempos difíceis. Entrevista em Washington, antes do encontro de Marcelo com Trump

Uma relação para tempos difíceis - será assim entre Portugal e EUA? É o que esperam os milhares de portugueses e lusodescendentes dos EUA e os empresários cada vez em maior número que fazem negócios através do Atlântico. E é também a convicção do ministro dos Negócios Estrangeiros, que reuniu com o secretário de Estado Mike Pompeo, na visita que antecedeu a do Presidente Marcelo Rebelo de Sousa, que chega amanhã a Washington para um encontro com Donald Trump. "Temos de separar o circunstancial do estrutural", disse Augusto Santos Silva, na conferência Enduring Alliances, organizada pela FLAD e a Universidade de Georgetown. Um exercício de paciência a que Portugal e os aliados americanos estão obrigados nestes momentos complexos.

É, hoje, possível melhorar a relação Portugal-EUA?

Sim, se soubermos distinguir o circunstancial do estrutural. Seria inacreditável ignorar a profundidade das divergências entre a administração americana e os países europeus, incluindo o Reino Unido. Em comércio internacional, em relação às prioridades que definimos. Um europeu diz coisas como: se queremos perceber os problemas de segurança de um país como a Nigéria, temos de partir das alterações climáticas - é a luta por acesso a recursos cada vez mais escassos em função do contexto ambiental. Os norte-americanos têm uma visão diferente. Mesmo em segurança, a visão que nos parece demasiado contabilística compara com a posição na Europa de construir segurança apoiando o desenvolvimento.

Então, que fazer?

Não podemos esquecer que divergências de circunstância não afetam o laço histórico. É preciso distinguir os aliados, e as rivalidades que podem ter, e os adversários. O primeiro inimigo que todos temos são as redes terroristas internacionais.

Para Portugal o que é fundamental nesta relação neste momento?

Sublinhar a riqueza da agenda bilateral - dimensão energética, económica, científica, de comunidades com cada vez maior visibilidade. E a nossa posição bilateral. É muito distinta daqueles que já dizem que o laço transatlântico é coisa do passado e temos de nos habituar que já não podemos confiar nele.

Portugal, no fundo, até pode ser beneficiado pelo pendor mais "bilateral" e menos coletivo da política externa da administração Trump...

Não... Na agenda da relação entre UE e EUA estamos do lado da UE. Somos, aliás, dos que insistimos que o tempo é de acentuar a importância vital do laço transatlântico e não diminuí-lo. Não só a única estrutura de defesa coletiva é a NATO como a aliança política entre Canadá e EUA e os outros parceiros do mar é essencial para quem acredita numa ordem internacional baseada em regras. É óbvio que há troca de pontos de vista sobre questões regionais sobre as quais Portugal tem informações que os EUA estão interessados em conhecer. O conselheiro de Segurança quis saber sobre a Venezuela, a Turquia... A nossa relação bilateral tem caminho para crescer.

Estas semanas têm sido complexas... imigração, direitos humanos nos EUA. Houve conversas sobre esse assunto?

Não. No debate quinzenal foi dito que a posição portuguesa era de condenação sem ambiguidade. Mas não foi tema de conversa. O tempo é precioso nestes encontros, não falamos sobre assuntos em que estamos 100% de acordo, nem 0% de acordo, não adianta nada.

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