#tchauqueridos: o movimento que faz anticampanha no Brasil

Este projeto elabora um ranking dos congressistas que não devem ser eleitos em 2018 e divulga-o nas redes sociais. Parlamentares do PT estão nas últimas posições.

Segundo as últimas sondagens, a maioria dos brasileiros ainda não sabe em quem votar nas eleições gerais de 2018. O projeto #tchauqueridos ajuda pelo menos a escolher em quem não votar. Apresentada na última semana em Brasília, a ideia resulta da união entre o movimento Vem Pra Rua, criado para exigir o impeachment de Dilma Rousseff, do PT, e o Ranking dos Políticos, site que classifica as quase seis centenas de parlamentares brasileiros em itens como participação nas sessões, gastos de verbas públicas e número de processos em tribunal. Como ao contrário das campanhas normais não precisa de autorização do Tribunal Superior Eleitoral para começar a agir, esta espécie de contrapropaganda já está em plena atividade nas redes sociais.

Além de critérios objetivos, o ranking estabeleceu pontuações subjetivas: quem votou pela queda da ex-presidente Dilma ganhou 25 pontos mas quem quis que o presidente Michel Temer fosse investigado no Supremo Tribunal Federal recebeu apenas cinco pontos, na primeira denúncia, ou dez na segunda. O grupo manifesta-se por um lado contra a corrupção, o que explica a pontuação favorável aos que defenderam punições por supostos ilícitos aos últimos presidentes, mas por outro é inequívoco no apoio à iniciativa privada e ao regime de mercado, o que tomba a balança para o lado do atual governo em detrimento da gestão anterior. Ter votado numa reforma laboral que flexibiliza as relações entre o patrão e o empregado - e que dividiu esquerda, contra, e direita, a favor - também gerou pontuação positiva para o congressista no ranking.

Outro ponto essencial para a classificação é a posição do parlamentar face ao projeto das dez medidas essenciais contra a corrupção, apresentado em novembro de 2016 no Congresso Nacional pelos procuradores da República à frente da Operação Lava-Jato. Deltan Dallagnol, um desses procuradores, e muito próximo de alguns dos envolvidos no projeto #tchauqueridos, definiu "as eleições de 2018 como o momento da batalha final da Lava--Jato". "Porque", concluiu, "a maior ameaça ao combate à corrupção vem do Congresso".

Nas últimas dez posições estão seis congressistas do PT, o que levou a críticas de que o ranking tem viés ideológico. "E nos dez primeiros classificados, quatro são do PSDB [de centro-direita] e os outros seis também são de partidos que apoiam o governo de Michel Temer", notou o colunista do jornal Folha de S. Paulo Bernardo Mello Franco. O fundador do ranking Alexandre Ostrowiecki falou, ao mesmo jornal, em "carácter apartidário" e negou existir "direcionamento pró-esquerda ou pró-direita" na ferramenta. "Nós deixamos claro como é feita a seleção e aí as pessoas emitem o seu próprio julgamento", acrescentou Rogério Chequer, líder do Vem Pra Rua e colíder do #tchauqueridos, uma alusão ao "tchau querida" com que Lula da Silva se despediu de Dilma num telefonema gravado no auge da crise do impeachment e que entrou no anedotário da política nacional.

Segundo Chequer, "o projeto vai mostrar aos eleitores o que os deputados e senadores fizeram ou deixaram de fazer enquanto estiveram no Parlamento e assim o recado ficará dado". Para os organizadores, a divulgação da lista pretende ainda lançar informação sobre o passado dos candidatos e promover uma atmosfera de representatividade alinhada com os desejos da população. "Ainda temos "queridos" que precisam sair para a vida política do Brasil melhorar", concluiu o líder do Vem Pra Rua.

São Paulo

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