Steve Bannon chama extrema-direita de "monte de palhaços" e desmente Trump

Estrategista da Casa Branca desvalorizou a tensão com a Coreia do Norte numa entrevista que não esperava que fosse publicada

O chefe de estratégia de Donald Trump, Steve Bannon, deu uma entrevista em que descreveu a extrema-direita como "um monte de palhaços", revelou que "não há uma solução militar para as ameaças nucleares da Coreia do Norte", ao contrário do que o presidente tem dito, e afirmou que os EUA estão numa guerra económica com a China.

Bannon, de 63 anos, é tido como uma das vozes do nacionalismo nos Estados Unidos e responsabilizado pelas recentes atitudes de Trump, que se recusa a culpar unicamente a extrema-direita pelos incidentes em Charlottesville.

Esta terça-feira, Bannon ligou para um jornalista do The American Prospect e deu uma rara entrevista, em que disse que a extrema-direita é "irrelevante". "O etnonacionalismo é para falhados. É um elemento à parte e acho que os meios de comunicação lhe dão muita importância. Temos de ajudar a esmagá-lo", disse Bannon. "Estes tipos são um monte de palhaços".

Antes de ser contratado por Donald Trump, Steve Bannon dirigiu durante quatro anos o 'site' de extrema-direita Breitbart News, que ele próprio disse ser "uma plataforma da 'alt-right'", ou 'extrema-direita alternativa'.

Bannon disse ainda querer que os democratas "falem de racismo todos os dias". "Se a esquerda estiver focada na raça e identidade e nós avançarmos com o nacionalismo económico, podemos esmagar os democratas", explicou o estratega de Trump.

Mudando para assuntos mais importantes - segundo o próprio Bannon - o responsável disse então que "a guerra económica com a China é tudo e temos de estar extremamente focados nisso".

"Estamos numa guerra económica com a China. Está na literatura deles e eles não têm vergonha de dizer o que estão a fazer. Em 25 ou 30 anos um de nós vai ser uma hegemonia e vão ser eles se nós continuarmos a descer por este caminho", explicou Bannon.

"Quanto à Coreia [do Norte] eles estão só a seguir-nos. É um espetáculo secundário", continuou. Bannon desvalorizou as ameaças de Trump de atacar a Coreia do Norte com "fogo e fúria" dizendo que "não há solução militar para a Coreia do Norte, esqueçam".

Uma entrevista involuntária, diz Bannon

A entrevista foi publicada esta quarta-feira. No artigo, o jornalista Robert Kuttner explica que nunca tinha falado com Bannon e que durante a chamada nunca foi discutido se o teor da conversa era "off the record", ou seja, se poderia ser divulgado pelo jornal.

A Axios publicou esta quinta-feira um artigo em que diz que Bannon ficou muito surpreendido ao ler a entrevista porque não sabia que as suas palavras seriam publicadas. Segundo a publicação, o estrategista disse aos colegas da Casa Branca que não foi a sua intenção dar uma entrevista e que apenas ligou para o jornalista porque admira o seu trabalho e gostou das peças que Robert Kuttner escreveu sobre a relação entre os EUA e a China.

Nas redes sociais, várias pessoas comparam a chamada de Bannon ao jornalista à de Anthony Scaramucci, em que o antigo diretor de comunicação da Casa Branca insultava vários assessores de Trump - incluindo Bannon.

O futuro de Bannon na Casa Branca tem sido questionado nos últimos tempos - já que Trump tem despedido vários membros da sua equipa e recusou-se a garantir que iria manter o principal estratega - e há quem relembre que foi o telefonema para o jornalista da The New Yorker que levou ao despedimento de Scaramucci.

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