"A minha mãe ouviu na rádio a condenação à morte do meu pai"

Almoço com László Hubay-Cebrián, que chegou a Portugal com cinco anos como refugiado depois de ver o pai condenado à morte e é neto do compositor Jenö Hubay.

László Hubay-Cebrián escolheu o restaurante O Orelhas, em Queijas, para o nosso almoço. Fica a meio caminho entre Cascais, onde vive o antigo presidente da Walt Disney para a Península Ibérica, e Lisboa, cuja confusão procura evitar. "Venho aqui há muitos anos", conta-me este descendente de uma família aristocrática húngara que chegou a Portugal em 1952 com cinco anos, com papéis de refugiado, que depois durante muito tempo teve passaporte norueguês (o país da mãe). Hoje, com 72 anos, apesar de casado com uma portuguesa e com filhos e netos portugueses, sente fortemente que a Hungria é a sua pátria, a sua terra.

"O português tem este sentido muito especial para a palavra terra. A minha terra, diz-se. Portugal é a minha terra adotiva, da qual gosto muito mesmo, mas a minha terra é a Hungria", explica. É um amor que se pode perceber ainda melhor conhecendo a trágica história dos Hubay sob o regime comunista que durou até 1989: o avô Jenö Hubay, elogiado por Franz Liszt em jovem e ele próprio depois um nome grande da música húngara, teve a sua obra proibida durante décadas, apesar de ter morrido ainda antes da Segunda Guerra Mundial, e o pai Andor Hubay-Cebrián, um artista plástico, chegou a ser condenado à morte num julgamento sumário, só escapando porque a diplomacia da Noruega, por causa da mãe de László, Edle, interveio.

Recordar a "Beleza húngara"

Paulo, que comanda o serviço no Orelhas, é filho do dono e cozinheiro, António Travassos de seu nome, homem de Sarzedo, aldeia do concelho de Arganil. Fazem festa em redor de László, que não lhes poupa os elogios. O mais jovem por ser um grande conhecedor de vinhos, e fazer questão de manter uma bela garrafeira, o mais velho por ser mestre na cozinha, usando com orgulho o barrete branco dos chefs. Sem sequer se pedir, chegam uns camarões al ajillo e uma farinheira frita. Nem eu nem o meu convidado nos fazemos rogados e vamos petiscando enquanto prosseguimos a conversa. A história dos Hubay fascina-me desde que a descobri há dois anos, quando escrevi uma crónica intitulada "Beleza Húngara", depois de assistir a convite da embaixadora Klára Breuer a um concerto em Lisboa a propósito dos 60 anos da revolta na Hungria contra a satelização do país pela União Soviética. No auditório da Escola Superior de Música foi tocado o Concerto para Violino n.3 (Sol minor, op. 99) de Jenö Hubay, apresentado originalmente em 1907, ainda no tempo do Império Austro-Húngaro. Foi a primeira vez que a obra foi tocada em Portugal e logo na presença do neto, um episódio comovente para muitos dos presentes naquela sala, fossem húngaros, portugueses ou luso-húngaros, pois há alguns, como Istvan e Katinka, filhos de László e de Manuela de Sousa Rama, que foi jornalista na RTP.

Antes de escolhermos, pergunto a László sobre o que há de melhor na gastronomia húngara. "É difícil responder, mas há similitudes entre a cozinha portuguesa e a cozinha húngara. Sobretudo entre a cozinha alentejana e a cozinha húngara. Portanto, se um português fosse à Hungria hoje em dia, as duas coisas que eu diria que teria de absolutamente experimentar é o que se chama o paprikás csirke ou seja, galinha em paprika, e o goulash que é basicamente uma sopa de caça. É uma sopa que tanto a alta aristocracia na Hungria comia como as classes mais baixas", responde. Uma espécie de prato nacional? "Sim", concorda o homem que se entusiasma a falar da pátria e que quando este artigo for publicado estará em Budapeste, onde dia 15, numa cerimónia oficial patrocinada pelo Estado e pela Academia das Artes, o seu avô será declarado "grande húngaro".

László, foi assim que pediu para o tratar, escolhe secretos de porco. Eu aceito a sugestão dos filetes de corvina acompanhados de arroz de tomate. Para beber, tinto, com Paulo Travassos a trazer para a mesa um Cartuxa. Falamos um pouco sobre vinhos húngaros, a começar pelo famoso Tokaj, doce, feito com mosto de uvas afetadas por podridão nobre ou botrytis (um fungo) e que tem fama de medicinal. "Os czares russos pediam que o mosto fosse enviado para lá para curar as pessoas", sublinha. Quanto aos chamados vinhos de mesa, diz que "nos dias que correm já começa a haver vinhos tintos húngaros muito bons, mas basicamente acho que cá em Portugal os tintos são de superior qualidade. Obviamente, não conheço todos. Enquanto ao contrário, os vinhos brancos na Hungria, no meu entender, têm uma qualidade superior aos vinhos brancos portugueses".

Pai condenado à morte

László nasceu em agosto de 1946, em Oslo, porque a mãe insistiu, receando a degradação da situação em Budapeste, ainda a recuperar dos bombardeamentos e cada vez mais submetida aos caprichos de Estaline, nada respeitador da ânsia de liberdade desses magiares (assim chamam os húngaros a si próprios) oriundos das estepes asiáticas. Mas a partir dos três meses a sua casa foi a Hungria, onde vivia com os pais e uma irmã uns anitos mais velha. Até que em 1948, com a tomada de poder pelos comunistas, o terror se abateu sobre a família, famosíssima há décadas pelos concertos oferecidos no Palácio Hubay, onde um Béla Bartok ainda com escassa projeção foi convidado um dia a tocar pelo genial Jenö.

Edle e as crianças saíram por precaução para a Áustria e depois para a Noruega. "A minha mãe ouviu na rádio a condenação à morte do meu pai. Nada tinha feito. Felizmente conseguiu fugir", conta László. O crime da família era a oposição feita por Jëno Hubay logo a seguir à Primeira Guerra Mundial ao efémero regime soviético húngaro liderado por Béla Kun. Finalmente vitoriosos, na sequência da derrota da Alemanha Nazi, os comunistas húngaros apoiados por Moscovo vingaram-se e apesar de o compositor ter morrido em 1937 tudo fizeram para o fazer cair no esquecimento.

Um emprego na Vista Alegre

Havia alguma ligação da família a Portugal. Conta o fundador da Câmara de Comércio Luso-Húngara que a família ajudou judeus que depois receberam salvo-condutos dos diplomatas portugueses Sampaio Garrido e Carlos Branquinho e escaparam a Hitler. Mas a vinda para Portugal foi sobretudo porque Andor não suportava o longo inverno norueguês, diz o filho. Aceitou ser diretor artístico da Vista Alegre e em 1951 a família Hubay-Cebrián instalou-se em Portugal. "Vivíamos com algumas dificuldades, certamente o nível de vida dos meus pais não era aquele a que se tinham habituado. Mas nunca ouvi um queixume do meu pai", salienta, acrescentando terem sido ajudados pela família da mãe e pelos Espírito Santo e Bobone. Edle acabou por escrever um livro de memórias intitulado 'Uma Vontade Indomável: de Budapeste ao Estoril', destinado a ser um filme também.

Andor não ficou muito tempo na empresa de loiças. O seu espírito reformista incomodava. "Pelo que ele nos contava, quando chegou à Vista Alegre encontrou uma fábrica bastante antiquada. Nessa altura Portugal tinha quatro estações, como hoje em dia não temos, e ele dizia que essas quatro estações eram em média basicamente mais quentes do que na Hungria. Nessa época os fornos para a porcelana eram aquecidos por lenha e ele achava que as pessoas não conseguiam ficar a trabalhar oito horas à volta desses fornos a queimar lenha a 1200 graus, porque depois o ambiente também aquecia, então reduziu os turnos de oito para seis horas. As pessoas que pintavam, e são pinturas muito minuciosas, necessitavam de luz direta, por isso alterou a parte técnica de toda a luminosidade; exigiu também que a cada hora, cada pessoa que pintasse tivesse um quarto de hora de descanso", relembra o filho, a tentar segurar uma lágrima.

Futebolista na Suíça

László foi para Ílhavo para a escola da Vista Alegre. Depois já em Lisboa, onde o pai passou a viver de ensinar, andou na escola inglesa e na americana. Até chegar a aventura na Suíça, muito diferente da pensada de início, pois o futebol quase tomou o lugar da universidade. "Eu achava que jogava muito bem e jogava cá, a brincar, um pouco no Belenenses e um pouco no Sporting. Quando fui para lá para ir estudar engenharia achava que iria ser o melhor engenheiro do mundo. Acho que fui à universidade uma vez na minha vida, assustei-me quando vi geometria do espaço pois não entendi absolutamente patavina daquilo. Então apresentei-me no FC Zurique e eles gostaram do que viram e comecei a jogar para eles, e joguei profissionalmente durante quatro anos", relembra. "Depois quando eu percebi que não ia ser um Pelé nem um Eusébio e não ia dar para viver bem a vida, decidi largar o futebol e fui estudar. E fui para St Gallen estudar economia".

Orbán e a defesa da Europa cristã

A vida que teve foi de empresário. Ainda teve tentação de investir em terra e gastou o dinheiro ganho a jogar futebol numa fazenda em Angola, que perderia. Como gestor, foi nos anos à frente da Disney ibérica teve grande êxito e pouco a pouco foi visitando com cada vez mais regularidade a Hungria, mas só começou depois da morte do pai em 1971. "O meu pai fez-me prometer não ir lá com ele vivo, pois poderia ser retido para serviço militar e nunca mais sair do país em represália pela história familiar". Reencontrou-se com a sua terra, que hoje o fascina, apesar de perceber certas críticas, mas não todas a Viktor Orbán. "Bem, na primeira fase, nessa altura, quando eu ia durante o comunismo a Hungria era horrível. Era um país cinzento, não tinha cor, não tinha alegria, não tinha claridade. Absolutamente nada. Hoje, é um país com cor, com alegria, com música, com pessoas que são orgulhosas de si próprias e das coisas que estão a fazer. Economicamente a Hungria está a funcionar muito bem. O primeiro-ministro tem feito um trabalho excelente economicamente e está a funcionar muito bem". E sobre a má imagem atual em alguns meios? "Eu acho que, em muitos casos, no resto da Europa não entendem o que é que nós somos. Nós somos europeus, vamos defender a Europa como sempre defendemos. A guerra de cem anos contra os otomanos foi em defesa da Europa, para os turcos não invadirem a Europa, e conseguimos travar a invasão turca na batalha de Mohacs de 1687. Portanto, acho que muitas vezes os extremos tomados pelo primeiro-ministro da Hungria são corretos porque nós assim fomos sempre durante a nossa história e o resto da Europa não o entende".

Para sobremesa, manga fatiada. Para os dois. Falamos agora da ida a Budapeste esta semana, para a distinção a Jenö Hubay, da qual o primeiro a me alertar foi Joaquim Pimpão, delegado da AICEP na Hungria, que tinha lido a minha crónica de 2016 e me enviou um mail sobre o evento. "É uma sensação completamente indescritível terem reconhecido hoje em dia finalmente, postumamente, o valor dele, porque durante 40 anos ele basicamente representava a cultura húngara dentro e fora das fronteiras. Reconstruiu a academia de música juntamente com o seu amigo Liszt, construiu e deu renome à escola de violino húngara baseada nos ensinamentos dele. Finalmente está a ser reconhecido pelo esforço que fez. O palácio dele em Budapeste, o salão de música enquanto ele tocava violino, era o centro cultural musical da Hungria e da Europa. Do palácio Hubay era transmitido o concerto em direto todos os domingos, pela Rádio Europa nessa altura", realça um neto orgulhoso.

Anna Karenina em Lisboa

Chega o café, e mais um, e mais outro ainda. A conversa ainda não terminou porque László tem sonhos por concretizar que juntam Portugal e o seu distinto avô. "Uma das coisas que eu gostaria muito de fazer, e a embaixada da Hungria aqui em Portugal também, é encontrar uma forma de fazer concursos musicais, sobretudo em termos de violino, para depois criar uma bolsa para os estudantes portugueses poderem ir um semestre ou dois semestres para Budapeste", diz. Outro desejo é ver uma das óperas do avô no São Carlos e aposta em particular numa;"o São Carlos que está sempre à procura de novos músicos e bandas tradicionais que eu acho muito bem, podia ir buscar a Anna Karenina que já foi duas vezes posta em cena em Braunschweig e foi posta uma vez em cena nesta última época em Berna, e que certamente no próximo ano - a ópera de Budapeste está fechada porque está em obras -, vamos também pôr em cena em Budapeste."

RESTAURANTE O ORELHAS

1 pão

1 camarões al ajillo

1 farinheira frita

2 águas

1 Cartuxa tinto

1 secretos de porco

1 filetes de corvina

1 manga fatiada

6 cafés

103 euros

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