Socialistas espanhóis só terão novo líder daqui a seis meses

Comité federal decidiu primárias em maio e congresso em junho. Militantes, analistas e políticos ouvidos pelo DN dizem que o partido, profundamente dividido, tem de se reformar

Para onde caminha o PSOE? O que pode acontecer no próximo congresso federal do mês de junho? A divisão que o partido vive abriu um profundo debate interno sobre o modelo a seguir. Com os piores resultados eleitorais de sempre, o PSOE tem agora uma oportunidade para recuperar o seu lugar na democracia espanhola. Caso não a saiba aproveitar, as feridas que agora dividem o partido podem ser cada vez mais profundas.

"O PSOE não fez introspeção", começa por alertar o politólogo Carlos Rico ao DN. O partido, diz, enfrenta desafios importantes. "O primeiro é o eleitoral, porque corre o risco de ser um partido mediano. Converteu-se num partido muito conservador e defende novas políticas sem trazer novas ideias." Carlos Rico lembra que em Espanha os socialistas não optaram por uma versão mais liberal da social-democracia como aconteceu em Itália com Matteo Renzi ou em França com Manuel Valls e François Hollande. A isso juntam-se problemas que são muito específicos de Espanha. "Na discussão sobre a questão nacional não existe um debate único." Além disso, a sede do PSOE "tem cada vez menos poder, pois o partido parece um conjunto de federações que toma decisões sem respeitar o que diz o centro enquanto [a calle] Ferraz antes funcionava a uma só voz". O politólogo não vê no partido debate ideológico profundo -"não renovou o seu discurso" - e caso não aproveite a oportunidade a crise pode agravar-se. Aconselha, por isso, o PSOE a ter uma nova estratégia de comunicação para melhor chegar "às novas gerações".

Ramón Jaúregui, porta-voz do PSOE no Parlamento Europeu, reconhece ao DN que o partido está numa fase importante "porque acabamos de terminar uma liderança traumática". Faz um apelo a uma reflexão serena, "para restaurar as feridas internas" e considera que é necessário "modernizar a proposta social-democrata". Para o eurodeputado o próximo congresso socialista deve apostar na "renovação orgânica profunda adaptada aos tempos modernos para ter um partido mais urbano e online, na conexão com uma oferta política para a Espanha de 2020". Jaúregui entende que a atual legislatura do PP pode durar até 2020 e o PSOE tem de estabelecer "que partido quer ser e como gerir a sua participação no Parlamento". Lembra que o jogo político espanhol conta agora com "novas forças políticas" e garante que o PSOE "aceita a superação do bipartidarismo". Além disto, considera que os socialistas "precisam de uma proposta económica e social e de ser o partido capaz de oferecer confiança à cidadania".

Em resumo, diz, "o PSOE deve ser um partido moderno para uma sociedade mais justa numa democracia mais moderna". E sublinha a importância de "não perder a vocação de partido de maioria". O eurodeputado acredita que a crise socialista é uma soma de vários fatores e está relacionada com a crise da social-democracia europeia. "Hoje existe uma tentação populista grave", sublinha, admitindo que "a gestão socialista dos últimos meses não tem sido muito boa" e isso agrava a situação. Jaúregui confia que o tempo vai "permitir serenar internamente as coisas". E espera que "a necessidade de unidade que existe no partido leve o PSOE à união em torno de um só candidato [a líder do partido]".

Para o deputado socialista Ignacio Sánchez Amor o PSOE precisa de um projeto que permita recuperar o controlo da esquerda. "Não devemos renunciar a ser uma maioria de esquerda." Critica que o seu partido se tenha juntado "às modas dogmáticas" e que na era de Pedro Sánchez (como líder) tenha "existido o complexo de expressar as ideias socialistas, havendo o risco de se cair no populismo". A reforma necessária, refere, "deve ter em conta que existem populismos mas que as pessoas quando vão votar são sensatas". Sánchez Amor acredita que o partido não precisa de mais papéis teóricos e sim de uma reafirmação da ideia da social-democracia.

Neste debate interno os militantes sentem-se desorientados. Luís F. entregou o seu cartão ao partido há uns meses. "Vou esperar para ver quem será o próximo líder e a direção que o partido vai tomar para decidir se volto ou não." Uma das principais críticas que faz, tal como muitos outros militantes, é que "o PSOE ajudou a direita a ficar no poder [com a abstenção]". Para Alberto Peñas, outro militante, "o PSOE deve ser um partido do século XXI, com novas políticas, para não se afastar dos jovens". Está otimista sobre o futuro, porque mesmo que existam diferenças entre os socialistas "é possível ser leal". Nas redes sociais é fácil encontrar diferentes movimentos de militantes como #YoViajoConPedro, #CongresoYa ou #MilitantesEnPie, em que se pode constatar a preocupação com o futuro do partido.

O comité federal do PSOE anunciou ontem a celebração do próximo congresso socialista para os dias 17 e 18 de junho. As primárias serão no mês de maio, em data por determinar no próximo comité do mês de março. O presidente da comissão gestora, Javier Fernández, em funções desde a demissão de Pedro Sánchez em outubro, pediu lealdade aos críticos do partido e respeito entre os futuros candidatos a secretário-geral. O máximo dirigente provisório do PSOE quer que a agenda socialista "volte a ser a agenda de Espanha". E lembrou: "Se fizermos unidos oposição amanhã vamos governar unidos."

Fernández sabe que a ferida interna do partido se agravou com a abstenção à tomada de posse de Mariano Rajoy. "O tempo dirá se nos enganámos, mas nunca que não fomos leais com Espanha." Os principais possíveis candidatos a líderes do PSOE (Susana Díaz, Pedro Sánchez e Patxi López) continuam sem esclarecer as suas intenções, tendo preferido fazer declarações evasivas que não permitem fazer ainda grandes leituras.

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