Rússia convoca embaixadores de países que expulsaram diplomatas russos

Nas últimas horas, a Rússia já expulsou dois diplomatas holandeses, quatro alemães e dois espanhóis

O Governo da Rússia está a chamar ao Kremlin os embaixadores dos países que anunciaram a expulsão de diplomatas russos no seguimento do envenenamento do antigo espião russo Sergei Skripal e da sua filha Yulia.

De acordo com os repórteres da agência de notícias francesa AFP que estão em Moscovo a acompanhar a chegada dos diplomatas, os embaixadores de nove países europeus, entre os quais o Reino Unido, a França, a Alemanha, a Itália e a Polónia, foram chamados ao Kremlin.

Os embaixadores de outros países, como a Letónia, a Lituânia, a Eslováquia e a República Checa, já começaram a chegar ao Ministério dos Negócios Estrangeiros da Rússia, constataram os repórteres da AFP.

"Em 30 de março, os chefes das missões diplomáticas de vários países acreditados na Federação Russa, que tomaram ações não amigáveis contra a Rússia 'em solidariedade' com o Reino Unido no caso Skripal foram convocados ao Ministério dos Negócios Estrangeiros da Rússia", le-se numa nota de imprensa colocada no site do MNE russo.

Os embaixadores vão receber notas de protesto e serão informados sobre as medidas recíprocas

A convocação dos embaixadores surge no mesmo dia em que o Kremlin garantiu que não foi a Rússia a iniciar uma guerra diplomática, na sequência da expulsão de dezenas de diplomatas russas devido ao caso do envenenamento do antigo espião russo.

Expulsos quatro diplomatas alemães

"Esta decisão de Moscovo não é uma surpresa", afirmou o ministro alemão das Relações Exteriores, Heiko Mas, em comunicado citado pela agência de notícias francesa AFP, no qual garante a continuação do diálogo com Moscovo apesar destas medidas.

"Nós não decidimos demitir os diplomatas russos, foi um sinal político necessário e apropriado" em solidariedade com a falta de cooperação de Moscovo no esclarecimento do caso, disse Maas.

O embaixador alemão na Rússia foi um dos convocados para ir ao Ministério dos Negócios Estrangeiros da Rússia, esta manhã, juntamente com vários outros chefes da diplomacia em Moscovo, para serem informados das medidas de retaliação definidas pelo Kremlin.

Expulsos dois diplomatas espanhóis

O embaixador de Espanha em Moscovo, Ignacio Ybáñez, foi hoje convocado à sede do Ministério dos Negócios Estrangeiro da Rússia para ser informado de que dois diplomatas espanhóis foram considerados 'persona non grata', disseram à agência de notícias espanhola Efe fontes da embaixada espanhola na capital russa.

Expulsos dois diplomatas holandeses de Moscovo

A Rússia decidiu hoje expulsar dois diplomatas holandeses do país, em retaliação pela expulsão de dois diplomatas russos da Holanda, no âmbito do caso Skripal, anunciou hoje a embaixadora, Renée Jones-Bos, à agência de notícias TAAS.

"Dois dos meus colegas estão a sair de Moscovo, mas nós, a embaixada, ficamos aqui", disse a diplomata, no mesmo dia em que vários embaixadores europeus foram chamados ao Ministério dos Negócios Estrangeiros para serem informados das represálias contra os seus países.

Kremlin defende que não foi a Rússia a iniciar uma guerra diplomática

O Kremlin defendeu hoje que não foi a Rússia a iniciar uma guerra diplomática, defendendo a decisão de Moscovo de expulsar 60 diplomatas norte-americanos, em retaliação pela expulsão de 60 diplomatas russos nos Estados Unidos.

"Não é a Rússia que se envolveu numa guerra diplomática, não é a Rússia que iniciou uma troca de sanções ou uma expulsão de diplomatas", disse o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, em declarações aos jornalistas.

"A Rússia foi forçada a responder aos atos injustos e ilegítimos de Washington", acrescentou o diplomata, comentando a expulsão de 60 diplomatas russos decretada pelos Estados Unidos na segunda-feira, e o anúncio de que a Casa Branca pondera tomar mais medidas na sequência da expulsão dos norte-americanos na Rússia, na quinta-feira.

"O presidente russo, Vladimir Putin, ainda é a favor do desenvolvimento de boas relações com todos os países, incluindo os Estados Unidos", concluiu o porta-voz.

Se se acrescentarem as medidas similares tomadas pelo Reino Unido, pela maioria dos Estados membros da União Europeia, bem como pela Ucrânia, Canadá e Austrália, já somam quase 230 os diplomatas que devem ser expulsos em consequência do caso do envenenamento no Reino Unido do ex-espião russo Serguei Skripal.

EUA preparam mais medidas

"Não há qualquer justificação para a reação russa", destacou a porta-voz do Departamento de Estado norte-americano, Heather Nauert, durante um encontro com jornalistas, na quinta-feira. "Reservamo-nos o direito de responder", continuou, acrescentando que "as opções estão a ser examinadas".

Estimou ainda que Moscovo tinha "decidido isolar-se ainda mais", ao expulsar os diplomatas norte-americanos e encerrar o consulado dos EUA em São Petersburgo, depois de medidas idênticas tomadas por Washington.

Até agora, a Federação Russa anunciou a expulsão de 85 diplomatas ocidentais, aqueles norte-americanos, 23 britânicos, dois holandeses, quatro alemães e dois espanhóis.

"Quanto aos outros países, (a resposta de Moscovo) vai ser idêntica no que respeita ao número de pessoas que vão ter de abandonar a Rússia", disse hoje o ministro dos Negócios Estrangeiros russo, Serguei Lavrov.

Antes, os EUA e 18 Estados da União Europeia, além de outros Estados ocidentais, anunciaram, desde segunda-feira, 122 expulsões.

Com os 23 russos já expulsos pelo Reino Unido, em 20 de março, são 145 os diplomatas russos que foram objeto de expulsão.

A estes, têm ainda de se acrescentar os sete membros da representação russa na sede da NATO, em Bruxelas, aos quais a Aliança Atlântica anunciou hoje ir retirar a acreditação.

O presidente do Conselho Europeu, Donald Tusk, indicou que "medidas suplementares, incluindo novas expulsões, não estavam excluídas nos próximos dias e próximas semanas".

O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, afirmou que a tensão entre os Estados Unidos e a Rússia começa a assemelhar-se à Guerra Fria, depois do anúncio da expulsão de dezenas de diplomatas russos devido ao caso Skripal.

"Penso que estamos a chegar a uma situação que é similar, em grande medida, ao que experimentámos durante a Guerra Fria", disse António Guterres.

O caso

O ex-espião duplo de origem russa Serguei Skripal, de 66 anos, e a sua filha Yulia, de 33 anos, foram encontrados inconscientes a 04 de março em Salisbury, no sul de Inglaterra, após terem sido envenenados com um componente químico que ataca o sistema nervoso.

O Reino Unido atribuiu o envenenamento à Rússia, que tem desmentido todas as acusações e exigido provas concretas sobre esta alegação.

Em 14 de março, Londres anunciou a expulsão de 23 diplomatas russos do território britânico e o congelamento das relações bilaterais, ao que Moscovo respondeu expulsando 23 diplomatas britânicos e suspendendo a atividade do British Council na Rússia.

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Anselmo Borges

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