NATO expulsa sete diplomatas russos e rejeita três pedidos de acreditação

NATO decidiu expulsar sete diplomatas da missão da Rússia junto daquela organização, na sequência do envenenamento do ex-espião russo Serguei Skripal

O secretário-geral da NATO, Jens Stoltenberg, indicou ainda que a Aliança Atlântica rejeitou os pedidos de acreditação para outros três elementos da missão da Rússia, que não é membro da aliança atlântica.

"Retirei hoje as acreditações a sete membros da missão russa junto da NATO. Também rejeitei três pedidos de acreditação", afirmou Stoltenberg, numa declaração à imprensa na sede da Aliança Atlântica em Bruxelas.

Segundo o secretário-geral da NATO, tais medidas enviam "uma mensagem clara à Rússia de que existem custos e consequências face a um padrão de comportamento inaceitável e perigoso".

E também surgem perante "a ausência de uma resposta construtiva da Rússia" sobre o caso Skripal.

Apesar destas expulsões, Stoltenberg destacou que a Rússia ainda terá uma missão diplomática com 20 pessoas junto da NATO na sede da Aliança Atlântica, na capital belga, o que permitirá a Moscovo manter contactos essenciais com os 28 Estados-membros que compõem aquela organização.

"A decisão de hoje não altera a política da NATO em relação à Rússia. A NATO continua empenhada na abordagem a duas vertentes de uma defesa forte e de uma abertura ao diálogo, incluindo a preparação para a próxima reunião do Conselho NATO-Rússia", frisou.

Os Estados Unidos e cerca de vinte outros países, entre os quais 16 da União Europeia (UE), anunciaram segunda-feira a expulsão, no conjunto, de quase uma centena de diplomatas russos dos seus territórios, em apoio ao Reino Unido.

Na semana passada, Londres expulsou 23 funcionários russos como represália pelo alegado envenenamento com um gás neurotóxico do ex-espião russo.

Em 4 de março, Skripal e a sua filha foram encontrados inconscientes num parque de Salisbury (sul de Inglaterra) após terem sido expostos a uma substância química que, segundo Londres, foi desenvolvida na Rússia.

O Governo do Presidente Vladimir Putin tem desmentido todas as acusações e exigido provas concretas sobre esta alegação.

O Kremlin considerou as medidas um "gesto provocador", prometendo responder à altura.

"A Rússia nada tem a ver com essa questão", insistiu Moscovo.

Decisão de Portugal defenderá interesses nacional, europeu e da NATO

A decisão do Governo português sobre o "caso Skripal" está "em curso" e rege-se pela defesa dos interesses "nacional, europeu e da Aliança Atlântica", mas também pela "autonomia, prudência e firmeza", disse à Lusa o ministro dos Negócios Estrangeiros.

"A medida que em cada momento se revelar mais conforme aos interesses nacionais portugueses, aos interesses europeus e aos interesses da Aliança Atlântica, essa será a medida que nós tomaremos, porque são esses os três critérios: o nosso interesse nacional, enquanto país que fala com toda a gente no mundo e que tem uma enorme facilidade de contacto com todas as grandes regiões do mundo, e os interesses europeu e da Aliança Atlântica", afirmou hoje, em declarações à Lusa, Augusto Santos Silva.

Assim, as medidas que o Governo português decidir "sem precipitação, com autonomia, com prudência, mas também com firmeza", sublinhou o governante, "são as que melhor respondam a estes três critérios", acrescentou.

MNE russo diz que expulsões devem-se a "pressões colossais" dos EUA

O chefe da diplomacia russa afirmou hoje que a ação concertada de duas dezenas de países de ocidentais de expulsão de diplomatas russos em resposta ao caso Skripal é "o resultado de pressões colossais" dos Estados Unidos.

"Quando se pede a um ou dois diplomatas para abandonarem este ou aquele país, ao mesmo tempo que se murmuram desculpas ao ouvido, sabemos precisamente que é o resultado de pressões colossais, de uma chantagem colossal que é, infelizmente, a principal arma de Washington na cena internacional", disse Serguei Lavrov numa conferência de imprensa em Tashkent transmitida pela televisão russa.

China pede "tranquilidade" face a vaga de expulsão de diplomatas russos

China apelou hoje à "tranquilidade" e ao "abandono da mentalidade da Guerra Fria" após a expulsão de diplomatas russos por países em todo o mundo, na sequência do envenenamento do ex-espião russo Sergei Skripal no Reino Unido.

"Os países implicados deviam obedecer à lei internacional e às normas básicas das relações diplomáticas, visando evitar uma maior escalada das confrontações", disse a porta-voz do ministério chinês dos Negócios Estrangeiros, Hua Chunying.

A porta-voz reagia assim à decisão dos Estados Unidos e cerca de vinte outros países de expulsar, no conjunto, quase uma centena de diplomatas russos dos seus territórios, em apoio ao Reino Unido.

Imprensa russa denuncia nova "Guerra Fria"

A imprensa russa considerou hoje que as expulsões coordenadas de diplomatas russos de 23 países após o envenenamento de um ex-espião russo mergulharam as relações entre Moscovo e o Ocidente num novo "período de Guerra Fria".

O diário Izvestia titula "encenação russofóbica", enquanto o jornal Nezavissimaia Gazeta lembra que "há muito que não se registam expulsões coordenadas".

"A relação entre a Rússia e o Ocidente entra num período de 'Guerra Fria'", resumiu o analista Fiodor Loukianov nas páginas do diário Vedomosti, considerando que as expulsões "são particularmente destrutivas para as relações russo-americanas".

"Está claro que ainda não se chegou ao fim desta escalada, pois é claro que vai ser agravada. Esperam-se medidas ainda mais severas do que as sanções económicas contra a Rússia", previu.

Para o diário Kommersant, as "medidas, de uma gravidade sem precedentes (...), não são mais do que um novo agravamento das relações" entre a Rússia e o Ocidente.

Em sentido contrário, a rádio independente Ekho Moskvy defendeu que toda a política da Rússia "concentra a energia na autodestruição desde 2014", ano da anexação da península ucraniana da Crimeia, seguida por uma série de sanções ocidentais.

ONU evita comentar decisão de expulsão mas confirma ter sido notificada

A ONU disse hoje ter sido notificada pelos Estados Unidos sobre a expulsão de um grupo de diplomatas russos, que preferiu não contabilizar, acreditados na missão da Rússia junto daquela organização, mas escusou-se a comentar a decisão.

Um porta-voz da ONU confirmou que a organização internacional recebeu a notificação de Washington mas que, "dada a sensibilidade" da matéria, só podia confirmar que o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, estava "a seguir atentamente" o assunto.

Na conferência de imprensa diária, o porta-voz de Guterres, Farhan Haq, evitou comentar a decisão de Washington, nem sequer quis precisar o número de funcionários visados pela medida, a respetiva identidade e os procedimentos que se seguem.

Farhan Haq afirmou que as "ações" adotadas pelos Estados Unidos estão sustentadas na secção 13B do acordo firmado em 1947 entre Washington e a ONU, texto que regulamentou o funcionamento da sede da organização na cidade norte-americana de Nova Iorque.

A secção mencionada por Farhan Haq, que o próprio leu parcialmente na conferência de imprensa, estabelece que os diplomatas designados para as missões junto da ONU não podem abusar dos respetivos privilégios para poder residir no país com "atividades não relacionadas com o respetivo caráter oficial".

Esses privilégios, definidos no artigo 11.º do mesmo acordo, estabelecem, entre outros aspetos, que as autoridades norte-americanas não podem dificultar a entrada e saída da zona onde fica localizada a sede da ONU aos membros das respetivas missões, aos peritos com funções atribuídas pela organização internacional, convidados e representantes de organizações não-governamentais reconhecidas.

Bulgária convoca para consultas embaixador em Moscovo

O Governo búlgaro convocou hoje o seu embaixador na Rússia, Boiko Kotsev, devido ao caso do envenenamento no Reino Unido do ex-espião Serguei Skripal e de sua filha Yulia com um agente químico.

"O primeiro-ministro [Boiko] Borisov ordenou ao embaixador que regresse a Sófia para manter consultas com o Governo", informou o Executivo em comunicado.

A Bulgária, que assume este semestre a presidência rotativa da União Europeia, é um dos 11 países do bloco comunitário que não decidiram, na segunda-feira, expulsar qualquer diplomata russo devido ao caso Skripal.

Na semana passada, Borisov declarou em Bruxelas que a Bulgária não tencionava expulsar diplomatas russos pelo facto de não existirem "provas firmes" contra Moscovo.

A Bulgária, que integra a NATO, mantém tradicionalmente boas relações com a Rússia.

Moldávia expulsa três diplomatas russos

A Moldávia anunciou esta terça-feira que também vai expulsar três diplomatas russos, no âmbito da ação internacional coordenada de resposta ao envenenamento do ex-espião russo Serguei Skripal no Reino Unido, anunciou o Ministério dos Negócios Estrangeiros moldavo.

O embaixador russo em Chisinau, Farit Muhametshin, foi informado da decisão.

A Moldávia, afirma o MNE num comunicado, considera o ataque a Skripal "uma ameaça à segurança coletiva e à lei internacional".

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