"Síria serve para legitimação interna de Trump e Macron"

Ataque a instalações de armas químicas do regime de Assad não altera situação no terreno. Mas serviu para dirigentes ocidentais enviarem mensagens no plano nacional.

Questões de legitimação interna foram um dos motivos centrais que ditaram a intervenção de Estados Unidos, França e Reino Unido da passada semana na Síria, consideraram diferentes especialistas em questões internacionais ouvidos pelo DN sobre o ataque a instalações de armas químicas do regime de Bashar al-Assad. Àquelas questões há a somar razões humanitárias e interesses específicos no quadro do conflito que opõe há mais de sete anos o regime de Damasco a diferentes milícias, referiram os mesmos analistas.

Para Paulo de Almeida Sande, professor de Ciência Política e Relações Internacionais da Universidade Católica, houve "três tomadas de posição que convergiram essencialmente por questões de política interna, talvez a única que tem uma dimensão geoestratégica implícita, embora seja difícil concluir isso, é a de Trump, devido ao seu caráter errático sobre a saída em breve dos EUA da Síria". O ataque de sábado "teve muito a ver, por razões distintas, com necessidades internas de cada um" dos líderes políticos envolvidos: os presidentes Donald Trump e Emmanuel Macron, e a primeira-ministra Theresa May. Há "fragilidades em cada um deles, embora o caso de Trump seja algo diferente", não se verificando, pelo menos, no mesmo grau a "necessidade de afirmação interna que existe no Reino Unido e em França", respetivamente para May, por causa do brexit ,e Macron, "alvo de contestação violenta" pelas reformas económicas e sociais que leva a cabo.

Opinião partilhada pelo coronel na reserva Nuno Pereira da Silva, especialista em Política Comum de Segurança e Defesa da União Europeia (UE), para quem "Macron tem tido vários problemas internos" e "de legitimação interna, este alinhamento com Trump é também uma tentativa de legitimação interna". Pressão semelhante, pensa, a que está sujeito presidente dos EUA, devido à atmosfera política vivida à sua volta. "Eles estão iguais. E a guerra na Síria serve para a sua legitimação interna". E também May enfrenta problema idêntico por causa do brexit, ao mesmo tempo que procura influenciar a política europeia de segurança, "que quer mais próxima" dos EUA e da NATO.

Interesses franceses

Ponto realçado por Pereira da Silva, na visão de Paris, é o de que "a França, desde o tempo de Napoleão, sempre teve interesses no Médio Oriente. Aquilo que são hoje a Síria e o Líbano foram entregues à França no final da I Guerra Mundial, que acabou por lhes dar as fronteiras atuais e contribuiu para o seu aparecimento" como Estados. A "França tem "interesse geopolítico" na região, que "não muda com o tempo" e "sente-se responsável pelo Líbano e pela Síria". Particularmente neste último país em que se parece "avançar para a sua balcanização", o que, defende o coronel, torna indispensável à França "fazer sentir a sua presença". Além de afirmar o país no plano internacional e europeu. Para Pereira da Silva, há ainda um aspeto militar relevante para a França, que é o de terem sido usados pela primeira vez em teatro operacional novos mísseis navais de cruzeiro, MdCN, parecidos aos Tomahawk americanos.

Já para Bernardo Pires de Lima, investigador do Instituto Português de Relações Internacionais da Universidade Nova, a ação da França terá sido motivada por um "misto de atuação moral" e, também, de o "Médio Oriente ser uma zona de interesse próprio e de relações estratégicas de que Paris não abdica e em que não se percebe hoje qual a capacidade de influência dos EUA nas dinâmicas regionais".

Há, todavia, um denominador comum dos dirigentes ocidentais em causa no conflito sírio: "concluir a destruição do Estado Islâmico, a preocupação humanitária, proteger as populações e a ausência, nesta conjuntura, de querer terminar com o regime de Assad". De resto, e em particular o que parece a especial proximidade EUA-Trump, "esta é conjuntural", diz Almeida Sande.

Os "factos negam a concertação de um discurso, de uma estratégia" e dá como exemplo o desmentido americano às palavras de Macron de que teria sido o presidente francês a convencer Trump a permanecer na Síria. Estamos perante "uma convergência conjuntural", pensa Almeida Sande, e o desmentido "vem enfraquecer a posição" de Macron em França. Pires de Lima nota que o ataque "não altera a situação no terreno", mas dá "sinais de fora para dentro" nos casos de May e de Macron, a que se soma neste último uma "dimensão estratégica, isto é, sublinhar que os EUA têm uma dimensão ímpar e não se deve cair no erro de esfriar a relação bilateral, como Berlim, ou estar numa zona de ninguém, como Londres". A ideia final é a de que a França está pronta a ser o grande aliado europeu dos EUA", indica Pires de Lima.

"Oposição natural"

Para Pereira da Silva, uma concertação estratégica franco-americana é improvável (Macron visita os EUA a partir de dia 23), até pela suspeita recorrente em Washington sobre o comportamento de Paris na NATO, que vem desde a época de Charles de Gaulle na presidência de França (1959-1969). Há "uma oposição natural, o que não impede que por vezes não possam agir em uníssono, quando há interesses estratégicos em comum", neste caso no Médio Oriente onde, recorda, os franceses têm bases e zonas de influência.

A conjuntura europeia teve também influência na operação. "O eixo franco-alemão está enfraquecido" com a "relutância da Alemanha" face às reformas necessárias na zona euro, e isto também enfraquece Macron, que muito aposta nestas, defende Almeida Sande. Pires de Lima pensa que a relutância alemã na questão das reformas, levou Macron a escolher as questões de defesa para transmitir uma importante mensagem ao conjunto da UE: "somos o grande interlocutor na Europa dos EUA", tendo presente o distanciamento da Alemanha e certa "indefinição" em Londres. E "isto conta num momento em que há tensão com a Rússia".

Entretanto na Síria, os inspetores da Organização para a Proibição de Armas Químicas continuam a não ter autorização para entrar em Douma, o alvo do ataque com armas químicas que originou a retaliação de sábado. "Ainda existem questões de segurança pendentes", foi referido às agências pelo diretor da organização, citando argumentos apresentados por sírios e russos.

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