Síria: derrota do Estado Islâmico é uma oportunidade para a diplomacia

Putin anunciou retirada parcial do contingente militar russo e procura dinamizar processo diplomático com vista a solução política.

Numa visita-surpresa, Vladimir Putin deslocou-se há dias à Síria para proclamar "vitória" e anunciar o regresso a casa de "uma parte significativa" do contingente militar russo. Uma "missão cumprida" que marca, apesar de todas as incógnitas no terreno, um virar de página no conflito.

Quando a Rússia lançou a sua campanha militar na Síria, em setembro de 2015, Barack Obama previu que Moscovo ia "enfiar-se num atoleiro" e na própria Rússia agitou-se o fantasma da campanha afegã dos anos 1980. Dois anos depois, a realidade no terreno parece longe desses augúrios.

O objetivo da intervenção russa anunciado pelo próprio Putin era combater o "terrorismo internacional". O Estado Islâmico sofreu sérios revezes militares e perdeu grande parte do território que controlava na Síria (e no vizinho Iraque), com as forças fiéis a Assad apoiadas por Moscovo e a coligação liderada pelos Estados Unidos a disputarem os louros da vitória.

A expedição militar russa tinha, porém, outras dimensões. Do ponto de vista de Moscovo tratava-se antes de salvar um aliado-chave de um colapso militar e político iminente. Os governos ocidentais acusam as campanhas de bombardeamentos russos de terem visado tanto a oposição síria como os jihadistas.

Graças ao apoio russo, as tropas de Damasco retomaram a iniciativa no terreno e Bashar al-Assad é hoje uma figura incontornável na crise, mesmo se os Estados Unidos e os seus aliados, a Turquia e a oposição síria continuem a exigir o afastamento do presidente sírio.

O timing da visita-surpresa do líder russo não terá sido inócuo. A visita ocorreu uma semana depois de Putin ter anunciado a sua candidatura a um novo mandato nas eleições daqui a três meses. O anúncio do início da retirada das tropas russas da Síria não deixará de representar um trunfo perante um eleitorado que, ao que indiciam diversas sondagens, se mostra pouco convencido com os custos militares e financeiros da intervenção num país distante e que parece dizer pouco à população russa.

Rússia volta ao Médio Oriente

Bashar al-Assad deve a Moscovo a sua sobrevivência política e as forças de Damasco continuarão a depender das armas, do equipamento e do apoio dos conselheiros russos. Moscovo garantiu para já uma poderosa influência na Síria. A Rússia mantém duas importantes bases militares no Norte do país - Hmeimim, perto de Latakia, e uma base naval em Tartus.

A intervenção na Síria faz ao mesmo tempo da Rússia um ator de peso no Médio Oriente, depois de um quarto de século de virtual ausência da região.

Putin aproveitou a deslocação-surpresa à Síria para uma série de importantes contactos na região. No Egito, o presidente russo e o homólogo egípcio, Abdel Fattah el-Sisi, falaram da retomada dos voos turísticos diretos entre os dois países e da cooperação militar russo-egípcia e num contrato para a construção de uma central nuclear de 30 milhões de dólares no Egito. Putin fechou o dia em Ancara onde discutiu com Recep Erdogan as negociações políticas para pôr termo ao conflito na Síria e a venda do sistema de defesa antiaérea S-400 à Turquia.

O regresso da Rússia ao Médio Oriente é tanto mais notório quanto contrasta com os embaraços e a política errática dos Estados Unidos na região. A decidida intervenção russa na Síria parece ter capitalizado erros de cálculo dos EUA e a relutância da Europa em se envolver mais diretamente no conflito sírio.

A recente decisão do presidente americano Donald Trump de reconhecer Jerusalém como capital de Israel desencadeou uma vaga de indignação no mundo árabe, valeu uma condenação esmagadora nas Nações Unidas e ameaça a reputação da América como mediador na região.

O papel predominante assumido pela diplomacia russa na Síria parece enfim estar a arrancar a Rússia do isolamento internacional a que se viu condenada desde a anexação da Crimeia, em fevereiro de 2014.

Analistas e a imprensa russa sublinham, por outro lado, a importante experiência militar adquirida e o rápido aumento das encomendas estrangeiras de armas russas.

A guerra na Síria está longe de terminada - o Kremlin não adiantou de resto qualquer data para a retirada total do contingente russo. O Estado Islâmico mantém ainda bolsas de resistência, os confrontos entre as tropas de Damasco e forças da oposição prosseguem e, depois da queda de Raqqa, a "capital" do "califado", grupos apoiadas pelos EUA e milícias pró-iranianas disputam marcos estratégicos no leste da Síria.

No fio da navalha

A nova situação no terreno colocou mesmo virtualmente frente a frente forças assistidas pelos americanos, tropas sírias e milícias apoiadas pelo Irão. Em meados de novembro aviões Su-25 russos e F-22 americanos estiveram à beira da colisão nos céus sobre o Eufrates, com as duas partes a acusarem-se de responsabilidades pelo incidente.

Em rigor, a situação atual no terreno conforma um novo mapa estratégico com a Síria dividida em várias zonas controladas pelo regime de Assad, pelas Forças Democráticas da Síria (uma amálgama de forças curdas e árabes apoiadas pelos EUA), por diversos grupos de oposição anti-Assad (algumas apoiadas pela Turquia) e pelas milícias xiitas pró-iranianas.

Moscovo procura assumir a iniciativa na procura de uma solução política que lhe permita consolidar os avanços conseguidos no terreno. Ao longo do ano, a Rússia organizou conversações com grupos da oposição síria em Astana e no final de novembro Putin reuniu-se em Sotchi com os presidentes do Irão e da Turquia, Hassan Rouhani, e Recep Erdogan, para anunciar a convocação de um Congresso do Povo Sírio (entretanto adiado para o próximo ano), defender eleições sob supervisão da ONU e apelar a um "compromisso" e a "concessões de todas as partes, incluindo obviamente o governo sírio".

Ora, as perspetivas de Moscovo e de Damasco sobre o futuro da Síria estão longe de coincidir. Bashar al-Assad pretende recuperar por inteiro o controlo da Síria e mostra-se relutante em relação a qualquer partilha do poder. Segundo alguns analistas, o anúncio da retirada parcial de Putin podia ser mesmo parte de um esforço para pressionar o líder sírio.

Os esforços russos têm ainda de acomodar os interesses do Irão, o outro grande aliado de Damasco, que pretende capitalizar o peso das milícias sob o seu controle na Síria (como no vizinho Iraque)

A Turquia continua a opor-se categoricamente à presença dos curdos na mesa de negociações. Ancara considera o YPG curdo uma organização terrorista com ligações ao ilegalizado Partido dos Trabalhadores do Curdistão.

A atitude dos Estados Unidos continua a ser uma incógnita, quer quanto ao apoio às Forças Democráticas da Síria e ao terreno sob o seu controlo em Raqqa e a norte do Eufrates quer no que toca à influência do Irão na Síria.

Um quadro político complexo e uma situação militar ainda incerta, que prenuncia enormes obstáculos à procura de uma solução política para um conflito que terá feito já, segundo diversas fontes, mais de 350 mil mortos desde a rebelião anti-Assad de 2011.

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