Segurança de Macron preso para interrogatório e demitido

Alexandre Benalla foi filmado a agredir manifestantes durante os protestos do 1.º de Maio. Depois de inicialmente ter apenas suspenso o colaborador, presidente francês resolveu demiti-lo alegando que surgiram "novos factos".

Alexandre Benalla, encarregado de missão do chefe de gabinete do Eliseu, foi detido para interrogatório depois de ter sido identificado num vídeo a agredir manifestantes durante os protestos do 1.º de Maio, em Paris. Depois de 48 horas de pressão, o presidente francês, Emmanuel Macron, resolveu também demiti-lo.

Benalla está a ser investigado pela procuradoria por "violência por pessoa encarregada de uma missão de serviço público", assim como "usurpação de funções" e "usurpação de insignias reservados às autoridades públicas" e "desvio de imagens de um sistema de video-vigilância".

Alexandre Benalla, que era responsável pela segurança do presidente, foi identificado pelo Le Monde na quarta-feira como sendo o homem que, num vídeo publicado no YouTube, surge com capacete de polícia a bater num dos manifestantes, junto com outros agentes. Segundo o Eliseu, tinha sido autorizado a assistir à manifestação, mas apenas como observador.

O vídeo em questão foi publicado logo a 1 de maio, no YouTube, no canal MLM-NIBIRU. Por volta do minuto 1:54, quando se apercebe que está a ser filmado, o homem entretanto identificado como Benalla, afasta-se do local.

Entretanto, segundo a BFMTV, há um segundo vídeo a mostrar outra vítima de Benalla.

O chefe da gabinete de Macron, Patrick Strzoda, disse ao Le Monde que, um dia depois do protesto, foi alertado por um colaborador que Benalla tinha sido reconhecido no protesto. "Vi os vídeos, convoquei-o nesse mesmo dia, e perguntei-lhe se era ele", afirmou ao jornal. E avisou Macron, que então estava de visita à Austrália, que lhe disse que se os factos se comprovassem tinha que haver sanções.

Como Benalla reconheceu ser ele no vídeo, a reação do Eliseu foi suspendê-lo durante 15 dias (o que aconteceu de 4 a 19 de maio). Terá também diso afastado das funções da organização da segurança do presidente nas suas deslocações.

Mas tal decisão gerou fortes protestos da oposição, quando o caso foi revelado. Esta manhã, citando os "novos factos" entretanto revelados, o Eliseu anunciou que o presidente vai demitir Benalla.

"Novos factos que poderiam constituir crime por Alexandre Bella foram trazidos à atenção do presidente", disse um funcionário do Eliseu à Reuters. "Como resultado, a presidência decidiu começar o procedimento de demissão de Benalla", acrescentou.

Outro colaborador pontual do Eliseu, Vincent Crase, ex-gendarme empregado do La République en Marche!, o partido do presidente, também foi detido para interrogatório. Surge no mesmo vídeo que Benalla.

Críticas da oposição

A oposição considera contudo que a demissão de Benalla vem tarde de mais, tendo sido lançado um inquérito parlamentar ao facto de a punição inicial ter sido uma mera suspensão e de as autoridades não o terem denunciado logo às autoridades judiciais.

Os media franceses alegam que o ministro do Interior, Gerard Collomb, que na quinta-feira pediu um inquérito interno na polícia ao incidente, sabia da existência do vídeo desde dia 2 de maio, um dia após ser filmado e publicado online.

O ministro pediu entretanto a suspensão de três funcionários da polícia de Paris, que terão entregado a Benalla as imagens de videovigilância da manifestação, sem autorização. "O ministro condena fortemente as ações que, se forem confirmadas, constituem uma grave falha de deontologia e põem em risco a imagem de exemplaridade que deve, em todas as circunstâncias, caracterizar a ação da polícia nacional", indicou em comunicado, revelando que a inspeção-geral da polícia e o ministério público foram também informados.

Segundo a agência francesa AFP, que cita uma fonte próxima do caso, os três polícias suspensos serão um comissário, um comandante e um controlador geral.

Ler mais

Premium

Ruy Castro

À falta do Nobel, o Ig Nobel

Uma das frustrações brasileiras históricas é a de que, até hoje, o Brasil não ganhou um Prémio Nobel. Não por falta de quem o merecesse - se fizesse direitinho o seu dever de casa, a Academia Sueca, que distribui o prémio desde 1901, teria descoberto qualidades no nosso Alberto Santos-Dumont, que foi o verdadeiro inventor do avião, em João Guimarães Rosa, autor do romance Grande Sertão: Veredas, escrito num misto de português e sânscrito arcaico, e, naturalmente, no querido Garrincha, nem que tivessem de providenciar uma categoria especial para ele.

Premium

João Taborda da Gama

Le pénis

Não gosto de fascistas e tenho pouco a dizer sobre pilas, mas abomino qualquer forma de censura de uns ou de outras. Proibir a vista dos pénis de Mapplethorpe é tão condenável como proibir a vinda de Le Pen à Web Summit. A minha geração não viveu qualquer censura, nem a de direita nem a que se lhe seguiu de esquerda. Fomos apenas confrontados com alguns relâmpagos de censura, mais caricatos do que reais, a última ceia do Herman, o Evangelho de Saramago. E as discussões mais recentes - o cancelamento de uma conferência de Jaime Nogueira Pinto na Nova, a conferência com negacionista das alterações climáticas na Universidade do Porto - demonstram o óbvio: por um lado, o ato de proibir o debate seja de quem for é a negação da liberdade sem mas ou ses, mas também a demonstração de que não há entre nós um instinto coletivo de defesa da liberdade de expressão independentemente de concordarmos com o seu conteúdo, e de este ser mais ou menos extremo.

Premium

Alemanha

Lar de Dresden combate demência ao estilo Adeus, Lenin!

Uma moto, numa sala de cinema, num lar de idosos, ajudou a projetar memórias esquecidas. O AlexA, na cidade de Dresden, no leste da Alemanha, tem duas salas dedicadas às recordações da RDA. Dos móveis aos produtos de supermercado, tudo recuperado de uma Alemanha que deixou de existir com a queda do Muro de Berlim. Uma viagem no tempo para ajudar os pacientes com demências.

Premium

Adolfo Mesquita Nunes

A direita definida pela esquerda

Foi a esquerda que definiu a direita portuguesa, que lhe identificou uma linhagem, lhe desenhou uma cosmologia. Fê-lo com precisão, estabelecendo que à direita estariam os que não encaram os mais pobres como prioridade, os que descendem do lado dos exploradores, dos patrões. Já perdi a conta ao número de pessoas que, por genuína adesão ao princípio ou por mero complexo social ou de classe, se diz de esquerda por estar ao lado dos mais vulneráveis. A direita, presumimos dessa asserção, está contra eles.