Segurança agride manifestante e deixa Macron debaixo de fogo

Alexandre Benalla, encarregado de missão do chefe de gabinete do Eliseu, foi identificado num vídeo a bater num manifestante durante os protestos do 1.º de Maio. Foi suspenso 15 dias, mas oposição exige explicações.

Um colaborador próximo do presidente francês foi suspenso durante 15 dias depois de ter sido filmado a bater num manifestante durante os protestos do 1.º de Maio, em Paris. Mas a oposição (e não só), tanto à esquerda como à direita, considera a suspensão demasiado branda, deixando Emmanuel Macron debaixo de fogo.

Alexandre Benalla, encarregado de missão do chefe de gabinete do Palácio do Eliseu que era responsável pela segurança do presidente, foi identificado pelo Le Monde na quarta-feira como sendo o homem que, num vídeo publicado no YouTube, surge com capacete de polícia a bater num dos manifestantes, junto com outros agentes.

O vídeo em questão foi publicado logo a 1 de maio, no YouTube, no canal MLM-NIBIRU. Por volta do minuto 1:54, quando se apercebe que está a ser filmado, o homem que agora é identificado como Benalla, afasta-se do local.

Entretanto, o Ministério Público abriu um inquérito preliminar por "violência por pessoa encarregada de uma missão de serviço público", assim como "usurpação de funções" e "usurpação de sinais reservados às autoridades públicas".

Reação do Eliseu

"Benalla tinha autorização para assistir à manifestação apenas como observador", disse o porta-voz do Eliseu, Bruno Roger-Petit. "Claramente, foi além disso", referiu num vídeo publicado no site do Eliseu.

"Foi de imediato convocado pelo chefe de gabinete do presidente e suspenso durante 15 dias, com suspensão de salário" e "afastado das suas funções em matéria de organização da segurança das deslocações do presidente", acrescentou Roger-Petit, indicando que é "o último aviso antes do despedimento". Segundo o porta-voz, "é a punição por um comportamento inaceitável".

O próprio Macron, de visita à região da Dordonha, recusou responder às questões dos jornalistas. "A República é inalterável", foi o único comentário do presidente.

Um segundo homem também "foi além do autorizado", revelou o porta-voz do Eliseu. Vincent Crase, gendarme na reserva e funcionário do partido La République en Marche!, de Macron, também recebeu uma "suspensão de 15 dias sem salário" e "pôs fim a qualquer colaboração entre ele e a presidência".

Críticas

No Parlamento, a ministra da Justiça, Nicole Belloubet, foi uma das que já reagiu ao vídeo considerando tratar-se de "gestos absolutamente inadaptados".

Já o deputado Laurent Saint-Martin, do La République En Marche!, considerou que Benalla não devia trabalhar mais no Eliseu, considerando que a presidência teve o "bom reflexo" ao suspendê-lo de imediato.

A oposição vai mais longe. O presidente dos Republicanos, Laurent Wauquiez, exigiu explicações a Macron, questionando se houve "manobras" para "calar" o caso.

"Quando estamos no Eliseu, devemos mostrar o exemplo e hoje o sentimento que temos é que o Eliseu acredita estar acima de tudo", referiu Wauquiez, citado pela AFP.

"Porque é que os polícias o deixarão fazer aquilo? Porque é que a justiça não foi chamada? Porque é que Emmanuel Macron se contentou com uma suspensão. O que está a fazer este capanga na segurança do Eliseu", questionou o deputado Eric Coquerel, do partido A França Insubmissa.

Ler mais

Premium

João Gobern

País com poetas

Há muito para elogiar nos que, sem perspectivas de lucro imediato, de retorno garantido, de negócio fácil, sabem aproveitar - e reciclar - o património acumulado noutras eras. Ora, numa fase em que a Poesia se reergue, muitas vezes por vias "alternativas", de esquecimentos e atropelos, merece inteiro destaque a iniciativa da editora Valentim de Carvalho, que decidiu regressar, em edições "revistas e aumentadas", ao seu magnífico espólio de gravações de poetas. Originalmente, na colecção publicada entre 1959 e 1975, o desafio era grande - cabia aos autores a responsabilidade de dizerem as suas próprias criações, acabando por personalizá-las ainda mais, injectando sangue próprio às palavras que já antes tinham posto ao nosso dispor.