"Se um populista concorrer pelos democratas vai ganhar a Trump"

Cenk Uygur - pronuncia-se Tchenque - não é o jornalista a que estamos habituados na TV americana. Não é bonito, grita, diz o que pensa, sobretudo opiniões políticas. A isso atribui o sucesso do canal que fundou em 2005 e que é o mais visto no YouTube, nas notícias, o Young Turks TV - à frente até da Fox e da CNN.

O nome é brincadeira com a origem de Cenk mas dá sinal do que quer fazer: tem audiência jovem (idade média 32 anos), defende o "jornalismo perspectivo", que toma partido e... até fundou um movimento político. Cenk é da ala esquerda dos Democratas, apoiante de Sanders e opositor de Clinton, criou os Justice Democrats. Esteve na Web Summit, a falar de audiências no novo panorama dos media- o seu canal só funciona na rede social, tem 3,4 milhões de subscritores e mais de 7 mil milhões de visualizações. E deu uma entrevista política -de como há um ano, o mundo mudou.

Em 2016 foi eleito Donald Trump. Uma das piores semanas da sua vida?
Acho que sim. Os danos não têm sido tão evidentes porque ele é tão incompetente que tem tido problemas em passar as coisas no Congresso. O meu medo principal é se ele começa uma guerra com a Coreia do Norte. Trump não percebe as consequências das suas ações. É muito à flor da pele e é um fanfarrão. Quando se combina isso tudo, é perigoso. E Kim Jong-un foi mimado pelo pai, nunca lidou com as consequências dos seus atos, não tem os pés na terra... quando temos duas pessoas desligadas da realidade em lados opostos, com armas incrivelmente perigosas, isso é super-perigoso.

Há lições a tirar do que aconteceu?
A América está num tom populista. E zangada. E o Partido Democrata não quer ter consciência disso.
Qual é a responsabilidade de Barack Obama?
Ele devia ter percebido a zanga popular e ter-lhe respondido em vez de a ignorar. Teria ajudado se ele tivesse apoiado um candidato progressista que quisesse a mudança em vez de uma candidata que era o epítome do que as pessoas não gostavam no establishment. Mas ele nunca consideraria Bernie Sanders, e num certo sentido isso descreve o que está errado com o tipo de política que é a dele.

Foi o país zangado que elegeu Trump?
100%. No dia da eleição a sua popularidade era 37%. É incrivelmente baixo. Ele devia ter perdido à grande. Mas Hillary Clinton fez uma campanha pró-sistema, anti-mudança. E uma enorme fatia dos votantes queria apenas apanhar um tijolo e atirá-lo contra a janela do sistema. Chamo-lhes os eleitores-tijolo. Existem no mundo todo.

Os do brexit...
Não só. Os eleitores estão contra o sistema. O brexit e o Corbyn são populistas. Trump é populista, Sanders é populista. Hillary Clinton é o oposto do populismo.

O facto de Hillary ser mulher não representou uma mudança?
Ser mulher é uma mudança. E isso é bom. Mas as ideias dela eram as mesmas. Por isso perdeu as primárias em 2008. E agora o país está muito mais zangado e populista do que na altura. Por exemplo: toda a gente na TV dizia que era invencível. Eu dizia: como invencível? Perdeu em 2008! Eu vi com os meus próprios olhos - o mundo todo viu!

Ser populista pode não ser positivo, respostas simples para problemas complexos. Pode até ser perigoso...
A má conotação do populismo é-lhe dada sobretudo por quem quer manter o statu quo. E por vezes vai na direção errada, estou consciente disso, historicamente. Mas a palavra significa apelar ao povo. Que é o que devemos fazer numa democracia! Por exemplo: Sanders é populista mas não é simples, até é mais complexo, dá mais posições políticas. Da próxima vez vai ser um progressista populista a ganhar. E vai ser por muito.

E os democratas vão encontrar essa pessoa?
Eu vou encontrar essa pessoa. A minha audiência [do canal no Youtube] vai encontrá-la.

Tem um movimento político dentro do partido, os Democratas pela Justiça. É um Tea Party para a esquerda?
Algumas pessoas diriam que sim. Somos a ala progressiva mais forte do Partido Democrata. Somos democratas mas não acreditamos no establishment deles. E encontraremos um candidato que vai vencer a incompetência deles. Mas os democratas odeiam o populismo. E estão no nosso caminho. Por isso temos de tirá-los do caminho. Nas primárias. E depois nas eleições gerais.
Falou-se de que ia candidatar-se a senador pela Califórnia?
Não. Temos uma candidata fantástica, Alison Hartson.

Como é que combina isso com ser jornalista?
Simples. No velho mundo é suposto os jornalistas dizerem: sou neutral, não me importa o que vai acontecer. No novo mundo, se disser isso as minhas audiências vão dizer: então porque devo ouvir-te? Porque devo ouvir alguém dizer notícias se não lhe interessam? Vou dar um exemplo: Wolf Blitzer (CNN) está nos ecrãs há 30 anos e não tem uma opinião? Isso é, por definição, mentira! O público sabe. Tem, só que está a escondê-la. E somos honestos sobre a nossa opinião. Sim, somos progressistas. Sim, queremos mudanças. E se vocês quiserem mudar, isto é o que nós achamos que faz sentido: como devem votar, agir, fazer ativismo. Esta ideia teve uma origem. Eu estava a fazer o meu programa, e todas as histórias iam bater em: quem tem mais dinheiro ganha. Se continuasse a dizer que o dinheiro ia ganhar sempre, um, era muito aborrecido, deprimente, e depois... porque é que estou nisto tudo? Se quisesse fazer um show que apelasse ao público tinha de lhes explicar como lutar contra isto.

É a razão do vosso sucesso, do Young Turks TV?
Sim. Temos mais audiência do que toda a gente. Porque nos importamos. Vamos lutar por eles. E por isso vamos ganhar: os guerreiros vencem os mercenários.
A maior parte dos media demonizam as plataformas. A Young Turks trabalha no e com o Youtube.
As redes sociais são ótimas. Sim, às vezes é caótico, leva a coisas que não estão ligadas com a realidade, e eles deviam controlar, mas de forma geral democratizam os media. E as pessoas da TV tradicional estão sempre a falar mal delas porque, um, estão a tirar-lhes a audiência, e dois, gostam de ser "os guardiões da informação".

Mas vocês também são...
É uma ótima questão. Quero criar um sistema de duas vias com a audiência. Alguns dos meus apresentadores foram escolhidos entre o nosso público. Gostava de institucionalizar isso...

Com os 20 milhões que conseguiram de capital de risco?
É para isso que estamos a usar o dinheiro. Para ficarmos mais perto do público. Vamos fazer um programa chamado TYT Next para onde as pessoas vão mandar vídeos e vamos escolher dezenas de posts da audiência.

Ler mais

Exclusivos

Premium

João Gobern

Tirar a nódoa

São poucas as "fugas", poucos os desvios à honestidade intelectual que irritem mais do que a apropriação do alheio em conluio com a apresentação do mesmo com outra "assinatura". É vulgarmente referido como plágio e, em muitos casos, serve para disfarçar a preguiça, para fintar a falta de inspiração (ou "bloqueio", se preferirem), para funcionar como via rápida para um destino em que parece não importar o património alheio. No meio jornalístico, tive a sorte de me deparar com poucos casos dessa prática repulsiva - e alguns deles até apresentavam atenuantes profundas. Mas também tive o azar de me cruzar, por alguns meses, tempo ainda assim demasiado, com um diretor que tinha amealhado créditos ao publicar como sua uma tese universitária, revertido para (longo) artigo de jornal. A tese e a história "passaram", o diretor foi ficando. Até hoje, porque muitos desconhecem essa nódoa e outros preferiram olhar para o lado enquanto o promoviam.

Premium

Rogério Casanova

Três mil anos de pesca e praia

Parecem cagalhões... Tudo podre, caralho... A minha sanita depois de eu cagar é mais limpa do que isto!" Foi com esta retórica inspiradora - uma montagem de excertos poéticos da primeira edição - que começou a nova temporada de Pesadelo na Cozinha (TVI), versão nacional da franchise Kitchen Nightmares, um dos pontos altos dessa heroica vaga de programas televisivos do início do século, baseados na criativa destruição psicológica de pessoas sem qualquer jeito para fazer aquilo que desejavam fazer - um riquíssimo filão que nos legou relíquias culturais como Gordon Ramsay, Simon Cowell, Moura dos Santos e o futuro Presidente dos Estados Unidos. O formato em apreço é de uma elegante simplicidade: um restaurante em dificuldades pede ajuda a um reputado chefe de cozinha, que aparece no estabelecimento, renova o equipamento e insulta filantropicamente todo o pessoal, num esforço generoso para protelar a inevitável falência durante seis meses, enquanto várias câmaras trémulas o filmam a arremessar frigideiras pela janela ou a pronunciar aos gritos o nome de vários legumes.