"Se o diálogo com a Coreia do Norte for ao ar, o perigo é muito grande"

Embaixador português para a Coreia do Norte, entre 1993 e 1997, José Duarte de Jesus falou ao DN a propósito do seu novo livro Coreia do Norte: A Última Dinastia Kim, lançado nesta quinta-feira, em Lisboa.

Assumindo-se como moderadamente otimista em relação à cimeira entre Donald Trump e Kim Jong-un, prevista para 12 de junho, em Singapura, considera que o primeiro é mais imprevisível do que o segundo.

Coreia do Norte, a Última Dinastia Kim é o nome do seu novo livro. Esta poder ser realmente a última?
A ideia de Kim Jong-un é manter a dinastia. Mas isso vai depender das circunstâncias externas. Se ele conseguir a cimeira [com Donald Trump, a 12 de junho], se correr bem, ganhará prestígio para se manter no poder, podendo melhorar a situação económica da população e desenvolver a ideia de um socialismo do bem-estar. Se conseguir isso, independentemente das barbaridades que faz, se a população sentir que a vida está melhor, se deixar de haver fome, a dinastia é capaz de se aguentar.

Mas no mesmo registo duro?
É difícil de acabar com ele. Se acabar a mistificação das figuras, a dinastia pode acabar. Aquilo é uma religião e não tem nada que ver com marxismo-leninismo. É mais do que culto de personalidade. Quando isso acabar, se houver abertura, influência estrangeira, a lavagem de cérebro deixa de existir. É difícil prever.

A própria população pode não estar preparada para isso. No livro conta que têm treinos diários para chorar...
Absolutamente. Mas ele é suficientemente esperto para saber que tudo isso tem de ser feito gradualmente. Mas neste momento tudo isso é estar a fazer futurologia política. Há negociações em curso que nós desconhecemos. Eu sou moderadamente otimista.

Em relação à cimeira?
À cimeira e à resolução do problema. Há sinais que fazem crer que as coisas possam tomar um rumo positivo mas outros... Sei mais ou menos definir os objetivos da Coreia do Norte, mas não prever as atitudes do presidente dos EUA.

É mais imprevisível Donald Trump do que Kim Jong-un?
A Coreia do Norte quer dialogar com a maior potência mundial. Antes, subordinando a Coreia do Sul. Hoje não. Seul foi inteligente ao tomar a iniciativa diplomática e é muito graças a ela a cimeira. Não há grande interesse das duas à reunificação, dadas as diferenças económicas. Há vontade de diálogo e de acabar com o perigo nuclear. E para a Coreia do Norte há o interesse de melhorar as condições económicas e sociais do país. Se houver tudo isto, iremos no bom sentido. Se for tudo ao ar, o perigo é muito grande.

Do que depende a cimeira? Houve agora estas manobras militares conjuntas dos EUA e da Coreia do Sul, que Kim Jong-un encarou como agressão...
Isso faz parte da imprevisibilidade de Trump. Não sei como é que numa altura em que se vai dialogar no sentido da paz se fazem manobras militares à porta... Kim Jong-un disse que se estava num clima diplomático e passámos para um clima de guerra. Por isso, não sei se ele não vai dizer "então continuem no clima de guerra". E depois há toda a questão da desnuclearização. Cada um tem uma noção diferente de desnuclearização. E depois de vermos os disparates dos EUA face ao Irão, conseguindo que o seu maior aliado, o Reino Unido, se insurgisse contra si...

No livro também diz que Donald Trump e Kim Jong-un são duas personalidades muito semelhantes. Isso tanto pode ser a receita para o desastre como para o sucesso?
É verdade. Mas, nesta altura, parece que tem havido mais disparates da parte americana do que da norte-coreana.

Descreve alguns episódios caricatos das suas visitas à Coreia do Norte, como o da bomba de gasolina aberta especialmente para o efeito ou o hospital, sem doentes, que a sua mulher visitou. Classifica-os como eventos alternativos à realidade. Também na administração Trump há quem defenda os chamados factos alternativos...
Há coisas que são comuns. Trump denunciou o acordo com o Irão. Tanto a Agência Internacional de Energia Atómica como o próprio Mike Pompeo [secretário de Estado dos EUA] dizem que os iranianos têm cumprido com o acordo. Então como é? Até aqui a irracionalidade reina. Como disse Angela Merkel, os aliados já não podem contar com a defesa americana. É um golpe muito grande a nível ocidental. Nós vivemos à beira de uma possível guerra mundial, pode acontecer ou não.

Depende de Donald Trump?
Não digo dele diretamente. Mas, ao não se avançar com a desnuclearização, basta que, por obra de algum louco, haja um míssil lançado que caia na Coreia do Sul, que mate pessoas, a Coreia do Sul tem obrigação de responder e, ao responder, tem de pedir auxílio norte-americano. E a partir daí...

E o papel da China nisto tudo?
É errado achar que a China apoia a Coreia do Norte. Pode ter acontecido, numa determinada época, mas atualmente é falso. À China não lhe interessa uma Coreia do Norte nuclear. E está interessada em que isto corra bem com os EUA. Como os chineses são os únicos que os tratam bem, é por isso que Kim Jong-un já teve dois diálogos com Xi Jinping. Penso que a China os aconselha a criarem um diálogo com os EUA. E por isso já ouvimos Trump, que antes disso tinha insultado a China, a dizer que pensava conseguir a paz com a ajuda de três países: a China, a Coreia do Sul e o Japão. A China está a ter esse papel.

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