Francisco Assis: "Se houver ameaça real à democracia brasileiros sairão às ruas"

Eurodeputado socialista Francisco Assis está em São Paulo a convite do Partido dos Trabalhadores para acompanhar a segunda volta das eleições presidenciais, deste domingo, no Brasil

Eurodeputado socialista, membro da delegação para as relações com o Brasil do Parlamento Europeu, Francisco Assis encontra-se, desde este sábado de manhã, em São Paulo, para acompanhar as eleições de domingo.

A convite do gabinete de Relações Internacionais do Partido dos Trabalhadores (PT), o ex-líder parlamentar do Partido Socialista português diz, em entrevista telefónica ao DN, que o partido que tem como candidato Fernando Haddad ainda acredita numa reviravolta de última hora na segunda volta das presidenciais.

O favorito, Jair Bolsonaro, é no entender de Assis "um candidato deplorável" e, por isso, o eurodeputado português está disponível para reportar às instituições da União Europeia "qualquer situação de violência, que configure o desrespeito pelas regras fundamentais do modelo democrático e liberal".

E sublinha: "Aquilo que temos feito em relação à Venezuela, evidentemente que manifesto a minha disponibilidade para fazer o mesmo com o Brasil. Ganhe quem ganhar, o resultado tem que ser respeitado. Como é evidente"

Que ambiente encontrou ao chegar aí a São Paulo?
O ambiente, apesar de tudo, é de relativa acalmia. Não se nota uma perturbação excessiva. Vi já passarem caravanas de vários partidos mas há um ambiente de grande acalmia nesta fase.

Este domingo vai acompanhar o resultados com Fernando Haddad, candidato do Partido dos Trabalhadores (PT)?
Eu estou a convite do PT e o meu contacto é a responsável pelas Relações Internacionais. Vou reunir-me com ela esta tarde e depois vamos combinar melhor. Mas, em princípio, sim, vamos acompanhar os resultados na Central Única de Trabalhadores (CUP).

Muito se tem falado no fenómeno Jair Bolsonaro, candidato do Partido Social Liberal, rival de Haddad nesta segunda volta das presidenciais. Acha que ele é apenas um candidato do ódio ou, por outro lado, é também um produto da revolta dos brasileiros contra a corrupção, que se alastrou, nomeadamente nestes últimos anos de governo do PT, de Lula da Silva e Dilma Rousseff?

Sobre uma candidatura que suscita um apoio tão vasto não se pode dizer que é só por ódio. O que há é elementos de ódio por parte do candidato. É um candidato deplorável. Tem um discurso de ódio. Inaceitável. Mas é evidente que, para gerar todo este tipo de apoio, há aqui outros elementos. Falando aqui com algumas pessoas em São Paulo sinto que há isso: há uma perceção de que a corrupção tinha atingido níveis extraordinários e creio que é essa ideia do combate contra a corrupção que leva uma parte da sociedade brasileira a optar por um candidato tão radical. Há aqui tanto uma preocupação com Bolsonaro como também uma rejeição herdada de outros governos do PT. Há esses dois elementos. E, de facto, só isso explica que um candidato com o discurso do Bolsonaro possa estar praticamente em condições de estar às portas da presidência da República. O Brasil é, de facto, um país complexo. Há vários Brasis que se ignoram uns aos outros. Mesmo andando nas ruas percebe-se isso. Essa teoria da miscigenação tem pouca tradução na realidade. Há racismo, étnico, social, a distância entre ricos e pobres é imensa, tudo isso misturado cria um contexto muito complicado. Depois a forma como os juízes se intrometeram neste processo também criou um discurso justicialista, antipolítico, antidemocrático, antiliberal. Tudo isto misturado criou um ambiente explosivo, que radicalizou a sociedade, o centro político praticamente desapareceu. Hoje temos duas candidaturas, que são candidaturas que suscitam elevados índices de rejeição, quer de um lado, quer do outro. Embora não haja comparação entre um e outro. Penso que o PT também foi vítima de uma campanha levada a cano para o destruir e que, de certa forma, surtiu efeito. Embora o PT acabe por ser o grande partido que resiste.

"Há aqui tanto uma preocupação com Bolsonaro como também uma rejeição herdada de outros governos do PT. Há esses dois elementos. E, de facto, só isso explica que um candidato com o discurso do Bolsonaro possa estar praticamente em condições de estar às portas da presidência da República"

Haddad teve tempo para criar uma imagem própria ou ficou demasiado colado a Lula e o PT hesitou demasiado tempo em lançá-lo como candidato?
Isso foi muito negativo. Eles levaram demasiado longe essa ligação ao Lula. Numa primeira fase talvez fosse necessária, mas o Haddad deveria ter-se libertado, provavelmente, mais cedo e aparecido como protagonista e como alguém com qualidades para ser presidente do Brasil. De qualquer modo, falando com eles, com o PT, sinto que ainda têm alguma esperança que seja possível uma reviravolta nas horas finais da campanha. As sondagens apontam para uma ligeira recuperação.

O PT acredita então numa reviravolta de última hora?
Sim. Ainda acreditam. Ainda têm esperança. Vamos ver. Às vezes há surpresas nestas coisas.

Num artigo que escreveu classificou Bolsonaro como um "canalha à porta do Planalto". Considera que ele está mais próximo de Donald Trump ou de Rodrigo Duterte?
Acho que o modelo dele está mais próximo do de Duterte nas Filipinas. Mas acho que se for eleito presidente do Brasil terá mecanismos de resistência diferentes daqueles que caracterizam as Filipinas. A sociedade brasileira é uma sociedade mais complexa, com mais educação, com mais exigência democrática. Apesar de tudo, acho que haverá aqui uma capacidade de se evitar um mal absoluto como nas Filipinas, porque esta é uma sociedade mais complexa, com uma perspetiva cultural distinta. Portanto, não é comparável uma coisa com a outra. Agora, a personagem em si é mais próxima da do presidente das Filipinas do que da de Trump. Ainda que muito perto de Trump. E Trump já é coisa que eu não recomende a ninguém.

"A personagem [Bolsonaro] em si é mais próxima da do presidente das Filipinas do que da de Trump. Ainda que muito perto de Trump. E Trump já é coisa que eu não recomende a ninguém"

Fala-se muito dos receios do regresso da ditadura no Brasil. Mas será isso realmente possível, na era da internet, em que, sim, é verdade que se montam rapidamente campanhas de "fake news", mas também é verdade que, sendo descobertas, também se desmontam rapidamente?
Pois... Vamos lá ver: a eleição de um homem com este discurso incita à violência, no contexto da sociedade em geral. Incita as outras pessoas a terem atos violentos. Aliás, já aconteceu. E isso significa um retrocesso muito grande. Nesse sentido, pode pôr em causa a convivência democrática e, quando assim é, nunca sabemos como é que as coisas terminam. É evidente que, apesar de tudo, o Brasil tem capacidade de reação. Estou convencido de que, se houver uma ameaça real à democracia, os brasileiros sairão às ruas para a defender.

Como diz, neste momento, o que existe é uma calma aparente. Se Haddad perder efetivamente, há alguma hipótese de os que recusam um Bolsonaro presidente saírem à rua, podendo haver confrontos?
Não, no imediato, não. Eleições democráticas são inquestionáveis. Quem perder tem a função histórica de constituir uma oposição alternativa credível. Claro que a vitória de Bolsonaro seria uma vitória de alguém que nos inspira muitos cuidados. Eu sublinho a minha disponibilidade para, no âmbito do Parlamento Europeu, colocar todo o meu gabinete ao serviço deles, no sentido de qualquer situação de violência, que configure o desrespeito pelas regras fundamentais do modelo democrático e liberal, poder ser reportada a nível das instituições da União Europeia. Como temos feito com outros países, como temos feito, por exemplo, com a Venezuela. Tenho tido muitas intervenções, muitos pedidos de respostas à Comissão Europeia, tal como outros eurodeputados, sobre a Venezuela. Aquilo que temos feito em relação à Venezuela, evidentemente que manifesto a minha disponibilidade para fazer o mesmo com o Brasil. Ganhe quem ganhar, o resultado tem que ser respeitado. Como é evidente.

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Maria Antónia de Almeida Santos

Uma opinião sustentável

De um ponto de vista global e a nível histórico, poucos conceitos têm sido tão úteis e operativos como o do desenvolvimento sustentável. Trouxe-nos a noção do sistémico, no sentido em que cimentou a ideia de que as ações, individuais ou em grupo, têm reflexo no conjunto de todos. Semeou também a consciência do "sustentável" como algo capaz de suprir as necessidades do presente sem comprometer o futuro do planeta. Na sequência, surgiu também o pressuposto de que a diversidade cultural é tão importante como a biodiversidade e, hoje, a pobreza no mundo, a inclusão, a demografia e a migração entram na ordem do dia da discussão mundial.