"Se enfraqueces a imprensa, enfraqueces a nossa democracia"

Pela terceira vez consecutiva, o jantar anual dos correspondentes da Casa Branca decorreu sem a presença de Donald Trump. Mas o presidente dos EUA não deixou de ser visado no evento

Nem Donald Trump nem um humorista. Novamente sem a presença do presidente norte-americano, realizou-se na noite de sábado o jantar anual dos correspondentes da Casa Branca, desta vez com a principal intervenção a caber a Ron Chernow, vencedor do prémio Pulitzer, historiador, biógrafo de Alexander Hamilton e do antigo presidente Ulysses S. Grant.

"Agora temos que lutar muito por verdades básicas que antes julgávamos garantidas", advertiu Chernow, que se referiria depois à atual presidência dos EUA como apenas um capítulo na história do país.

O historiador falou do primeiro presidente, George Washington, e de como este se sentiu muitas vezes incompreendido e difamado pela imprensa, mas sem nunca transformar esse sentimento num desejo de vingança. Já o segundo presidente, John Adams, usou as leis para reprimir a liberdade de imprensa. Em 1800 falhou a reeleição e Chernow tem uma lição a retirar disso: "Campanhas contra a imprensa não põem a tua cara esculpida nas rochas de Mount Rushmore, porque se enfraqueces a imprensa, enfraqueces a nossa democracia. O Tribunal da História não costuma ser brando com presidentes que punem a liberdade de imprensa", afirmou o historiador, acrescentando que os grandes presidentes dos Estados Unidos lidaram com a imprensa com "sagacidade, graça, charme, franqueza e até humor" - "Republicanos ou Democratas somos todas da equipa EUA e não membros de campos inimigos".

"Donald Trump não é o primeiro e não será o último presidente norte-americano a criar nervosismo sobre a primeira emenda [que proíbe limitações à liberdade de expressão e de imprensa]. Por isso sejam humildes, sejam céticos e tenham o cuidado de não ser infetados exatamente pelas mesmas coisas que estão a combater", alertou.

Aplaudido de pé pelos presentes, Ron Chernow não ficou por aqui, criticando a apetência da atual administração por "factos alternativos". "Sem factos não podemos ter uma discordância honesta. Eu aplaudo qualquer presidente que aspire ao Prémio Nobel da Paz, mas não queremos um que corra para o prémio Nobel da ficção", prosseguiu.

Num ano em que o encontro não contou com comediantes, depois da polémica sessão de Michelle Wolf em 2018 - que teve um intervenção muito cáustica para a porta-voz da Casa Branca Sarah Sanders, que estava presente na sala - Rushmore terminou a citar Mark Twain: "Políticos e guardanapos devem ser trocados frequentemente, pela mesma razão".

Trump trocou o jantar por um comício

Enquanto decorria o jantar, Donald Trump - que voltou a primar pela ausência num evento que conta habitualmente com a presença do presidente - estava num comício no estado do Wisconsin precisamente a protestar contra os media, qualificando os jornalistas com farsantes enquanto na plateia se gritava "CNN sucks!" [traduzível como "a CNN é uma merda"].

Durante o comício, Trump chamou ao palco precisamente Sarah Sanders (a "grande" Sarah Sanders, nas palavras do presidente norte-americano) e não foi por acaso. Sanders subiu ao palco para dizer à plateia: "Esta noite, há precisamente um ano, estava num evento diferente. Não fui muito bem recebida. Isto é uma enorme honra. Tenho muito orgulho em trabalhar para o presidente".

Trump já tinha anunciado que não marcaria presença - pelo terceiro ano consecutivo - no evento anual dos correspondentes da Casa Branca, classificando o evento como "chato" e "muito negativo".

A tradição deste jantar de gala remonta a 1921. Desde 1980 que todos os presidentes têm comparecido anualmente à cerimónia, com a exceção de Ronald Reagan em 1981, que estava então a recuperar de um ataque a tiro que lhe causou graves ferimentos (e, ainda assim, enviou um vídeo).

Exclusivos

Premium

Adriano Moreira

Navegantes da fé

Este livro de D. Ximenes Belo intitulado Missionários Transmontanos em Timor-Leste aparece numa época que me tem parecido de outono ocidental, com decadência das estruturas legais organizadas para tornar efetiva a governança do globalismo em face da ocidentalização do globo que os portugueses iniciaram, abrindo a época que os historiadores chamaram de Descobertas e em que os chamados navegantes da fé legaram o imperativo do "mundo único", isto é, sem guerras, e da "terra casa comum dos homens", hoje com expressão na ONU.