"Se alguém está num país seguro e quer ir para um outro, deixa de ser refugiado"

Entrevista ao vice-ministro dos Negócios Estrangeiros da Hungria László Szabó. Diplomata considera que acolhimento de refugiados deve ser decisão de cada Estado da UE. No plano bilateral, defende reforço de relações com Portugal.

O primeiro-ministro Viktor Orbán teve, em março, palavras duras na questão dos refugiados. Qual deve ser, na perspectiva da Hungria, a solução para a crise?

É preciso começar por definir quem é migrante e quem é refugiado. Estes devem ter acesso a proteção, abrigo, cuidados de saúde e educação. Mas também, estabilizada a situação no país de origem, devem voltar a casa. É irresponsável fazer promessas vazias a milhões de pessoas que as fazem arriscar as suas vidas, dizendo-lhes para virem para a Alemanha, Suécia ou onde quer que seja na UE, e terão uma vida ótima. Deixe-me citar o primeiro-ministro Orbán, quando ele disse que a ajuda humanitária deve ser feita nos centros de acolhimento [hotspots], porque se for feita em Munique, as pessoas quererão ir para lá. O próprio valor, em termos monetários, da ajuda nos hotspots revela-se superior ao prestado numa cidade alemã ou noutra qualquer.

Os refugiados devem ficar nos hotspots?

A questão tem a ver com a definição de refugiado e migrante. Se alguém está em segurança num país que não é o seu e quer ir para um terceiro país, e atravessa a fronteira de cinco países, todos eles seguros, então deixa de ser refugiado. Muitas vezes, certos políticos confundem a questão dos refugiados com a escassez de mão-de-obra nos seus países, o que é errado. Se precisam de mão-de-obra, então vão à Turquia e a outros lugares onde estão os refugiados e contratem-nos.

A solução passa pela ideia de David Cameron de escolher os refugiados aos hotspots?

É, pelo menos, uma ideia melhor do que a circulação sem controlo na UE. A Hungria, desde o início da crise, aplicou os critérios de Dublin e de Schengen. Fomos criticados por isso e até nos chamaram fascistas. Mas hoje todos nos dão razão e estão a fazer o mesmo que a Hungria fez. Não podemos esquecer que o primeiro dever de um país é o de garantir a segurança dos seus cidadãos e proteger as fronteiras.

O acordo entre a UE-Turquia é a solução?

De forma alguma. Permanece o aspecto das quotas obrigatórias, que nós pensamos não deve ser uma decisão da UE, deve ser uma decisão de cada Estado membro. Cada Estado deve decidir quem quer ter ou não no seu território.

Que áreas são prioritárias para o reforço das relações bilaterais?

Portugal e a Hungria são semelhantes em dimensão, população e até no PIB. Assim, até seria de esperar ver os dois países em competição entre si, mas na verdade podem cooperar e encontrar sinergias e para uma atuação complementar em mercados terceiros.

Por exemplo?

O setor agrícola está bastante desenvolvido em ambos os países. Temos o melhor solo da Europa, segundo estudos independentes, mas na comercialização de produtos topo de gama nesta área Portugal está à nossa frente. Uma das áreas onde se pode trabalhar é nos vinhos, onde Portugal tem grande experiência. Outra área é as telecomunicações, onde temos desenvolvido produtos de alta qualidade. Citaria ainda as tecnologias de tratamento de águas e irrigação ou a produção de peças para o setor agrícola.

Joint ventures para operarem noutros mercados?

Portugal e a Hungria podem complementar-se de uma maneira muito interessante. Portugal tem um excelente conhecimento dos mercados da lusofonia enquanto a Hungria tem maior conhecimento dos mercados da ex-União Soviética e dos Balcãs, por exemplo. Sendo ambos membros da UE, a cooperação e o reforço das relações comerciais não é difícil, assim como será uma combinação feliz a atuação concertada nos mercados que referi.

Reuniu-se com responsáveis da CPLP. A Hungria vai pedir o estatuto de observador?

Fizemos agora o pedido oficial, e esperamos obter o estatuto de observador ainda no corrente ano.

Como vê a Hungria a situação na Ucrânia, até pelas implicações que daí resultam nas relações bilaterais com a Rússia?

A Hungria está preocupada com a soberania e integridade territorial da Ucrânia e, claro, que apoiamos a política de sanções da UE à Rússia. Contudo, não é uma situação fácil para nós porque a Rússia é o nosso maior parceiro comercial fora da UE. Por isso, se nos sentimos prejudicados, sim, mas permanecemos totalmente solidários com a política da UE. E se for possível acabar com as sanções, tanto melhor. No restante, a solução para a crise na Hungria tem de ser política e baseada no total cumprimento dos acordos de Minsk por todas as partes.

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