Schulz lembra Soares ao anunciar candidatos à presidência do Parlamento Europeu

Como nenhum grupo político tem maioria absoluta dos 751 eurodeputados, desfecho da eleição do sucessor de Martin Schulz, hoje, em Estrasburgo, não é garantido a 100%

Martin Schulz anunciou ontem formalmente quem são os candidatos à sua sucessão, hoje submetidos a votação: três italianos, dois belgas, uma britânica, um romeno. O presidente cessante do Parlamento Europeu (PE) não se limitou, porém, a fazer só isso. No dia em que a entrevista de Donald Trump, presidente eleito dos EUA, gerou ondas de choque na UE (ver mais noticiário nas págs. 24 e 25), o social-democrata alemão fez questão de homenagear o ex-presidente português Mário Soares, que morreu no dia 7. Não apenas porque os dois eram amigos ou porque Soares foi eurodeputado, mas também porque, disse, ele "lutou contra o autoritarismo e era um democrata convicto". E sublinhou: "É nossa obrigação e tarefa herdar o seu legado político e defendê-lo."

A seguir às declarações de Schulz os eurodeputados guardaram um minuto de silêncio em memória do ex-chefe de governo e de Estado de Portugal. Eurodeputado no período entre 1999 e 2004, Soares presidiu à delegação para as relações com Israel, lembrou Schulz, que descreveu o português como "um símbolo da luta pela democracia não só para os portugueses mas para todos na Europa. Foi o catalisador da adesão de Portugal às Comunidades Europeias [algo que se deu a 1 de janeiro de 1986]". Soares tentou, em vão, chegar a ser presidente do PE em 1999, mas foi ultrapassado por Nicole Fontaine, a francesa a quem acusou de ter um discurso de "dona de casa".

Fontaine, hoje com 75 anos, é uma das duas únicas mulheres que, desde 1979, ano das primeiras eleições para o PE, exerceram o cargo de presidentes da casa que hoje representa 500 milhões de habitantes da UE. A outra foi Simone Veil, também francesa, hoje em dia com 89 anos. Na lista de candidatos ontem apresentada em Estrasburgo por Schulz há três mulheres mas na verdade nenhuma tem reais hipóteses de chegar ao cargo. Eleonora Forenza, italiana, é candidata pelo grupo político GUE/NGL (a que pertencem os eurodeputados do Bloco de Esquerda e PCP). Jean Lambert, britânica, é candidata pelo grupo dos Verdes. Helga Stevens, belga, é candidata dos Conservadores e Reformistas.

Os dois principais candidatos são também italianos. Antonio Tajani concorre pelo PPE, grupo que integra os eurodeputados do PSD e do Partido da Terra. Gianni Pitella candidata-se pelo S&D, a que pertencem os eleitos do PS. O terceiro candidato mais forte é o belga Guy Verhofstadt, líder da aliança dos liberais ALDE, a que pertence o eurodeputado do Partido Democrático Republicano António Marinho e Pinto (Portugal tem 21 eurodeputados). Há ainda um sétimo candidato à presidência do PE, o romeno Laurentiu Rebega, pelo grupo político da Europa das Nações da Liberdade, presidido pela líder da extrema-direita francesa Marine Le Pen.

Depois de ter sido um socialista a ocupar a presidência da eurocâmara durante metade do mandato (os últimos dois anos e meio), caberia agora ao candidato do PPE ocupar a segunda metade. Isto segundo um acordo de cavalheiros que existe há anos e no qual os dois maiores grupos políticos aceitaram partilhar o cargo. Desta vez, os socialistas decidiram não seguir o acordo e como nenhum grupo tem maioria absoluta dos 751 eurodeputados a votação de hoje poderá ter de ir a várias voltas. Tudo depende das negociações de bastidores que têm vindo a decorrer. Além do presidente do PE serão também eleitos 14 vice-presidentes, cinco questores e os membros das 22 comissões permanentes.

Ler mais

Exclusivos

Premium

Ferreira Fernandes

Conhecem a última anedota do Brexit?

Quando uma anedota é uma anedota merece ser tratada como piada. E se a tal anedota ocupa um importante cargo histórico não pode ser levada a sério lá porque anda com sapatos de tigresa. Então, se a sua morada oficial é em Downing Street, o nome da rua - "Downing", que traduzido diz "cai, desaba, vai para o galheiro..." - vale como atual e certeira análise política. Tal endereço, tal país. Também o número da porta de Downing Street, o "10", serve hoje para fazer interpretações políticas. Se o algarismo 1 é pela função, mora lá a primeira-ministra, o algarismo 0 qualifica a atual inquilina. Para ser mais exato: apesar de ela ser conservadora, trata-se de um zero à esquerda. Resumindo, o que dizer de uma poderosa governante que se expõe ao desprezo quotidiano do carteiro?

Premium

Adolfo Mesquita Nunes

A escolha de uma liberdade

A projeção pública da nossa atividade, sobretudo quando, como é o caso da política profissional, essa atividade é, ela própria, pública e publicamente financiada, envolve uma certa perda de liberdade com que nunca me senti confortável. Não se trata apenas da exposição, que o tempo mediático, por ser mais veloz do que o tempo real das horas e dos dias, alargou para além da justíssima sindicância. E a velocidade desse tempo, que chega a substituir o tempo real porque respondemos e reagimos ao que se diz que é, e não ao que é, não vai abrandar, como também se não vai atenuar a inversão do ónus da prova em que a política vive.

Premium

Marisa Matias

Penalizações antecipadas

Um estudo da OCDE publicado nesta semana mostra que Portugal é dos países que mais penalizam quem se reforma antecipadamente e menos beneficia quem trabalha mais anos do que deve. A atual idade de reforma é de 66 anos e cinco meses. Se se sair do mercado de trabalho antes do previsto, o corte é de 36% se for um ano e de 45%, se forem três anos. Ou seja, em três anos é possível perder quase metade do rendimento para o qual se trabalhou uma vida. As penalizações são injustas para quem passou, literalmente, a vida toda a trabalhar e não tem como vislumbrar a possibilidade de deixar de fazê-lo.