Schäuble deixa Finanças para liderar Parlamento

Convite terá sido feito por Merkel por causa da AfD. Negociações com FDP, que quer a pasta, também terão tido influência

Wolfgang Schäuble vai trocar o seu cargo de poderoso ministro das Finanças alemão pelo de presidente do Parlamento, posição que, no papel, o torna na segunda mais alta figura do Estado, acima da chanceler, mas que na prática lhe dá menos poder do que tinha até agora. O anúncio foi feito pela CDU/CSU e a eleição está virtualmente garantida, já que conta com o apoio do SPD.

"Vamos propor Wolfgang Schäuble" para o cargo de presidente do Parlamento e "estamos muito satisfeitos por ele ter expressado a sua prontidão em ser candidato", refere um comunicado do líder do grupo parlamentar da CDU/CSU, Volker Kauder. A candidatura deverá ser oficializada a 17 de outubro. O lugar tinha ficado vago desde que Norbert Lammert, veterano da CDU no cargo desde 2005, anunciou que iria retirar-se no final da legislatura.

Carsten Schneider, o líder parlamentar do SPD , adiantou ontem que os sociais-democratas irão apoiar Schäuble. Este apoio torna a sua eleição garantida, já que os dois partidos têm 399 deputados e para uma maioria são precisos 355.

Segundo o Bild, Angela Merkel pediu pessoalmente a Schäuble, de 75 anos, para aceitar a presidência do Bundestag, alegando que "o cargo terá mais importância do que o habitual tendo em conta a entrada da AfD no Parlamento".

Schäuble é o deputado mais antigo do Bundestag, para onde foi eleito pela primeira vez em 1972. Antigo rival de Merkel na CDU, tornou-se um dos membros do círculo da chanceler e o seu ministro mais experiente - teve a pasta das das Finanças nos últimos oito anos e a do Interior nos quatro anteriores. Tinha também feito parte do governo de Helmut Kohl.

Enquanto ministro das Finanças conquistou o respeito dos alemães, particularmente entre os conservadores, por defender os interesses do país durante a crise da zona euro, mas também pela sua obsessão com o défice - neste momento, a Alemanha tem um superávit. Fora do seu país, nomeadamente no sul da Europa, é alvo de críticas por insistir que a austeridade era a forma de sair da crise.

Esta saída de Schäuble do governo não é uma surpresa, face aos resultados abaixo do esperado da CDU e as difíceis negociações para uma possível aliança governamental entre CDU/CSU, FDP e Verdes. Na campanha, o FDP já tinha assumido o interesse na pasta das Finanças numa futura coligação. "Dono de uma personalidade excecional, Wolfgang Schäuble possui uma autoridade natural que é de particular importância numa altura como esta", disse o líder do FDP, Christian Lindner, um dos potenciais sucessores de Schäuble.

Fontes parlamentares adiantaram à Reuters que o ministro do Interior, Thomas de Maizière, deverá assumir interinamente a pasta das Finanças assim que Schäuble for eleito presidente do Bundestag.

"Sai dando Portugal como exemplo"

O ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, comentou que Wolfgang Schäuble termina o seu mandato como ministro das Finanças "apresentando Portugal como um exemplo". "E portanto é evidente para todos, todos que leem jornais, que começou por exprimir desconfiança em relação a este governo, e é claro para todos que terminou, ou terminará, o seu mandato como ministro das Finanças da Alemanha apresentando Portugal como um exemplo de como as coisas devem ser feitas", concluiu.

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