"Sánchez vai ter de decidir se quer ser vice-primeiro-ministro de Iglesias"

Tania Sánchez deputada recém-regressada ao Podemos de Pablo Iglesias, nega que o ex-namorado queira uma hiperliderança e garante que no partido todos dão um contributo

Esta campanha eleitoral foi muito diferente da anterior, que ocorreu há apenas seis meses?

A motivação e a mobilização foram ainda maiores. Existia a dúvida se as pessoas iam estar motivadas com tão pouco tempo entre umas eleições e outras. E nós encontrámos muita vontade de participar. A campanha partiu da pergunta: de que lado vai estar cada partido no dia 27 de junho? Ao lado do PP ou ao lado de um governo que seja um governo de mudança? As pessoas estão interessadas em saber o que se vai passar.

Deixaram de falar das propostas de cada um?

Pelo menos o Podemos não. Na campanha de rua, nos comícios, falámos muito do programa e do que queremos fazer. De temas tão importantes como reformas, saída da má situação económica, do fracasso da Europa e o novo rumo que ela deve tomar.

Optaram por um programa-catálogo ao estilo IKEA. Despertou mais interesse do que é normal?

Vamos na terceira edição e continua a existir muita procura. Alguns quiseram ridicularizar a ideia, mas já explicámos que queríamos fazer do programa o mais lido na história das eleições espanholas. E estamos a consegui-lo.

Unidos Podemos junta o seu atual e anterior partido [Esquerda Unida e Podemos], na mesma candidatura. Sente-se confortável com isso?

Sim. E muito satisfeita. Quando saí da Esquerda Unida (IU) foi num momento complicado. Existia em Madrid uma direção que bloqueava as mudanças dentro do partido e Alberto Garzón não tinha a mesma força que atualmente tem. Um ano depois, comprovamos que a minha equipa estava certa, fizemos uma aposta pioneira e arriscada, mas era o caminho certo, como se provou com o tempo.

Há quem diga que esta candidatura é um casamento por mera conveniência.

Vamos ser sempre criticados. Certo é que se trata de uma reflexão de duas organizações políticas com matrizes históricas. Existe uma coincidência programática. Ambas perceberam, depois de um empate catastrófico [nas legislativas de 20 de dezembro], que era o momento de estar à altura da situação histórica que o país vive. Era imprescindível unificar este tipo de políticas.

Como se complementam Pablo Iglesias e Alberto Garzón?

Alguns acusam Pablo Iglesias de uma hiperliderança. É evidente que o arranque do Podemos esteve à volta da sua figura, porque é um líder forte. Mas com o tempo deu lugar ao que estamos a ver, uma liderança mais partilhada. No Podemos existem perfis muito diferentes e cada um traz aquele que é o seu contributo. Desta forma o projeto fica mais rico. E Alberto Garzón sempre deu também o seu contributo, mesmo quando eleitoralmente os dois partidos concorriam entre eles. Participaram muitas vezes juntos em comícios. Ambos têm trajetórias políticas e estilos diferentes, mas complementam-se. O cartaz do Podemos não aparece só com a imagem de Pablo Iglesias, mas com a imagem de muitas pessoas. Há uma aposta política por uma sociedade que supere a competitividade entre os cidadãos. Queremos uma nova sociedade mais justa e equilibrada.

A sua saída da IU levou à formação do partido Convocatória por Madrid. Qual foi o contributo deste partido?

Foi uma ponte virtual, muito importante para algumas candidaturas locais de municípios em que as pessoas que queriam uma mudança não contavam com o apoio burocrático necessário. É preciso assinalar que era um momento em que se podia fazer política com a filosofia de dar prioridade ao bem-estar do país, às gerações e em último lugar ao partido.

Na sua saída da IU afirmou que não ia entrar no Podemos. Arrepende-se dessas palavras?

Só da forma como foram formuladas. Era evidente que não saíamos da IU para formar parte do Podemos, mas para realizar um projeto político diferente. Nesse momento era certa a afirmação. Mas a forma como me expressei trouxe-me agora problemas. Um fanático nunca muda de posição e uma pessoa com princípios adapta com estratégia os seus objetivos sem tanta rigidez. Por isso penso que, não sendo uma pessoa fanática, em tempos agitados é normal que exista mudança.

O Podemos resolveu os seus problemas internos?

Falam da crise interna do Podemos e do seu processo de afundamento desde a primeira hora, já na famosa assembleia de Vista Alegre. Entre algumas pessoas do partido as discrepâncias são óbvias, mas não dramáticas. O projeto político e as linhas estratégicas são partilhados. Todos reconhecem que não há diferenças políticas que ameaçam o partido, mas há interesse por parte de outras forças políticas em parecer que existem.

É possível falar então da linha pablista e da linha errejonista [de Pablo Iglesias e de Íñigo Errejón, porta-voz do Podemos no Parlamento]?

Não há vertentes, só posições diferentes de muitas pessoas. Não há fações estabelecidas.

Integrou-se bem no projeto do Podemos?

Sempre senti muito carinho pelas pessoas do Podemos mesmo quando não estava lá dentro. Estávamos no mesmo campo político. E desde a minha chegada trataram-me com carinho e respeito.

Voltemos aos acordos pós-eleições. A coligação Unidos Podemos só pode chegar ao poder com PSOE?

É uma pergunta para o PSOE responder, porque nós já tentámos esse governo. Nas anteriores eleições, se íamos acrescentar cinco milhões de votos ao projeto, era normal exigir fazer parte da equipa de governo. Agora, se conseguirmos ultrapassar o PSOE, Pedro Sánchez [o seu líder] vai ter de decidir se quer ser o vice-primeiro-ministro de Pablo Iglesias.

Como foi a experiência no Parlamento entre os deputados veteranos e os recém-chegados?

Foi um teste maravilhoso para os que estavam há mais tempo porque encontraram um grupo grande sem experiência, como o do Podemos, que questionou muitas tradições que não faziam sentido. Não importa a imagem, os penteados, não devemos ser todos iguais. O Parlamento era cinzento e agora ficou colorido.

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