"Sánchez afundou-se por acreditar que era mais esperto do que Rajoy"

Jordi Casas, nacionalista catalão moderado, de 64 anos, considera que Pedro Sánchez errou ao pensar que podia dialogar com os independentistas. E acusa Quim Torra e Carles Puigdemont de tudo quererem controlar. Apesar de reconhecer que o problema da Catalunha é muito importante, refere que não é o mais importante e que, na campanha para as eleições de 28 de abril, os partidos deviam ter isso em mente. "O tema catalão importou muito, sim, mas agora o que importa mais é conseguir chegar ao fim do mês".

Jordi Casas, advogado e político, é um nacionalista catalão moderado. Aos 64 anos, já foi deputado no Congresso espanhol, deputado e senador no Parlamento catalão. Natural de Sabadell, na província de Barcelona, critica a politização do julgamento dos 12 independentistas catalães que estão a ser julgados, em Madrid, por causa do referendo ilegal de 1 de outubro de 2017 na Catalunha.

Ex-membro da Convergência e União (CiU), no tempo em que Artur Mas era o presidente da Generalitat da Catalunha, considera que ninguém acredita que "Espanha se vai quebrar". E que Pedro Sánchez, primeiro-ministro socialista que viu o Orçamento do Estado chumbado, calculou mal a jogada. Em seu entender, o líder socialista sofre de "um excesso de vaidade ou soberba" e pensou "que era o mais esperto da turma" mas "não foi assim".

Admitindo que, nas legislativas antecipadas de 28 de abril, os eleitores descontentes, que outrora votaram no Podemos, podem votar no Vox, Jordi Casas avisa: "A política, em teoria, deve resolver os problemas de forma civilizada. Quando a política se converte num problema em si mesma, as pessoas não querem saber da política. O tema mais importante para os espanhóis é que há um problema salarial grave, com salários que não permitem viver dignamente. É uma herança da crise. Não sei porque os políticos não veem isto. O tema catalão importou muito, sim, mas agora o que importa mais é conseguir chegar ao fim do mês".

Há uma semana falava-se da possível aprovação do Orçamento do Estado e hoje estamos a falar de eleições legislativas antecipadas. Havia realmente alguma possibilidade de ver as novas contas serem aprovadas?

Havia vontade na Esquerda Republicana da Catalunha (ERC), sobretudo nas pessoas que estão no governo da Generalitat, mas também numa parte do Partido Democrata Europeu Catalão (PDeCAT), em seguir os trâmites do Orçamento do Estado, porque normalizava a vida política. Permitia à política catalã entrar na normalidade e sair do problema do Procés, que ocupa todo o espaço. Mas existia um impedimento: nem Carles Puigdemont nem Quim Torra querem isto. Também não queriam a moção de censura [de Pedro Sánchez], preferiam o Partido Popular [no governo], porque a sua estratégia é manter a situação com máxima tensão.

Há um detalhe significativo. No primeiro dia do julgamento, Quim Torra [atual presidente da Generalitat] foi à sessão, mas o verdadeiro motivo da viagem foi convocar uma conferência de imprensa para criticar duramente os socialistas. Mandou uma pessoa da sua confiança ao grupo parlamentário do PDeCAT para transmitir a ordem do presidente: não aprovar o Orçamento do Estado.

Houve um erro de cálculo de Pedro Sánchez, que ele vai perceber com o passar do tempo. Se Mariano Rajoy deixou de dialogar com o governo catalão não foi por capricho, ele é inteligente. Sabia que o discurso de Carles Puigdemont e Quim Torra incomodava muito o seu eleitorado e deixava-o numa posição difícil. Pedro Sánchez pensou que podia superar isto depois da moção de censura. O motivo de tensão não era Rajoy e Sánchez não reparou que esse discurso dos independentistas não ia ser suportado pelos socialistas. Acabou por se desmarcar desse discurso, mas foi tarde de mais.

"Sánchez não tem interlocutor possível na Catalunha porque existem três fações: ERC por um lado, PDeCAT por outro e Torra e Puigdemont por outro, que são os que mandam"

Que tipo de diálogo esperava conseguir Sánchez?

Ele não sabia quem tinha à frente. Pensou que não ia ser filtrado para a imprensa o papel onde estavam os 21 pontos falados entre Sánchez e Torra em Barcelona a 21 de dezembro. Foi filtrado no pior momento. Ele devia ter falado sobre o diálogo publicamente. Sánchez não tem interlocutor possível na Catalunha porque existem três fações: ERC por um lado, PDeCAT por outro e Torra e Puigdemont por outro, que são os que mandam. Não souberam avaliar que os interlocutores não tinham poder. Até ERC e PDeCAT não rompem claramente com Puigdemont e desautorizam Torra. Madrid não tem interlocutor. Sánchez, num excesso de vaidade ou soberba, pensou que era o mais esperto da turma, mas não foi assim.

E a sua tentativa de pôr um relator nas conversações?

É inaceitável porque a interpretação que faziam uns e outros não é a mesma. Para a Generalitat era um mediador internacional que se senta entre dois governos em conflito. E isto não podia ser aceite pelo governo central de maneira nenhuma. Sánchez pensou que o seu partido ia aceitar uma reunião deste tipo e não foi assim.

"Sánchez está numa situação difícil mas também não estou a ver no PSOE ninguém para disputar com ele umas primárias"

Sánchez tem agora uma frente aberto no seu partido...

E não só com os barões, é com o partido todo, que neste momento é muito inexistente. Eu falo com muitos deputados socialistas que votaram em Pedro Sánchez nas primárias [do PSOE] e estão muito zangados porque não se está a ter em conta nem o grupo parlamentar nem o partido. A saída de Felipe González não é por acaso. Com as suas palavras [criticou a figura do relator] foi porta-voz de muitos socialistas. Sánchez está numa situação difícil mas também não estou a ver no PSOE ninguém para disputar com ele umas primárias.

Estamos perante um fracasso pessoal de Pedro Sánchez?

Penso que sim. Se tivesse convocado as eleições logo a seguir à moção de censura, hoje seria primeiro-ministro durante os próximos quatro anos. Agora vai ser difícil porque vai estar complicado fazer pactos. Sánchez afundou-se por acreditar ser mais esperto do que Rajoy.

E agora está sem aliados...

O Podemos não está em condições de negociar com os socialistas porque está com problemas internos importantes e o militantes do PSOE não iam permiti-lo. A química que houve entre Sánchez e Albert Rivera já não existe e o Ciudadanos não se pode permitir viabilizar Sánchez como primeiro-ministro. Poderia talvez negociar com o PSOE se mudasse de líder.

Em menos de dois meses eleições haverá eleições antecipadas (28 de abril). Quem pode beneficiar disso?

Temos que esperar uns dias. A opinião pública está cansada e vamos ver como corre o julgamento. Temos que ver como vão as sondagens à medida que as pessoas vão tomando consciência da existência de eleições. Está difícil uma coligação liderada por Pedro Sánchez e ainda está por ver se se pode repetir o trio de direita que vimos na Andaluzia. Faltam também dados para ver se Pablo Casado [líder do PP] consegue manter votos ou vai perdê-los. O que me chega do PP é que há preocupação em relação ao discurso duro de Pablo Casado, que pode acabar por dar votos ao Vox.

Não penso que a opinião pública esteja muito agitada. O julgamento demonstra que a Justiça está a funcionar e que o risco de Espanha quebrar é inexistente. Centrar o discurso neste tema pode ser uma má estratégia para Casado.

O julgamento dos independentistas catalães pode influenciar muito a campanha?

Penso que não. Temos visto dois acusados falar com discursos muito diferentes. Oriol Junqueras [líder da ERC] falou para os seus porque ninguém compra o seu discurso. Depois vimos uma grande intervenção do advogado Xavier Melero, que defende Joaquim Forn [ex-conselheiro do Interior] que fez uma grande defesa. Forn reconheceu que o referendo foi ilegal e também o que aconteceu nos dias 6 e 7 de setembro de 2017 no Parlament. Se um acusado admite um delito, o julgamento toma outro curso. Por muito que outros queiram politizar o julgamento, o que se está a julgar são os atos. Pensar que o tema catalão vai ser determinante na campanha eleitoral é um erro. Quem acredita hoje que Espanha se parte? Estamos a ver todos acusados sentados no banco.

"O tema catalão importou muito, sim, mas agora o que importa mais é conseguir chegar ao fim do mês"

Como chegam os independentistas a esta campanha eleitoral?

A ERC terá um bom desempenho porque há pessoas que acreditam no seu relato mas não vai acontecer o mesmo com o PDeCAT. Temos que ver se Puigdemont volta a impor os seus nas listas. Não vai ter um bom resultado.

Acredita que o fenómeno Vox vai conseguir deputados?

Provavelmente vai ter votos nas cidades mas não nas zonas rurais. Vai depender, em parte, do que façam aqueles que votaram no Podemos. Marine Le Pen consolidou-se quando os comunistas mudaram o seu voto para ela. Os aborrecidos votavam no Podemos mas agora foram enganados e a credibilidade de Pablo Iglesias está no chão. Vox é quem melhor representa os zangados tanto de direita como de esquerda. A política, em teoria, deve resolver os problemas de forma civilizada. Quando a política se converte num problema em si mesma, as pessoas não querem saber da política. O tema mais importante para os espanhóis é que há um problema salarial grave, com salários que não permitem viver dignamente. É uma herança da crise. Não sei porque os políticos não veem isto. O tema catalão importou muito, sim, mas agora o que importa mais é conseguir chegar ao fim do mês.

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