Salvini sobre Juncker: "Só falo com pessoas sóbrias"

Ministro do Interior italiano e líder do partido de extrema-direita Liga fez declarações pouco simpáticas sobre o presidente da Comissão Europeia depois de este sugerir que Itália pode ser a próxima Grécia da Zona Euro

Um dia depois de o presidente da Comissão Europeia ter sugerido que Itália pode ser a próxima Grécia da Zona Euro devido ao Orçamento do Estado acordado pelos partidos que estão no governo italiano, o 5 Estrelas e a Liga, o líder do segundo, que é também ministro do Interior, Matteo Salvini, teceu declarações pouco simpáticas sobre Jean-Claude Juncker.

"Eu só falo com pessoas sóbrias que não façam comparações irrealistas. Numa família tão grande não há filhos de primeira e de segunda categoria. Se alguém em Bruxelas balbucia porque lamenta a perda de uma Itália precária e cheia de medo - talvez para fazer negócio a um preço mais baixo e para usar os spreads e os mercados para assustar as pessoas - então está a meter-se com o ministro e com o governo errado", disse na terça-feira Salvini, à televisão La7.

"O presidente da Comissão Europeia, ao comparar a Itália com a Grécia, está a fazer os spreads enlouquecerem. Podia ter-nos poupado a isto. Antes de abrir a boca, devia beber dois copos de água e deixar de falar em ameaças que não existem. Caso contrário, pediremos uma indemnização", ameaçou o líder da Liga, partido de extrema-direita eurocético e anti-imigração.

Na véspera, Juncker afirmara, sobre a proposta de Orçamento do Estado para 2009 do governo de Itália: "Não desejaria que, depois de sermos de facto capazes de lidar com a crise grega, acabássemos com a mesma crise em Itália. Uma crise destas já foi suficiente. Itália está a distanciar-se das metas orçamentais que acordámos em conjunto a nível europeu. Se Itália quiser um tratamento especial adicional, isso significará o fim do euro. Por isso temos que ser muito rígidos", declarou o luxemburguês, falando na Alemanha, a maior economia da UE, país-chave na anterior crise do euro.

Na semana passada, de visita a Lisboa, questionado pelo DN sobre se Itália pode mesmo ser a próxima Grécia, o presidente do Parlamento Europeu, Antonio Tajani, ele próprio italiano, afirmou que não, mas também não poupou críticas. "Eu espero que não. Vivemos um momento difícil. A solução económica proposta por este governo é totalmente louca. Discordo da proposta do [Movimento] 5 Estrelas e da Liga [Norte]. É absolutamente negativa para Itália e para a Europa. Mas acredito que é possível mudar. A Itália não é a Grécia. Felizmente há uma boa rede de empresas, é um país industrial, é possível reagir. Mas claro que isto é uma mensagem negativa para os mercados. Discordo da proposta do governo. A reação dos mercados é negativa para os cidadãos europeus. Este orçamento é contra o povo. É contra os italianos. Vão matar os bancos. A economia. Sem investimentos, só com blá, blá, blá, propaganda...".

O Executivo composto pelo 5 Estrelas de Luigi Di Maio e a Liga de Matteo Salvini chegou a acordo na quinta-feira passada sobre as linhas orçamentais. Contra as recomendações e regras europeias dos países da moeda única, Roma tenciona apresentar um défice muito acima do previsto: de 2,4% do PIB. E não só em 2019. Também em 2020 e 2021. A decisão foi contra as indicações do próprio ministro das Finanças italiano, Giovanni Tria, um tecnocrata, que não queria um défice superior a 1,6%. Além disso, Di Maio e Salvini decidiram aumentar a despesa pública.

Falando ao patronato italiano, esta quarta-feira, Tria afirmou que "a redução do défice ocorrerá depois de 2019". O ministro das Finanças italiano não confirmou o número de 2,4% para 2019, evocando uma situação de partida com um défice de 2% do PIB ao qual seria necessário juntar 0,2 pontos percentuais para financiar investimentos.

"O Orçamento de Itália é, neste momento presente, negativo. É preciso reduzir a despesa pública, precisamos investir mais dinheiro em infraestruturas, só há ajudas estatais para o Sul, isso não é bom para o emprego, para o crescimento, não gosto desta proposta. É contra o povo italiano. É um desastre para o meu país", declarou ainda Tajani, que chegou a ser falado para primeiro-ministro de Itália caso tivesse sido formado um governo de centro-direita e não uma coligação improvável entre eurocéticos e nacionalistas de extrema-direita.

Mas, apesar de tudo, Salvini não está sozinho nas insinuações feitas sobre Juncker. Na terça-feira também, o ex-ministro dos Negócios Estrangeiros britânico, Boris Johnson, falando num evento à margem da conferência anual do Partido Conservador, em Birmingham, afirmou: "O que me preocupa não é o aquecimento global, o terrorismo, o Irão de [Hassan] Rouhani ou a Rússia de [Vladimir] Putin - apesar de serem desafios bastante reais. Não são as táticas de negociação de Jean-Claude Juncker - antes ou depois do almoço".

Em julho, um vídeo em que o presidente da Comissão Europeia teve que ser auxiliado por outros líderes na cimeira da NATO, em Bruxelas, suscitou especulações sobre Juncker. Na altura, o seu porta-voz, Margaritis Schinas, confirmou que o luxemburguês "sofreu de um doloroso ataque de ciática".

Juncker termina o seu mandato em 2019 e não é candidato a um segundo mandato à frente da Comissão. Surgem já, inclusivamente, nomes para substitutos, como sejam, por exemplo, o do ex-primeiro-ministro finlandês, Alexander Stubb, que anunciou a sua candidatura na terça-feira. Antes disso, também já a Alemanha de Angela Merkel tinha avançado com o nome de Manfred Weber.