Rússia reage mal à vitória ucraniana na Eurovisão. Apelos ao boicote em 2017

Música ucraniana evoca a deportação dos Tártaros da Crimeia, ordenada pelo ditador russo Josef Estaline no decorrer da Segunda Guerra Mundial

Várias personalidades russas reagiram mal à vitória ucraniana no Festival Eurovisão, e já há senadores a apelar ao boicote em 2017, depois de este ano ter vencido uma canção de teor político que evoca deportações ordenadas pelo ditador Estaline.

De acordo com a AFP, várias vozes vieram a público denunciar "uma vitória política" às custas do candidato russo, 3.º classificado na edição deste ano, atrás da prestação da Austrália, convidada a participar pela primeira vez em 2015, e da vencedora Ucrânia, com a canção '1944' interpretada por Jamala.

A cantora ucraniana Jamala durante a atuação no festival, sábado à noite

A cantora evocou a deportação do seu povo, os Tártaros da Crimeia, ordenada pelo ditador russo Josef Estaline no decorrer da Segunda Guerra Mundial.

A Rússia, que anexou a Crimeia em março de 2014, viu na vitória ucraniana "subentendidos políticos" e protestou contra a participação do país no festival.

"Não foi a cantora ucraniana Jamala e a sua canção '1944' que conquistou a Eurovisão 2016, foi a política que ganhou à arte", declarou às agências de notícias russas o senador Frantz Klintsevitch, que apelou ao boicote pela Rússia da próxima edição do Festival da Eurovisão, que será organizado pela Ucrânia.

Para o presidente do comité dos Negócios Estrangeiros do Senado russo, Konstantin Kossatchev, "foi a geopolítica que ganhou", e, segundo o senador, esta vitória na Eurovisão arrisca dar asas aos dirigentes ucranianos, comprometendo o difícil processo de paz no este da Ucrânia.

"Por esse motivo, quem perdeu foi a Ucrânia", escreveu Kossatchev na sua página na rede social Facebook, citada pela AFP, tendo o senador acrescentado que "aquilo que a Ucrânia precisa, de forma vital, é de paz".

"Mas foi a guerra que ganhou", acrescentou.

"Queria cantar uma canção sobre paz e amor", declarou a cantora, de 32 anos, ao receber o prémio, no sábado.

O presidente ucraniano, Petro Poroshenko, saudou então a "incrível vitória" de Jamala, no festival da Eurovisão.

"Sim! Uma prestação e uma vitória incríveis! Toda a Ucrânia te diz obrigada, Jamala", escreveu, na rede social Twitter, Poroshenko.

Os Tártaros da Crimeia, uma comunidade muçulmana autóctone, opuseram-se às autoridades russas depois da anexação do território da Crimeia, sofrendo uma enorme pressão da parte russa desde então.

A Ucrânia, por seu lado, acusa Moscovo de apoiar militarmente os separatistas pró-russos do este do país.

O conflito fez cerca de 9.300 mortos e mais de 1,5 milhões de desalojados desde abril de 2014, prejudicando as relações entre a Rússia e o ocidente.

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