Rússia entra na crise catalã com 'fake news'

A máquina de difusão de notícias falsas da Rússia usada nos EUA e no Brexit está a ser usada na Catalunha, escreve o diário "El Pais"

O jornal escreve que análises de páginas web pró-russas e e perfis das redes sociais com permitem concluir que a mesma "maquinaria de difusão de notícias falsas que a Rússia usou para debilitar os EUA e a União Europeia foi posta a funcionar em pleno rendimento na Catalunha".

O Kremlin viu no independentismo catalão uma oportunidade para abrir as fraturas europeias e consolidar a sua influência internacional, em movimentos que já se tinham visto com o referendo do Brexit, Marine Le Pen ou a ultra direita alemã.

A estratégia assenta em ativistas como Julian Assange, com mensagens que coincidem com as que quer veucular Moscovo, e uma legião de bots, milhões de perfis automatizados nas redes sociais, suficientes para transformar uma mentira em tendência, partilhada milhões de vezes.

Segundo o diário espanhol, sediado em Madrid, não é coincidência que RT, um site financiado pelo governo russo use o portal em espanhol para difundir notícias a favor do referendo de 1 de outubro na Catalunha. Tão-pouco é coincidência, defendem, que tenha sido uma mensagem de Assange de 15 de setembro, o tweet de maior influência sobre o assunto, segundo a ferramenta NewsWhip.

No tweet, Julian Assange escreve: "Peço a toda a gente que apoie o dreito da Catalunha à autodeterminação. Não se pode permitir que Espanha normalize atos repressivos para impedir que se vote".

Segundo o El Pais, o tweet de Julian Assange conseguiu mais de 2 mil retweets em uma hora e alcançou o momento máximo, 12 mil retweets, em um dia, um número que habitualmente só se consegue de forma sustentada ao longo de vários dias. A explicação é "a intervenção de bots ou perfis falsos programados simplesmente para dar eco de forma automática a determinadas mensagens". Mais: uma análise a 5 mil seguidores do ativista mostra que 59% destes perfis são falsos. Assange tem 398 mil seguidores.

A funcionar da mesma maneira estará Edward Snowden, americano, ex-analista de inteligência, exilado na Rússia. Nos EUA dão como certo que trabalha com os serviços secretos russos. O EL Pais assegura que as suas mensagens no Twitter são partilhadas e conquistam gostos pelo mesmo método que as de Julian Assange. O exemplo é de um post deixado no Twitter no dia 21, às 17.05: "A repressão de Espanha sobre as afirmações incómodas, a política e as manifestações na Catalunha são uma violação dos direitos humanos". Segundo o jornal, foi replicado 8 mil vezes e "gostado" outras tantas.

Oficialmente, o governo da Rússia, liderado por Vladmir Putin, diz que o referendo catalão é responsabilidade de Espanha. Foi o que disse ontem o porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov, segundo a Efe, citada pelo diário espanhol.

50 Eurodeputados criticam governo de Rajoy

Quase 50 eurodeputados, na maioria de esquerda e ecologistas, condenaram hoje numa carta ao primeiro-ministro espanhol, Mariano Rajoy, "o estado de sítio" na sua opinião imposto à Catalunha, após as detenções de altos responsáveis independentistas.

Recordando que "14 altos responsáveis do Governo regional catalão foram detidos pela Guardia Civil e cinco dos seus ministérios foram alvo de buscas", estes 48 eurodeputados (em 751) sustentam que "a Catalunha vive, de facto, sob um estado de sítio não declarado que viola os tratados da União Europeia e a Carta dos Direitos Fundamentais da UE".

"Estas ações são inaceitáveis e nós pedimos-vos que recuem imediatamente", acrescentam os parlamentares europeus na carta, assinada nomeadamente pela socialista portuguesa Ana Gomes, o francês José Bové (Verdes) e a vice-presidente do grupo dos Conservadores e Reformistas Europeus, a belga Helga Stevens.

"As ações repressivas e as ameaças das autoridades espanholas, principalmente da polícia espanhola, contra funcionários, deputados, autarcas, órgãos de comunicação social, empresas e cidadãos, nos últimos dias, constituem não só uma violação dos direitos fundamentais, como também uma má abordagem para gerir uma questão política", consideram os signatários da carta.

"A utilização da justiça e de ações judiciais para lidar com um assunto de natureza política é um erro (...) e um abuso de poder", insistem, fazendo um apelo.

"Apelamos ao Governo espanhol para parar imediatamente com tais ações repressivas, a parar de violar os direitos cívicos e a desempenhar um papel construtivo, bem como a encetar imediatamente um diálogo com as autoridades catalãs".

O referendo sobre a independência da Catalunha, proibido pelo Tribunal Constitucional espanhol, continua marcado para 01 de outubro, apesar de as operações policiais terem desferido um duro golpe na sua organização.

A polícia espanhola apreendeu na quarta-feira, nos arredores de Barcelona, quase 10 milhões de boletins de voto que iam ser utilizados no referendo de 01 de outubro, e numa outra operação revistou uma série de edifícios do Governo regional e deteve 14 pessoas alegadamente envolvidas na preparação da consulta popular. Com Lusa

Espanha vai enviar um reforço policial para a Catalunha a fim de manter a ordem no caso de ser aplicado o referendo de independência prometido pelas autoridades catalãs, ao qual o Governo nacional se opõe, disseram hoje as autoridades.

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Adriano Moreira

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Este livro de D. Ximenes Belo intitulado Missionários Transmontanos em Timor-Leste aparece numa época que me tem parecido de outono ocidental, com decadência das estruturas legais organizadas para tornar efetiva a governança do globalismo em face da ocidentalização do globo que os portugueses iniciaram, abrindo a época que os historiadores chamaram de Descobertas e em que os chamados navegantes da fé legaram o imperativo do "mundo único", isto é, sem guerras, e da "terra casa comum dos homens", hoje com expressão na ONU.