Rouhani reforça mandato e promete abertura no Irão

Presidente moderado consegue a reeleição à primeira volta e desafia conservadores, que dominam judiciário e setor de segurança

Depois de o horário de votação ter sido alargado por mais seis horas, por causa da elevada participação que chegou aos 73%, os eleitores iranianos deram um mandato reforçado ao presidente Hassan Rouhani. Foram mais de 23 milhões (57%) os que votaram pelo moderado que negociou o acordo nuclear com o Ocidente e que nas últimas semanas de campanha prometeu alargar as liberdades individuais e políticas dos iranianos e pôr um travão ao extremismo.

Contudo, ao atacar a linha dura conservadora, que controla desde o sistema judiciário ao de segurança (os Guardas da Revolução apoiavam o adversário, Ebrahim Raisi), Rouhani pode ter agora mais dificuldades para empreender o seu programa. O líder supremo, o ayatollah Ali Khamenei (que alegadamente também preferia o clérigo conservador Raisi), tem poder de veto sobre todas as políticas que este queira implementar.

O presidente, de 68 anos, ainda enfrenta por isso as mesmas restrições à sua vontade de transformar o Irão, que impediram mudanças sociais substanciais no primeiro mandato. Rouhani não conseguiu, por exemplo, garantir a libertação dos líderes reformistas que estão em prisão domiciliária desde as presidenciais de 2009, ganhas pelo conservador Mahmud Ahmadinejad no meio de denúncias de fraude.

Ontem, no primeiro discurso após a vitória, o presidente disse que o resultado mostra que os iranianos rejeitaram os apelos dos opositores conservadores de travar as reformas no país e votaram por continuar a sua abertura ao mundo: "A mensagem da nossa nação nestas eleições foi clara. O Irão escolheu o caminho da interação com o mundo, longe da violência e do extremismo." E elogiou o ex-presidente Mohammad Khatami, desafiando a proibição judicial de mencionar o nome do líder reformista nos media.

Rouhani, que dedicou grande parte do primeiro mandato a negociar o acordo nuclear com o Ocidente, tinha como principal adversário o clérigo Raisi (conseguiu 38,3% dos votos). Este era um crítico do acordo, lembrando que os iranianos ainda não sentiram os benefícios do levantamento parcial das sanções económicas ao país após a limitação do programa nuclear a fins civis. Um acordo que o presidente dos EUA, Donald Trump, visto como anti-Irão, disse na campanha querer rasgar - apesar de ter mantido esta semana a suspensão das sanções aprovada pelo antecessor, Barack Obama. O desemprego, que afeta 12,5% da população, é um dos principais problemas do país.

Raisi prometia criar milhares de empregos e defendia que o Irão não precisava de apoio internacional, pondo em causa a relação com o Ocidente. "Os iranianos podem não estar propriamente otimistas de que Rouhani consiga levar o país para a frente, mas pelo menos ele não queria levar o país para trás", disse à Reuters Karim Sadjadpour, do think tank Fundo Carnegie para a Paz Internacional.

Esta derrota pode minar as hipóteses de Raisi de suceder a Khamenei, sendo vários os rumores sobre os problemas de saúde do líder supremo de 77 anos. Por outro lado, reforçam as de Rouhani - Khamenei estava no segundo mandato presidencial quando o ayatollah Khomenei, fundador da República Islâmica do Irão, morreu em 1989. Foi então escolhido para lhe suceder.

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Henrique Burnay

Discretamente, sem ninguém ver

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