Rivera tenta colar Sánchez aos independentistas e este riposta com o Vox

Último debate antes das eleições legislativas antecipadas de domingo em Espanha marcado por provocações e acusações do líder do Ciudadanos ao líder do PSOE. Sánchez entrou no jogo e não é certo que tenha ganho. Líder do PP melhor do que no debate de segunda-feira e dirigente do Podemos num papel pouco convincente de árbitro. Vox, o grande ausente, fez comício paralelo numa praça de touros em Madrid

Pedro Sánchez, primeiro-ministro espanhol e líder do PSOE, descartou uma coligação com o Ciudadanos. "Não está nos meus planos fazer pactos com um partido que pôs um cordão sanitário à nossa volta. Falamos do dia 29, mas não nos esqueçamos do dia 28, é preciso concentrar o votos nos socialistas", declarou o candidato socialista, no debate organizado pelo grupo Atresmedia, esta terça-feira à noite, com os quatro principais cabeça de lista às legislativas de domingo. "Não pactuei com os independentistas, senhor Rivera, isso é mentira", insistiu Sánchez, interpelado, insistentemente, por Albert Rivera sobre o apoio dos independentistas catalães ao governo do PSOE.

O líder do Ciudadanos, notando que Sánchez fica muito nervoso quando se fala do apoio dos independentistas, também descartou qualquer pacto pós-eleitoral com os socialistas. Mas não foi tão claro em relação ao Vox. O partido de extrema-direita que apoia o governo PP-Ciudadanos na Junta da Andaluzia. "O senhor Sánchez governa com os que querem liquidar o país e com esses não vou nem até ali ao fim da esquina. Devo tentar formar um governo liberal e centrista e, por isso, estendo a mão ao senhor Casado. O senhor Sánchez pôs-nos num estado de emergência nacional. Por isso sempre estenderei a mão aos constitucionalistas".

No mesmo sentido do que Rivera, Pablo Casado, líder do Partido Popular, tentou colar Sánchez aos independentistas catalães, de Quim Torra e Carles Puigdemont, mas também aos bascos de Arnaldo Otegi, ex-porta-voz da Batasuna. E da mesma forma não descartou a possibilidade de fazer pactos com o Vox de Santiago Abascal. "Nós fomos os únicos que não pactuámos com o senhor Sánchez. Somos a única alternativa. Sánchez converteu-se numa boneca russa, uma matrioska, que tem dentro o Podemos, o Bildu, os independentistas. Para formar governo, como na Andaluzia, ficaremos contentes em estender a mão a outros constitucionalistas. Eu vou apresentar-me à investidura, se o Vox quiser apoiá-la, que o faça", declarou o candidato dos populares às legislativas antecipadas de domingo.

Pablo Iglesias, cabeça de lista da coligação Unidas Podemos, foi mais prático. "O próximo governo de Espanha será de coligação e nós estamos dispostos a formar governo com o PSOE. Primeiro será necessário acordar um programa nesse governo de coligação para trabalhar juntos. Que tenhamos que chegar a acordos é bom. Assim ficamos mais parecidos com a Europa", declarou o dirigente de esquerda, colocando-se, em várias ocasiões, na linha de Sánchez contra Rivera e Casado. Mas sobretudo contra Rivera. Disse-lhe, por exemplo, que os espanhóis "não precisam de alguém que lhes diga que quer ser o primeiro-ministro amigo das famílias mas que lhes mostre, sim, medidas concretas".

Troca de livros no dia de San Jordi

No debate de segunda-feira, organizado pela RTVE, Rivera mostrou a Sánchez uma fotografia do encontro do chefe do governo socialista com o presidente do governo da Catalunha, Quim Torra, independentista. Para o debate desta terça-feira, o líder do Ciudadanos levou um livro para oferecer a Sánchez, por ocasião do dia de San Jordi, santo padroeiro da Catalunha. Era a tese de Sánchez. Envolta em polémica. Sánchez, em troca, exibiu a Rivera o livro "España vertebrada", de Santiago Abascal, líder do Vox, com Fernando Sánchez Dragó.

Com Rivera a liderar os ataques a Sánchez, Iglesias liderou os ataques a Rivera, enquanto o primeiro chamava mentiroso ao primeiro-ministro e repetia que o achava muito nervoso durante este debate, o segundo repreendia o líder do Ciudadanos por estar sempre a interromper os adversários acusando-o de má educação.

Durante o debate dos temas económicos, de impostos, de emprego, Iglesias prometeu um rendimento universal mínimo de 600 euros, escola gratuita para todos e licenças de paternidade de 24 meses. Sem precisar, porém, como financiaria essas medidas. Sánchez, por sua vez, prometeu subir os impostos para os rendimentos superiores a 140 mil euros, subir os impostos para as grandes empresas, impulsionar a taxa Google, um imposto sobre as transações financeiras. No entanto, como refere o jornalista Jesús-Sérvulo González do El País, num fact checking feito a par do debate, a maior parte destas medidas já estavam previstas pelo governo do PP de Rajoy antes de ser derrubado pela moção de censura de Sánchez.

Sobre o capítulo da imigração, Sánchez lembrou que "a imigração não chegou com este governo", garantindo que o seu Executivo "não vai deixar os imigrantes ao vento". Casado, por seu lado, afirmou, sem citar fontes, que 50% das mulheres que aguardam em Ceuta e Melilla para chegar a Espanha são vítimas de agressão sexual. "Estamos perante a pior vaga migratória dos últimos 11 anos", declarou o líder do PP, defendendo a ideia de um Plano Marshall para África. Iglesias, retificando Rivera ao notar que ele falou em regular a imigração regular mas essa já está regulada, pediu: "Cheguemos a um acordo para fazer um Pacto de Estado sobre a imigração que cumpra a legislação internacional em matéria de direitos humanos". Recorde-se que o Vox, aliado do PP e do Ciudadanos em Andaluzia, defende a expulsão dos imigrantes que não têm documentos para permanecer legalmente em território espanhol.

O flagelo da violência de género

A moderadora Ana Pastor perguntou aos candidatos se um silêncio, da parte de uma mulher, significa um sim, quando o que está em causa é uma relação sexual. Casado, do PP, disse que, para ele, não. "Nem para mim, nem para o Código Penal, o consentimento deve ser explícito e está regulado desde 1922", disse o líder da oposição, perguntando a Sánchez: "Indultaria o senhor os da Manada?". O chefe do governo mostrou-se indignado. E diz ter feito da luta contra a violência de género uma das principais bandeiras do seu governo em Espanha.

Iglesias, que voltou a realçar estar envergonhado com o nível do debate, propôs uma alteração do Código Penal para que "sim seja sim" e que haja "alternativa habitacional imediata" para as mulheres vítimas de violência. Casado propõe por seu lado penas de prisão permanente, passível de revisão, para esses casos de violência. Sánchez acusou Rivera de estar em silêncio sobre as posições do Vox, da extrema-direita, em relação às mulheres. "O senhor não fala do Vox", disse, começando a enumerar exemplos de frases de alguns candidatos do partido de Abascal: "Uma mulher violada não tem direito a abortar" ou "as mulheres piolhosas da esquerda" ou "a verdadeira ditadura não foi a franquista mas a feminista".

Sobre a educação, Iglesias, que surgiu no debate com um jersey da marca de roupa republicana 198 Revolt Clothing, afirmou que "os governos socialistas permitiram um poder excessivo da Igreja católica no controlo da educação das crianças com dinheiro público" e que "não se pode subsidiar com dinheiro público colégios que segregam por sexos". Em defesa das suas políticas, Sánchez sublinhou o investimento dos socialistas na formação profissional. Iglesias defendeu uma reforma fiscal para financiar a educação pública. "Sou professor e tenho experiência. Quem quer que tenha trabalhado no sistema de ensino sabe que o problema principal é o do financiamento".

Tentando provocar Sánchez, uma vez mais, Rivera declarou: "A corrupção forma parte do nosso roteiro e por isso quero perguntar ao senhor Sánche se vai demitir-se se condenarem Chaves e Griñan pelo caso dos ERE na Andaluzia". Sánchez evitou responder e voltou a lembrar os casos de corrupção no PP, como o Gürtel, classificando a sede do PP como uma espécie de "parque temático da corrupção".

A Catalunha e a Espanha?

Iglesias confirmou que a Unidos Podemos defende um referendo na Catalunha. "Há quem se enrole na bandeira espanhola mas não gosta de Espanha e não aceita uma Espanha diversa pois não é essa que nos querem impor", declarou, acrescentando: "Uma das chaves é que somos plurinacionais. Há que procurar fórmulas que encaixem. Podemos encaixar com o diálogo e com fórmulas democráticas". O líder do Podemos pediu "mais empatia" e sublinhou que "todos sabemos que a questão da Catalunha só se vai resolver com diálogo". O problema e o inimigo de Espanha "são os corruptos".

Casado, que ganhou mais fôlego no debate de hoje, atacou diretamente o líder do PSOE: "Sánchez é o candidato favorito dos inimigos de Espanha, Junqueras, Otegi... querem que ganhe Sánchez. Já negociou e já cedeu, por isso reagrupou os presos em cadeias catalãs e por isso as declarações dos seus ministros a apoiar os independentistas. O senhor é refém dos independentistas e é um perigo para Espanha". Na mesma linha, Rivera, exibindo fotografias da líder dos socialistas bascos, Idoia Mendia, com Arnaldo Otegi, ex-porta-voz da Batasuna, afirmou: "Muitos socialistas estão dececionados consigo por causa dos seus pactos com Otegi, Torra... Eu quero ser o presidente que defende os espanhóis".

Respondendo ao ataque de Rivera, Sánchez disse que "têm mentido muito sobre mim, que tenho as mãos manchadas de sangue... Defendemos um autogoverno, não é preciso fraturar mais a Catalunha, por isso deixo claro: não vai haver independência nem referendo, mas dialogaremos com todos, no âmbito da Constituição". Iglesias, uma vez mais, voltou a dizer que muita gente em Espanha, sobretudo na chamada Espanha vazia, esvaziada de serviços e infraestruturas, se sente ofendida por só se falar da Catalunha. "O problema territorial não é só a Catalunha, há os canários, os estremenhos, os valencianos, os baleares, que têm problemas de financiamento. É preciso ouvir, ter empatia, pois só negociando é preciso resolver as coisas".

Na reta final, Casado voltou a insistir: "Somos um antídoto contra o separatismo. Não se pode branquear o independentismo e o terrorismo em troca de um punhado de assentos parlamentares". Sánchez, por seu lado, também insistiu: "O problema territorial, é verdade, não é só Catalunha, mas também fizemos coisas durante estes últimos dez meses na Estremadura e nas Baleares. Mas tenho que voltar a dizer uma coisa: não é não, falso é falso, nunca é nunca, nunca fiz pactos com os independentistas, não aceito mais mentiras".

A preparação do último debate antes do voto de domingo

O último debate antes das eleições antecipadas de domingo foi organizado pelo grupo Atresmedia, um dia depois do da RTVE, ao qual assistiram apenas 8,8 milhões de telespectadores, um número inferior à audiência registada nos debates frente-a-frente realizados em eleições anteriores em Espanha.

O debate, moderado por Ana Pastor e Vicente Vallés, decorreu num estúdio de 600 m2 montado para o efeito. O primeiro a chegar foi o líder do Ciudadanos, Albert Rivera, que alguns consideraram o vencedor do debate de segunda-feira, sendo que as opiniões divergem de comentador para comentador e de órgão de comunicação para órgão de comunicação.

A Rivera seguiu-se Pablo Iglesias, candidato pela coligação Unidas Podemos, que chegou de táxi. "Um gesto para apoiar o setor", indicou o dirigente de esquerda. numa altura em que alguns taxistas colaram cartazes de campanha de Iglesias nos seus veículos, de forma gratuita, segundo noticiou o El País.

Um outro Pablo, Pablo Casado, líder do PP e sucessor de Mariano Rajoy, chegou em seguida. Tinha à sua espera um grupo de simpatizantes a gritar slogans como "Pablo primeiro-ministro" ou "Pablo és o melhor". Casado exibiu em seguida uma T-shirt preta, com a palavra Prisões impressa, que lhe foi entregue por um grupo de funcionários prisionais.

Em seguida, Pedro Sánchez, atual primeiro-ministro e líder do PSOE, que convocou legislativas antecipadas depois de não conseguir aprovação do Orçamento do Estado no Parlamento espanhol. Chegara ao poder em junho do ano passado, depois de chegar à Moncloa através de uma moção de censura contra Rajoy que, entre outras formações políticas, foi aprovada pelos partidos independentistas da Catalunha.

O comício alternativo do Vox de Santiago Abascal

O grande ausente do debate foi o Vox, partido de extrema-direita em ascensão nas sondagens desde que, em dezembro, conseguiu eleger 12 deputados nas eleições autonómicas da Andaluzia e, assim, contribuir para ajudar o PP e o Ciudadanos a expulsar os socialistas do poder após quase quatro décadas de domínio do PSOE.

Segundo sorteio, Pedro Sánchez foi o primeiro a intervir no início do debate e, no final, foi Pablo Casado o primeiro a intervir e Pablo Iglesias o último. O debate durou três horas e esteve dividido em três blocos temáticos. Um dedicado à apresentação dos programas eleitorais, outro ao modelo territorial e à questão da Catalunha e outro a possíveis pactos pós-eleitorais no caso de nenhum partido obter maioria absoluta. O que as sondagens indicam, até agora, é que nenhum o conseguirá e precisará de um, dois ou mais parceiros para conseguir governar.

A Atresmedia decidiu não convidar o líder do Vox, Santiago Abascal, pelo facto de o partido não ter representação parlamentar. Convocada pelo Canal Sur para um debate na Andaluzia, onde tem assento parlamentar, esta quarta-feira à noite, com os candidatos do PSOE, PP, Ciudadanos e Podemos, a formação nacionalista, populista, anti-imigração e antifeminista de Abascal recusou-se a participar.

Num comício na Praça de Toros de Las Rozas, em Madrid, Abascal juntou cerca de cinco mil apoiantes. A transmissão do evento foi seguida por 16 mil pessoas no Youtube e o evento voltou a ser de novo transmitido. "O êxito de hoje em Las Rozas não está no facto de a praça estar cheia, está cheia de bom senso, enquanto o plateau de Antena 3 está cheio de lugares comuns", declarou o líder do Vox, acrescentando que isto "não é um debate" mas sim "um consenso". No entender de Abascal, citado pela agência Efe, estes debates não passam de "reuniões de traição, deceção, marketing e ódio: os quatro cavaleiros da tragédia nacional" em Espanha.

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