Revelações e consequências. O impacto dos Papéis do Panamá, país a país

Uma lista dos países onde os Papéis do Panamá chegaram aos mais poderosos e de como estes foram - ou não - afetados pelas revelações

Argentina

Segundo os Papéis do Panamá, o presidente argentino, Mauricio Macri, teve ligações a uma empresa offshore com sede nas Bahamas: foi o diretor da Fleg Trading entre 1998 e 2009. Porém, nunca declarou qualquer rendimento referente a esta empresa e, em 2015, quando se tornou presidente, fez toda a campanha eleitoral defendendo medidas mais duras contra a corrupção entre políticos.

As reações:

Os argentinos vieram para a rua pedir a demissão de Macri, tendo já a autoridade fiscal no país aberto uma investigação, tal como o Ministério Público. Macri garante que nada fez de ilegítimo.

Austrália

O país estava já envolvido numa extensa operação de combate à evasão fiscal e os Papéis do Panamá revelaram que muitos dos suspeitos de fuga ao fisco tinham empresas offshore no Panamá, geridas pela Mossack Fonseca.

As reações:

A Austrália está nesta altura a investigar 800 cidadãos por possíveis evasões tributárias após a divulgação da lista de nomes que constam nos registos da Mossack Fonseca, alegadamente envolvidos em esquemas de corrupção. "Atualmente identificámos mais de 800 contribuintes e ligámos mais de 120 deles a um fornecedor associado de serviços situado em Hong Kong", revelou o departamento australiano de impostos.

Azerbaijão

Os Papéis do Panamá mostram que a família do presidente do Azerbaijão é detentora de um vasto império de offshores, que inclui empresas na área da banca, telecomunicações, extração de ouro e até mansões em Londres: nos registos, surge uma firma chamada Exaltation Ltd, em nome das filhas do presidente, Leyla e Arzu, conhecidas socialites do país. Foi criada em 2015 para gerir o património no Reino Unido.

As reações:

Uma "pequena guerra", escreve o The Guardian. Durante quatro dias, a violência regressou à região do Nagorno-Karabakh. Situada geograficamente no território do Azerbaijão - que periodicamente ameaça retomar à força o controlo da região - o Nagorno-Karabakh é desde 1994 controlado por separatistas arménios, com o apoio da Rússia e do governo de Erevan. Especula-se que o reacender do conflito tenha sido orquestrado para distrair atenções dos Papéis do Panamá. No Azerbaijão, onde os media críticos da presidência foram encerrado, com jornalistas, ativistas e bloggers que pedem liberdade de expressão detidos, sobra pouco espaço para a indignação da opinião pública.

China

Pelo menos dez membros da elite política chinesa aparecem implicado no caso Papéis do Panamá, através de familiares que detêm companhias offshore. A rede de ligações chega até ao topo, atingindo mesmo Xi Jinping, o presidente do país. Além do chefe de Estado, há mais dois nomes do atual Politburo - direção do Partido Comunista Chinês (PCC) - mencionados nos documentos que agora vieram a público. O genro de Zhang Gaoli, vicepresidente do país, foi acionista de três empresas domiciliadas nas Ilhas Virgens Britânicas. E a nora de Liu Yunshan, chefe de propaganda do partido, chegou a ser diretora e acionista de uma companhia localizada no mesmo paraíso fiscal.
No caso do presidente do país, a ligação surge através do cunhado. Deng Jiagui, casado com a irmã mais velha de Xi Jinping e que já tinha sido mencionado em 2014 num outro escândalo fiscal divulgado pelo Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação, aparece agora ligado a outras três offshore.

As reações:

Previsivelmente, o escândalo foi abafado através da censura comunista. O próprio site do The Guardian foi bloqueado na China por referir as histórias da elite chinesa apanhada nos registos da Mossack Fonseca.

Irão

A Mossack Fonseca tinha nos seus registos a petrolífera estatal iraniana, a Petropars, detentora de offshores com sede nas Ilhas Virgens. Os emails que foram tornados públicos sugerem que o proprietário de uma outra empresa, a Petrocom, que surge referenciada pela empresa panamiana, seria Mahmoud Ahmadinejad, o antigo presidente do Irão.

As reações:

Poucas. As notícias do escândalo chegaram apenas às elites e só a agência semi-oficial do estado pegou na história, de forma breve.

Islândia

Sigmundur David Gunnlaugsson, o primeiro-ministro islandês, e a sua mulher Anna Sigurlaug Palsdottir, tinham milhões de dólares em ações numa empresa offshore que era acionista dos bancos islandeses falidos. No mês passado, em entrevista, e já cercado pelos jornalistas que investigavam os Papéis do Panamá, Gunnlaugsson negou qualquer má conduta.

As reações:

Cerca de dez mil islandeses manifestaram-se em Reiquiavique no início da semana, exigindo a demissão do primeiro-ministro, que inicialmente recusou abandonar o governo mas acabou por pedir a demissão. Foi a primeira "baixa" dos Papéis do Panamá, situação que demonstrou, conforme assinala o Guardian, que os dirigentes em democracia têm maiores dificuldades em lidar com o escândalo do que aqueles que governam em regimes autoritários.

Panamá

Os documentos divulgados da Mossack Fonseca, através de uma fuga de informação, lançaram nova luz sobre o fluxo de dinheiro que circula através do Panamá, um país já conhecido como paraíso fiscal. Os fundadores da Mossack Fonseca são um alemão, Jürgen Mossack, e um panamiano, Ramón Fonseca. Este último é amigo do presidente do Panamá, Juan Carlos Varela, e a Mossack já terá mesmo aconselhado o Ministério dos Negócios Estrangeiros nacional.

As reações:

Perante o embaraço internacional, escreve o The Guardian que o presidente do Panamá garantiu que irá criar um painel internacional que ajude a aumentar a transparência na indústria financeira de offshores estabelecida no país. A Mossack Fonseca, por outro lado, negou qualquer má conduta, garantindo que operou sempre dentro da legalidade, tendo apresentado entretanto uma queixa na justiça por ter sido vítima de pirataria informática. O Ministério Público panamiano abriu uma investigação.

Paquistão

Um filho de Nawaz Sharif, primeiro-ministro do Paquistão, é o dono de quatro apartamentos de luxo em Londres, que detém através de empresas offshore nas Ilhas Virgens, criadas pela Mossack Fonseca. Os filhos de Sharif conseguiram um empréstimo de oito milhões de euros do Deutsche Bank dando este património imobiliário como garantia.

As reações:

A família negou qualquer má conduta, garantindo que os apartamentos são propriedade do filho mais velho. Terça-feira, o primeiro-ministro garantiu que uma comissão liderada por um antigo juiz do supremo tribunal paquistanês irá investigar as alegações referentes às propriedades escondidas.

Portugal

O envolvimento de Portugal no escândalo dos Papéis do Panamá inclui mais de 200 empresas e indivíduos, entre gestores de topo do Espírito Santo, a Abreu Advogados, um ourives, donos de empreendimentos turísticos no Algarve e até um empresário ligado ao futebol. Ex-ministros e políticos também fazem parte da lista que o semanário Expresso, juntamente com a TVI, começou a divulgar na sexta-feira. O nome da Idalécio Oliveira, um empresário natural de Vouzela e sob investigação no Brasil, foi o primeiro a vir à baila. Entre os nomes mais conhecidos estão os de Manuel Vilarinho, antigo presidente do Benfica, do empresário Ilídio Pinho e de Luís Portela, dono da farmacêutica Bial. No que diz respeito ao universo Espírito Santo, sabe-se agora que a empresa mais misteriosa do Grupo Espírito Santo (GES), suspeita de ser "um gigantesco saco azul", foi mantida em segredo durante mais de 21 anos. Os Papéis do Panamá revelam que pela empresa terão passado mais de 300 milhões de euros e que a mesma serviu para entregar dinheiro e património de forma camuflada a destinatários ainda por identificar, recorrendo a circuitos externos complexos fora de Portugal.

As reações:

O Governo já disse, pela voz do secretário de Estado dos Assuntos Fiscais, que tentará obter todos os documentos relativos a portugueses nos Papéis do Panamá. Rocha Andrade considera que pode haver "um conjunto de informação relevante face a contribuintes portugueses" e manifestou a convicção do Governo de que "a administração fiscal detém os meios legais suficientes para agir". Já Manuel Vilarinho, por exemplo, confirmou a propriedade de offshores mas garante que o problema está resolvido, Luís Portela diz apenas que a empresa que fundou, a Bial, tem uma filial no Panamá e daí ter uma conta bancária no país; Ilídio Pinho rejeita qualquer offshore.

Reino Unido

Ian Cameron, o pai do primeiro-ministro do Reino Unido, David Cameron, era dono de um fundo de investimento alegadamente sediado nas Bahamas, que nunca pagou impostos em território britânico. Geria milhões em nome de clientes abastados e apesar dos esforços de Cameron, falecido em 2010, para dar impressão que a Blairmore Holdings Inc. ficava nas Caraíbas, sabe-se agora que tudo passava pelo Panamá. O atual primeiro-ministro dizia inicialmente tratar-se de um "assunto privado", garantindo que nada tinha tido a ver com os negócios do pai.

As reações:

Confessando que "os últimos dias têm sido difíceis", o primeiro-ministro confirmou sexta-feira que deteve ações do fundo de investimento Blairmore Holdings Inc. Essa participação - adquirida em 1997 - foi vendida em 2010, pouco antes de Cameron ascender à liderança do Executivo britânico, por 31 500 libras (cerca de 39 mil euros), representando um lucro de 19 mil libras (23 500 euros). Cameron garantiu que pagou todos os impostos em causa. O primeiro-ministro tem feito do combate à evasão fiscal uma bandeira do seu mandato e, nos últimos dias, as pressões para que se demita subiram de tom. Já este sábado, Cameron disse: "Sei que deveria ter gerido melhor o caso e não culpem os meus conselheiros. O erro é meu e aprendi a lição", acrescentou, renovando a promessa de publicar, "em breve", as declarações de impostos dos últimos anos, o que, a acontecer, será inédito com um primeiro-ministro do Reino Unido.

Rússia

O melhor amigo de Putin, o violoncelista Sergei Roldugin, surge como proprietário de várias offshores, no valor de muitos milhões, apesar de garantir que não é um homem de negócios. Um estudo atento das movimentações de fundos levou os jornalistas ligados ao Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação até Vladimir Putin.

As reações:

Como os meios de comunicação social russos estão sob controlo do Kremlin, os cidadãos nacionais pouco sabem dos Papéis do Panamá e o porta-voz do presidente, Dmitry Peskov, desvalorizou todas as acusações falando em "Putinofobia". Sugeriu mesmo que muitos dos jornalistas envolvidos fazem espionagem para a norte-americana CIA. Peskov negou ainda que a sua mulher, Tatiana Navka, uma antiga campeã olímpica de patinagem no gelo, seja a proprietária de uma offshore. Mas o jornal The Guardian conseguiu demonstrar que o passaporte de Navka surge nos registos da Mossack Fonseca.
Três pessoas apenas se manifestaram junto ao parlamento russo - ou Duma -, pedindo a destituição de Putin, e foram detidas. Putin veio a público dizer que o seu amigo Roldugin teria usado o dinheiro para importar instrumentos musicais.

Síria

Primos do presidente sírio Bashar al-Assad foram apanhado nos registos da Mossack, como donos de várias companhias offshore. A Mossack Fonseca continuou a trabalhar com os dois irmãos, familiares de Assad, mesmo depois de ter começado a guerra civil na Síria e contra o conselho do departamento que supervisiona a legalidade das ações da própria empresa panamiana.

As reações:

Nenhumas. O governo de Assad continua a governar como habitualmente, tendo recentemente recuperado a cidade de Palmira, que estava sob o domínio do Estado Islâmico.

Zimbabué

Dois indivíduos alegadamente próximos de Robert Mugabe, presidente do Zimbabué que governa o país em regime ditatorial, estão listados nos Papéis do Panamá. Serão um magnata da exploração mineira e um traficante de armas que mantiveram as suas offshores apesar dos avisos da Organização das Nações Unidas, que já teria alertado para os ilícitos.

As reações:

Os apoiantes de Mugabe argumentam que as offshores não estavam ligadas ao presidente, ao passo que os seus detratores garantem que, apesar de Mugabe não estar nesta lista, o próprio é detentor de um vasto império de empresas no estrangeiro.

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