Repressão a manifestações na Nicarágua estala clima de revolta

Reforma da segurança social causou a primeira manifestação, mas reação da polícia multiplicou onda de descontentamento. Ao fim de cinco dias contam-se mais de 20 mortos

O presidente da Nicarágua, Daniel Ortega, concordou em iniciar um diálogo com o setor privado para rever as reformas da segurança social, que provocaram manifestações por cinco dias consecutivos em várias cidades do país. Mas o discurso que efetuou acabou por não ajudar a acalmar a população. Os confrontos da polícia com os manifestantes saldaram-se em pelo menos 25 mortos e dezenas de feridos e detidos.

No domingo, além da continuação das barricadas e da violência, as lojas de Manágua foram palco de saques. Na noite anterior um símbolo do poder do presidente e da vice Rosario Murillo, marido e mulher, umas estruturas metálicas em forma de árvore, arbolatas ou chayopalos, foram derrubadas.

Na quarta-feira à noite um pequeno grupo de estudantes e de reformados organizou um protesto num centro comercial. Aos relatos da forma brutal como foram reprimidos pela polícia - e pela resistência que o grupo manteve durante três horas, a população indignou-se e no dia seguinte eclodiram manifestações nas universidades públicas, até agora bastiões da Frente Sandinista de Ortega.

"Embora originalmente este seja um protesto sobre uma questão relacionada com as questões económicas, da segurança social, e ainda é, mas já é mais do que isso: agora, as pessoas estão a exigir liberdade e democracia em primeiro lugar, o fim da repressão e o direito a manifestar-se livre e pacificamente", explica o diretor do jornal Confidencial, Carlos Chamorro. O filho de Pedro Joaquín Chamorro, diretor do único jornal que fez oposição à ditadura dos Somoza (tendo sido assassinado) e de Violeta Chamorro, presidente entre 1990 e 1997, em entrevista ao La Nación da Costa Rica, afirma que "o regime de Ortega perdeu o monopólio do controlo dos espaços públicos e das ruas" graças à repressão, "o motor que alimentou a rebelião e os protestos".

O anúncio do presidente na estação televisiva pública, no sábado, provocou uma nova onda de violência nas ruas um pouco por todo o país. A indignação deve-se ao facto de ter mostrado vontade de dialogar apenas com o setor empresarial e não com outros setores sociais. E por ter dito que os manifestantes, na sua maioria estudantes universitários, estão a ser manipulados por setores políticos, além de incorporarem "criminosos" nos protestos.

"O presidente vem inventar que existe uma conspiração, porque não tem a lucidez nem a audácia de admitir que o povo está a reivindicar de forma autónoma, sem interferência política externa", contrapõe a sua enteada, Zoilamérica Ortega Murillo, autoexilada na Costa Rica.

Ortega promulgou as reformas à segurança social por decreto, sem ter havido negociações com as entidades patronais nem com as associações sindicais. As reformas foram criticadas por todos os setores económicos. Dizem que, longe de impedir a falência da segurança social, trarão mais desemprego e trabalho informal.

As novas medidas estabelecem que o pagamento dos trabalhadores ao Instituto Nacional de Segurança Social da Nicarágua passe de 6,25% para 7% a partir de julho. A partir desse mês, a participação dos empregadores aumentará de 19% para 21%, e aumentará sucessivamente até atingir 22,5% em 2020. Isto além de 5% das pensões com que os reformados passam a contribuir.

"Exortamos as autoridades do país a escutar o grito dos jovens nicaraguenses e a voz de outros setores que se pronunciaram sobre as reformas e a revogá-las", reagiu em comunicado a Conferência Episcopal da Nicarágua, no sábado. No dia seguinte foi a vez do Papa Francisco falar, tendo apelado para "que se evite um inútil derramamento de sangue".

Repressão aos media

No sábado à noite, em Bluefields, município no sul da costa atlântica do país, o diretor da publicação local El Meridiano , o jornalista Ángel Gahona, transmitia através do Facebook confrontos entre manifestantes e polícia quando foi atingido com um tiro na cabeça, ao que alguns media adiantam, por parte da polícia antimotim. Este foi o caso mais grave a envolver meios de comunicação. Mas houve mais. Nessa mesma noite, em León, a segunda maior cidade do país, a Radio Darío foi silenciada através de fogo posto, quando tinha pessoas dentro do edifício. O proprietário desta rádio independente, atribuiu a autoria do ataque a um grupo às ordens do governo.

Na quarta-feira, durante os primeiros protestos, os jornalistas foram agredidos e desapossessados das suas câmaras. No dia seguinte, foi suspensa a emissão de cinco canais de televisão privados - um deles, de notícias, mantém-se fora do ar. É uma medida de censura inédita na Nicarágua.

Daniel Ortega, do sandinismo ao nepotismo

> Para o bem e para o mal, José Daniel Ortega Saavedra é a figura central da Nicarágua desde a década de 70. Primeiro enquanto dirigente da revolução sandinista que pôs fim a 43 anos da ditadura da família Somoza, patrocinada pelos Estados Unidos. Será também Washington a ajudar a reação armada contra a tomada de poder da aliança das esquerdas, a Frente Sandinista, na guerra civil que durou até 1990. Derrotado nesse ano pelo voto em Violeta Chamorro, perdeu as eleições seguintes até vencer em 2006. Desde então tomou conta dos três ramos do poder e, seguindo o exemplo dos Somoza, tem a mulher na vice-presidência e vários dos seus filhos em postos-chave.

Ler mais

Exclusivos

Premium

Rosália Amorim

Crédito: teremos aprendido a lição?

Crédito para a habitação, crédito para o carro, crédito para as obras, crédito para as férias, crédito para tudo... Foi assim a vida de muitos portugueses antes da crise, a contrair crédito sobre crédito. Particulares e também os bancos (que facilitaram demais) ficaram com culpas no cartório. A pergunta que vale a pena fazer hoje é se, depois da crise e da intervenção da troika, a realidade terá mudado assim tanto? Parece que não. Hoje não é só o Estado que está sobre-endividado, mas são também os privados, quer as empresas quer os particulares.