Reportagem na Venezuela: crimes, inflação e garimpeiros de esgoto

Numa viagem a Caracas, o enviado do DN Madeira encontrou crime, gente a trocar comida por trabalho e pessoas a procurar coisas no lixo e no rio.

Os problemas na Venezuela exigem a quem fica esforço e imaginação. Permanente. Sem baixar as defesas. Uma economia que caminha para o abismo. A hiperinflação faz que os menus dos restaurantes tenham de ser atualizados pelo menos duas vezes por semana. Quando um paciente entra numa clínica é feita uma estimativa, à saída tem de desembolsar mais uns quantos milhões de bolívares. É assim, aos milhões. Um orçamento, para o que quer que seja, tem as horas contadas. Perde a validade pouco tempo depois.

Os salários tornam-se ainda mais ridículos. Um professor universitário pode ganhar o equivalente a meia dúzia de euros, no mercado paralelo. Há vários sítios na internet que apresentam números, mas como são muitos díspares, há um que faz uma média e que é seguido por quem quer comprar moeda estrangeira. Sempre uma estimativa.

Inflação galopante

Num centro comercial, em Caracas, o gerente de uma loja de roupa mostra duas camisas iguais, da mesma marca e tamanho, apenas diferem na cor. Uma custava dois milhões, a outra, 12 milhões de bolívares. Separava-as dois meses na compra. O mesmo gerente, bem vestido, ao lado de quatro funcionários parados à espera de clientes, aponta para uma fila de gente que está do lado de fora da vedação do espaço comercial à espera da chegada de algum produto a custo controlado ao supermercado vizinho e diz: "Se eu estivesse ali, podia esperar umas seis horas, é verdade, mas ganhava mais, num dia, do que aqui, num mês, a vender camisas."

As contas são fáceis. Um quilo de farinha pode atingir dez vezes esse valor na candonga. Ora, se conseguir cinco quilos, que é a quantidade máxima que pode ser adquirida e eventualmente juntar a outros produtos, obtém-se num dia o equivalente ao salário mínimo, já com os valores atualizados na passada quarta-feira.

Quase todas as transações são feitas por cartão de débito. Há muitas trocas diretas. Numa praça, numa zona industrial, ao lado de um populoso bairro de lata, vende-se de tudo. Impressiona a falta de qualidade dos produtos expostos, desde sapatos velhos, roupas usadas, componentes de telemóveis, até de cigarros àvenda à unidade. É possível trocar açúcar por farinha ou azeite.

Sobrevivência

Há muitos serviços e produtos que estão, como se diz na Venezuela, "dolarizados", ou seja, inacessíveis à maioria das famílias que fazem das tripas coração para arranjar comida para a refeição seguinte. Um empresário madeirense na área da panificação, natural da freguesia do Campanário, conta que um dos empregados pediu para fazer mais um turno de oito horas em troca de uma refeição. É menos uma boca a comer lá em casa, explicou o funcionário.

É frequente encontrar gente a remexer o lixo. De todas as idades. Velhos e meninos, alguns deles até bem vestidos, de mochila às costas, procuram os restos dos restos. No mesmo lixo que já foi vasculhado várias vezes. Uma classe média que empobreceu drasticamente.

Há quem, entre a comunidade portuguesa, consiga viver das poupanças. Dinheiro que está fora do país, em moeda estrangeira. Uma vida de esforço. Aos mais pobres, o governo distribui um cabaz com produtos alimentícios e um «Cartão da Pátria» permite o acesso a alguns produtos, como farinha de milho, azeite, massas, leite a preços controlados. Alguns desses produtos são revendidos a preços que, nalguns casos, chegam a atingir dez vezes mais.

Insegurança

Respira-se incerteza. Sente-se o clima de insegurança. Nos pequenos gestos do dia-a-dia. No não atender o telemóvel na rua. Ter mais um telemóvel barato e algum dinheiro para o eventual assalto. Sucedem-se os avisos, especialmente para quem vem de fora. Cuidado com os motociclistas. A maioria dos assaltos chegam por duas rodas. Sempre que possível, não parar nos semáforos nem em operações stop. Especialmente à noite. Há zonas proibidas, a partir de certa hora, incluindo autoestradas. Um dos estratagemas é lançar pregos com várias pontas (chamam-lhes miguelitos) para furar os pneus. Obrigados a parar, o assalto é quase certo.

Nunca apanhar um táxi, especialmente no aeroporto. Qualquer um pode ser taxista, basta um letreiro em cima do carro. Um computador na bagagem de mão significa vários anos de trabalho. É uma tentação. Cuidado com os polícias e militares fardados, podem ser criminosos disfarçados ou verdadeiros agentes do crime.

Todos os cuidados são poucos se se circula de noite. Vidros escuros fechados, de preferência em caravana com os quatro piscas ligados, pelo menos um dos carros vai com armas, ou pretende dar essa ideia. Um jornal não afeto ao regime - há pelo menos dois jornais que sobrevivem - ainda noticia que dois cadáveres apareceram manietados e com sinais de tortura.

Um amigo relata que roubaram um carro de uns familiares, com o casal lá dentro. "Felizmente que o abandonaram, já fora de Caracas, algum tempo depois. Felizmente porque só ele ficou com as marcas de uns golpes. Podia ser muito pior. Podiam exigir resgaste."

Quem não ouviu falar de sequestros? E não há confiança para ir à polícia apresentar queixa, pois pode haver agentes envolvidos. São muitos os casos. Raramente até são notícia. É como se não existissem. Crimes impunes. O que mais assusta é a impunidade. A vida parece ter pouco valor. Mata-se porque sim. Uma guerra não declarada, diária, mais mortífera, garantem-me, do que muitas guerras que abrem os telejornais. Não há estatísticas oficiais. Muitos dos crimes acontecem sem qualquer consequência. A falta de meios de investigação, a quantidade de crimes e a falta de respostas dos meios judiciais são dos grandes problemas do país.

Os mineiros do rio Guaire

Sintomático da situação económica do país é o que se vê no pequeno rio Guaire. A principal via fluvial que atravessa o vale de Caracas acolhe as águas residuais e os esgotos sem qualquer tratamento. É comum ver várias pessoas, a maioria jovens, em tronco nu e sem qualquer outra proteção com as mãos enfiadas na água contaminada à procura de objetos de valor.

O objetivo é encontrar joias, mas se aparecer um fio de cobre pode ser uma ajuda para matar a fome. O processo é simples, passa por retirar o material que encontram, incluindo areias e pedras, para um lugar seco onde é feita uma escolha mais apurada.

Outras vezes, com a água pelos joelhos, as mãos vão tateando o leito escuro. Como é fácil de ver, quem se sujeita a esta atividade fica exposto a várias doenças, pois, os dedos ficam com feridas à medida que percorrem o fundo do rio. Fazem-no porque não encontram alternativa. Perseguem o sonho de encontrar um anel, um fio, uma joia que compense o esforço e o perigo. Perigo esse que não acaba quando termina a jornada. Há sempre a possibilidade de ser assaltado, até por gente com um disfarce de uma qualquer autoridade. É a luta pela sobrevivência.

A falta de notas

A falta de dinheiro vivo é tão grande que um dos negócios mais badalados é a venda do próprio dinheiro. As notas atingem facilmente o dobro do valor facial. Nos bancos não há dinheiro e nos terminais de multibanco, quando o têm, a quantidade que se pode levantar é extremamente baixa.

Pelo interior do país, onde a escassez é ainda maior, as diferentes notas de bolívar podem valer 200% a mais. A solução é o cartão multibanco. Mas nas agências bancárias não há cartões. Sim, não há cartões. É frequente ver enormes filas para o multibanco, quando corre a notícia de que há dinheiro disponível. A quantia que se pode levantar é irrisória.

Cada vez menos transportes

Ficar "trancado" no trânsito, como se diz em terras venezuelanas, deixou de fazer parte do quotidiano. Os "engarrafamentos" apenas se dão quando há acidentes (muito frequentes) ou obras na estrada (pouco frequentes). Muitas viaturas foram obrigadas a parar por falta de peças. Quando há são a custos elevadíssimos. Um pneu, diz-nos um emigrante madeirense, ultrapassa várias vezes o custo da viatura quando foi adquirida. Sucedem-se os relatos de furtos de pneus, até do óleo do motor.

Os transportes públicos estão praticamente paralisados. A procura de táxis baixou significativamente. Alguns profissionais garantem que mais de metade foi obrigada a parar. Ou por falta de peças, baixa procura, mas especialmente por falta de dinheiro vivo. Como não há notas, e as trocas são feitas por multibanco, e os taxistas não têm terminais, os clientes não entram. Por falta de autocarros, muitas vezes o transporte de passageiros é feito em camiões com evidentes falhas de segurança e de conforto. Foi noticiado que apenas 5% da frota de autocarros estaria operacional. Os militares são chamados à ação. Um acidente grave em Mérida, uma cidade do interior, com um camião que transportava passageiros matou várias pessoas e suscitou uma polémica nas redes sociais.

Em relação aos táxis, quem beneficia é a concorrência feita através de plataformas digitais como a Uber. Aí não é necessário o pagamento direto e serve as classes média e alta. Refira-se que, em Caracas, qualquer viatura pode usar o dístico táxi, basta adquiri-lo, sem qualquer licença prévia. O que pode ser uma aventura recorrer a este serviço, especialmente em zonas consideradas críticas e/ou fora de horas. Mesmo no aeroporto internacional onde, à saída, há vários convites para o transporte.

Mais informação em Diário de Notícias da Madeira.

Ler mais

Exclusivos

Premium

Rosália Amorim

"Sem emoção não há uma boa relação"

A frase calorosa é do primeiro-ministro António Costa, na visita oficial a Angola. Foi recebido com pompa e circunstância, por oito ministros e pelo governador do banco central e com honras de parada militar. Em África a simbologia desta grande receção foi marcante e é verdadeiramente importante. Angola demonstrou, para dentro e para fora, que Portugal continua a ser um parceiro importante. Ontem, o encontro previsto com João Lourenço foi igualmente simbólico e relevante para o futuro desta aliança estratégica.

Premium

Diário de Notícias

A ditadura em Espanha

A manchete deste dia 19 de setembro de 1923 fazia-se de notícias do país vizinho: a ditadura em Espanha. "Primo de Rivera propõe-se governar três meses", noticiava o DN, acrescentando que, "findo esse prazo, verá se a opinião pública o anima a organizar ministério constitucional". Explicava este jornal então que "o partido conservador condena o movimento e protesta contra as acusações que lhe são feitas pelo ditador".