"Fui violada e fugi. Queriam que casasse com um homem velho"

Histórias de crianças violadas e obrigadas a casar na Guiné-Bissau

A tia agarrou-a pelas mãos, enquanto o homem "velho", mais velho que o pai, a violava. Era com ele que tinha de casar, com um marido que já tinha quatro mulheres.

É assim que Sara (nome fictício) do norte da Guiné-Bissau lembra o horror do seu casamento forçado. Tinha 17 anos.

"Eu não quis casar e ele violou-me, fiquei doente e fui levada para o hospital", contou Sara, hoje com 18 anos, à Lusa.

Foi no hospital, onde acabou por ser levada devido aos maus tratos, que foi feita a denúncia e a polícia foi buscá-la e entregou-a à casa de acolhimento da Associação dos Amigos da Criança (AMIC), em Bissau.

"Esteve seis meses internada", explicou Fernando Cá, da AMIC e responsável pelo centro de acolhimento.

A Joana (nome fictício) tem hoje 19 anos, mas chegou à casa de acolhimento há quatro, tinha 15 anos, e é outra vítima do casamento forçado na Guiné-Bissau.

"Tinha quatro mulheres e eu ia ser a quinta. Fui violada e fugi. Como o meu pai morreu fui obrigada pelos tios, mas a minha mãe não queria", contou à Lusa.

A história das quase 40 meninas que residem na casa de acolhimento da AMIC em Bissau é igual. Todas foram violadas, muitas engravidaram, por homens muitos mais velhos que elas com quem deviam casar obrigadas pelas famílias.

É um fenómeno transversal a quase todas as etnias na Guiné-Bissau e a "maior parte são crianças órfãs de pai ou de mãe ou de ambos ou filhas de pais separados", disse Fernando Cá.

Na casa de acolhimento têm segurança, o mais importante depois de uma meninice perdida, mas também vão à escola, enquanto criam os seus filhos.

A Sara quer ser médica. Já a Joana quer estudar, formar-se e "acabar com as tentativas de casamento forçado na Guiné-Bissau".

Às outras meninas, às que ainda podem vir a ser vítimas como elas, dizem para estudarem e recusarem o casamento forçado, "custe o que custar".

"A escola é a única porta para ter sucesso na vida e não o casamento forçado", concluiu Sara.

Na Guiné-Bissau, segundo um estudo da Casa dos Direitos, 41% das mulheres foram obrigadas a casar com um homem que não queriam.

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