Rajoy recusa à ETA contrapartidas pelo seu desarmamento

Organização terrorista forneceu ontem a localização de oito esconderijos com 120 armas e três toneladas de explosivos

A Euskadi Ta Askatasuna (ETA) concretizou ontem o seu desarmamento após mais de meio século de luta pela independência de Euskal Herria (Grande País Basco, que incluía o País Basco espanhol, Navarra e zonas de França). A organização terrorista identificou oito esconderijos, os chamados zulos, onde ainda tinha escondidos 120 armas de fogo, três toneladas de explosivos e vários milhares de munições e de detonadores. As reações a este desarmamento não foram, porém, uniformes.

Michel Tuniana, do Comité Internacional de Verificação, organização independente que não é reconhecida por Madrid e Paris, informou, em Baiona, França, que foram enviados 172 observadores aos depósitos da ETA para "comprovar que são as autoridades francesas que irão tomar posse". O ministro do Interior francês considerou que a entrega unilateral das armas é "um grande passo". Matthias Fekl, falando em Paris, em declarações à imprensa, disse: "Esta etapa de neutralização de um arsenal de armas e explosivos é um grande passo" e um "dia, sem dúvida, importante".

A reação do governo espanhol foi, porém, mais dura. "Os terroristas não podem esperar nenhum tratamento de favor do governo e muito menos impunidade pelos seus delitos", disse o Executivo de Mariano Rajoy, num comunicado à imprensa. O governo do PP acusou ainda a ETA de ter montado uma operação mediática para disfarçar a sua derrota. O Executivo assinala que a ETA "está operacionalmente derrotada, sem futuro e com os dirigentes na prisão" e que a sua "única resposta lógica a esta situação é anunciar a sua dissolução definitiva, pedir perdão às suas vítimas e desaparecer em vez de montar operações mediáticas para dissimular a sua derrota e tentar obter ganhos políticos". Madrid garante que vai continuar "a velar pelo cumprimento da lei e a segurança dos cidadãos", assim como pelo "respeito e homenagem" às vítimas do terrorismo, cujo testemunho foi "fundamental para a derrota do grupo terrorista".

Do lado da esquerda independentista basca, o secretário-geral do Sortu, Arnaldo Otegi, ex-dirigente do Batasuna que esteve preso por ligações à ETA, declarou-se bastante satisfeito com o desarmamento da organização. Mas considerou que é preciso "liberdade para os presos doentes, o fim da dispersão dos presos [haverá 360 em prisões de Espanha e França] e a desmilitarização do país [a saída da Polícia Nacional espanhola e da Guardia Civil do País Basco]". Também o deputado Julen Arzuaga, da coligação EH Bildu, insistiu nesses mesmo temas. "Parece que a ETA passou das palavras aos atos. É uma organização desarmada. Esta é uma situação nova que encerra um ciclo e dá a oportunidade para abrir um outro novo ciclo, no qual se passe das diferenças, legítimas, aos pontos em comum".

Do lado do governo basco, o lehendakari Iñigo Urkullu, do Partido Nacionalista Basco (PNV), considerou que ontem se deu "um passo fundamental" para a paz. "A confirmação do desarmamento legal, definitivo e sem contrapartidas é um passo fundamental no processo ordenado do fim da violência e desaparecimento da ETA", declarou o presidente do governo autónomo do País Basco. Quem também reagiu foi o ex-primeiro-ministro espanhol José Luis Rodríguez Zapatero, do PSOE, que tentou, sem sucesso, negociar com a ETA durante uma trégua. Este pediu a Rajoy que ouça Urkullu. "Foi fundamental ao longo dos anos. Eu confiaria na política de Urkullu".

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