Radovan Karadzic condenado a 40 anos de prisão por genocídio

Karadzic foi considerado culpado do genocídio de Srebrenica de 1995 e de outros nove crimes de guerra. Vai recorrer

Radovan Karadzic, 70 anos, foi sentenciado a 40 anos de prisão pelo Tribunal Penal Internacional para a ex-Jugoslávia.

Mais de 20 anos após o fim da guerra civil na Bósnia-Herzegovina, o antigo líder político dos sérvios bósnios foi considerado culpado de 10 das 11 acusações que sobre ele recaiam por genocídio, crimes contra a humanidade e crimes de guerra cometidos durante a guerra na Bósnia (abril de 1992 - novembro de 1995) que provocou mais de 100 mil mortos e 2,2 milhões de deslocados.

"Radovan Karadzic, o tribunal condena-vos a 40 anos de detenção", afirmou o juiz Gon Kwon, após ter rejeitado uma das duas acusações de genocídio, em sete municipalidades da Bósnia.

Karadzic torna-se o mais alto responsável a ser condenado por este tribunal, uma instituição judicial 'ad hoc' da ONU.

O advogado de defesa anunciou entretanto que Karadzic vai recorrer da sentença. "Está desapontado e espantado", assegurou Peter Robinson aos jornalistas. "Ele pensa que foi condenado na base de deduções e vai interpor apelo do julgamento".

Com a confirmação desta acusação, Karadzic é o primeiro indiciado do TPIJ a ser condenado por genocídio durante as guerras jugoslavas, uma sentença que poderá ter um enorme impacto para as organizações das vítimas e a opinião pública de Sarajevo, que em 2008 celebrou a sua detenção.

Do lado sérvio, muitos consideram pelo contrário o TPIJ como uma jurisdição parcial, e esta sentença poderá ser explorada de forma nacionalista pelo governo de Banja Luka, capital da entidade sérvia da Bósnia.

De acordo com a acusação, Radovan Karadzic pretendia dividir a Bósnia e "expulsar em definitivo os muçulmanos e croatas dos territórios reivindicados pelos sérvios da Bósnia".

Radovan Karadzic estava designadamente acusado de genocídio pelo massacre de cerca de 8.000 homens e adolescentes muçulmanos em Srebrenica em julho de 1995, e que segundo a acusação se inscrevia no plano de "limpeza étnica" planificado por Karadzic, por Ratko Mladic (o chefe militar dos sérvios bósnios e também em julgamento no TPIJ) e por Milosevic após o desmembramento da Jugoslávia.

Foi ainda acusado de genocídio em outros municípios da Bósnia, mas também deve responder por perseguições, mortes, violações, tratamentos inumanos ou transferências forçadas de populações.

A acusação também lhe atribuiu a responsabilidade pelo cerco de Sarajevo, que se prolongou por 44 meses e provocou 10.000 mortos, para além dos campos de detenção com "condições de vida inumanas".

Em entrevista concedida na quarta-feira ao BIRN, uma rede digital de jornalistas da região balcânica, o ex-líder sérvio bósnio disse que esperava ser "absolvido" e assegurou que manteve um "combate permanente pela paz", considerando que a "ingerência de potências estrangeiras na crise" impediu um acordo político antes do início da guerra, em abril de 1992.

Antes, em janeiro e março de 1992, Karadzic participou em Lisboa, juntamente com os então líderes muçulmano e croata bósnios, Alija Izetbegovic e Mate Boban, na miniconferência de paz mediada pelo embaixador português José Cutileiro, que resultou na assinatura do "Acordo de Lisboa", depois conhecido por "plano Cutileiro" mas nunca concretizado.

Após ter-se considerado "não culpado" perante a instância judicial em março de 2009, o seu processo com mais de 47.500 páginas de transcrições e 115.000 páginas de elementos de prova terminou em outubro de 2014, na sequência de 497 dias de audiências e 586 testemunhas.

Karadzic manteve sempre a sua posição no decurso do julgamento e no final de 2012 declarava aos juízes do TPIJ: "Fiz tudo o que era humanamente possível para evitar a guerra e reduzir o sofrimento humano".

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