Quim Torra falha investidura à primeira e fica nas mãos da CUP

Candidatura de Unidade Popular decide amanhã se viabiliza ou não a investidura de Quim Torra como presidente da Generalitat

Quim Torra não conseguiu hoje ser eleito presidente do governo autónomo catalão, depois de os quatro eleitos pela Candidatura de Unidade Popular (CUP) terem optado pela abstenção. Os 66 votos a favor não chegaram para eleger o candidato designado por Carles Puigdemont, ex-presidente da Generalitat que está atualmente refugiado em Berlim. Na segunda-feira, na segunda votação, Torra precisa apenas de maioria simples para conseguir a investidura. Mas tudo depende do que decidir a CUP, que amanhã consultará as suas bases.

O partido considera que Torra, deputado da Junts per Catalunya e ex-presidente da Òmnium Cultural, é demasiado liberal. E temem que este não avance de facto para uma república independente da Catalunha e "para uma rutura com a Espanha e com o Borbón". Por isso o partido vai questionar as bases sobre se querem ou não facilitar a investidura do candidato da Junts per Catalunya e, em caso afirmativo, se preferem fazê-lo por via da abstenção ou de um voto afirmativo. A decisão, dizem os media espanhóis, deve ser conhecida amanhã à tarde. Nas mãos da CUP está o determinar se Torra se tornará ou não o quarto candidato falhado a líder da Generalitat. Caso não haja um novo governo na Catalunha até à meia-noite de dia 22, ficam automaticamente convocadas eleições autonómicas.

Apesar de aparentemente não ter convencido os líderes da CUP, no discurso que ontem fez perante o parlamento da Catalunha (onde os laços amarelos assinalam os lugares dos eleitos independentistas que estão atualmente presos por causa do referendo ilegal de 1 de outubro) Torra comprometeu-se com a ideia de uma república catalã. Prometendo ser "leal ao mandato" para "construir um Estado independente em forma de república", o candidato da Junts per Catalunya confirmou estar de "mão estendida" em relação ao executivo do primeiro-ministro espanhol Mariano Rajoy para um "diálogo de governo para governo".

Quim Torra falou em inglês para se dirigir ao presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, pedindo diálogo e mediação a fim de se "encontrar uma solução política" para a Catalunha. As forças independentistas catalãs, advertiu, "vão persistir, insistir e investir" em Carles Puigdemont no futuro, clarificando que o seu governo assume agora "toda a responsabilidade" pelos seus atos.

Torra, de 55 anos, recordou os "presos políticos e os exilados", numa referência a ex-membros do governo catalão de Puigdemont, salientando que "deveria ser ele a fazer este discurso e deverá ser ele logo que possível a fazê-lo". Através do Twitter, a partir de Berlim, Puigdemont considerou o discurso de Torra "brilhante" e "imbatível", com passagens que "dão toda a dimensão histórica que exige o momento excecional que vive a Catalunha". Numa entrevista publicada pelo jornal italiano La Stampa, Puigdemont avisou que haverá novas eleições na Catalunha a partir de 27 de outubro, "se o governo espanhol continuar com esta perseguição".

A aguardar decisão da justiça alemã sobre a sua extradição para Espanha à luz de uma ordem europeia de detenção, Puigdemont admitiu na entrevista que foi um erro não declarar logo a independência da Catalunha a seguir ao referendo de 1 de outubro do ano passado, deixando-a em suspenso à espera de uma mediação. "Eu devia ter declarado a independência mas chegaram-me mensagens a dizer que Rajoy queria falar".

Em vez disso o que aconteceu foi que o governo espanhol ativou o artigo 155.º da Constituição (algo inédito até ao momento), suspendendo a autonomia da Catalunha e chamando a Madrid o poder sobre as instituições catalãs. Ao advogar a reabertura das representações catalãs no estrangeiro e o lançamento de uma assembleia constituinte para redigir nova uma constituição da república catalã, Torra lançou um plano de contra-ataque contra a implementação do artigo 155.º

Numa reação ao discurso, Rajoy salientou que embora aguarde para avaliar o desempenho de Torra, não gostou do que viu e ouviu e garantiu que o governo espanhol garantirá em qualquer o momento o cumprimento da lei. Para o chefe do executivo de Espanha, o que disse Torra não é representativo do que é a Catalunha, no entanto, escusou-se a fazer juízos de valor sobre o candidato da Junts per Catalunya. O secretário-geral da oposição socialista, Pedro Sánchez, pediu a Torra para começar uma legislatura autónoma respeitando a Constituição espanhola e para governar "para o conjunto dos catalães" e não só para os 47% que votaram a favor da independência.

Do lado da líder da oposição catalã, Inés Arrimadas, do Ciudadanos da Catalunha, advertiu que Torra levará a Catalunha para mais um momento de confronto e choque. Arrimadas chegou mesmo a dizer que Torra é mais radical do que Puigdemont e todos os candidatos anteriores à investidura como líder da Generalitat, que mais parece querer liderar um dos comités de defesa da república do que um governo. "Uma pessoa que tivesse dito essas barbaridades sobre qualquer outra nacionalidade, raça ou etnia não poderia ser presidente da Generalitat. Mas humilhar os catalães que se sentem espanhóis e o resto dos cidadãos de Espanha sai grátis", escreveu Arrimadas, no Twitter.

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Anselmo Borges

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